Pequenos Deuses

Uma cômica visão sobre as crenças humanas

“O maior problema em ser um Deus, é não ter para quem orar. ”

Imagine que o mundo é plano e toda sua extensão é sustentada pelos ombros de quatro elefantes gigantescos, que, por sua vez, estão sobre o casco de uma imensa tartaruga. Esse é o conceito base para a série de livros do escritor inglês Terry Pratchett que, infelizmente, veio a falecer esse ano. A série de livros começou a ser publicada em 1983 e o último livro, o 39º Discworld, foi lançado em 2011. Infelizmente, poucos livros dessa hilária série foram publicados no Brasil, mas a editora Bertrand deve mudar isso. A primeira publicação deles é o 13º livro da série, Pequenos Deuses, e não poderiam ter escolhido uma história melhor para começar.

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Primeiramente devo explicar como funcionam os Deuses aqui nessa mitologia. De onde vem os Deuses? Para onde vão? O que fazem? Os Deuses querem fieis. Querem quem acredite neles. É da crença que seus poderes vêm. Um Deus com muitos crentes é um Deus poderoso, grandioso. Exércitos de pregadores, fieis fazendo tudo para agrada-lo, muitos sacrifícios e um domínio, em terras, muito maior. Um Deus sem crentes é muito pequeno. Quase um nada. Apenas uma sujeira buscando pela superfície do mundo alguém para acreditar.

Em Pequenos Deuses, acompanhamos o Grande Deus Om e seu fiel, talvez único, profeta Brutha. Conhecemos esses Deus que, por se distrair em sua grandeza, acabou perdendo de vista seus seguidores e agora pode se encontrar com apenas um crente. Mas um Grande Deus com apenas um crente não pode ser um Grande Deus.

“Qualquer deus poderia começar pequeno. Qualquer deus poderia crescer em estatura quando seus fieís aumentassem. E decrescer à medida que diminuíssem. Era como um grande jogo de escadas e serpentes.
Deuses gostavam de jogos, desde que estivessem ganhando.”

Muitas pessoas acreditam que Pequenos Deuses é uma alfinetada em algumas religiões especificas. Eu discordo. Pequenos Deuses é muito mais sobre o que acreditamos ser verdade e como a crença cega em algo pode ser perigosa do que sobre realmente os males de uma religião. Na história, Brutha é um noviço da Igreja Omniana, cuja entidade é o dito Grande Deus Om, e é por muitos vista como a representação da Igreja Católica durante a idade média. Talvez seja. Sinceramente, acho que muitas religiões utilizam das mesmas técnicas usadas pela Omniana: não há perdão para seus pecados; não acreditar em Om ou seus profetas é um caminho certo para a morte; a Quisição jamais está errada, pois errar significaria um erro do próprio Deus. Não é apenas a Igreja Católica a brincar com isso.

No livro, acompanhamos de maneira muito engraçada e ao mesmo tempo profunda uma guerra santa acontecer. Omnia possui grandes terras, mas seu Deus agora está enfraquecido enquanto os Deuses vizinhos se tornam mais poderosos. É muito bacana acompanhar o desenvolver da história, por isso, não entrarei em delongas sobre a trama (que não é lá muito complicada). Brutha, como disse lá em cima, é apenas um noviço que faz seu trabalho sem questionar as coisas. Ele está sempre disposto a ajudar quem for. E é por isso que quando o Grande Deus Om aparece em forma de uma pequena tartaruga, mesmo desconfiado, ele ajuda a criatura. O Grande Deus Om deveria se manifestar como uma grande criatura, como um grande touro com chamas saindo de suas narinas, mas ele está enfraquecido. Ele é apenas uma pequena tartaruga. Ele precisa do bondoso e crente Brutha da Igreja do Grande Om para conseguir se comunicar com seus supostos fieis e recuperar suas forças.

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O problema é que não era a ele que as pessoas de Omnia acreditavam. Como Brutha diz que certa parte do livro, quando você bate em um asno com um graveto por um tempo, o graveto é tudo o que o asno acredita. Nem o asno, nem o Deus se beneficiam. Apenas os que seguram o graveto. É o que aconteceu em Omnia. A Igreja não era mais um transmissor de fé. Era um transmissor de medo. As pessoas não obedecem seu Deus por amor, as pessoas obedecem seu a Igreja por medo. E é por essa razão que temos pessoas como o vilão da história, o Diácono Vorbis, um homem sem emoções que sabia de tudo. E quando eu digo sem emoções, é sem emoções mesmo. Todas as cenas em que ele aparece, somos lembrados disso. Ele é o homem mais perigoso. Ele é tudo o que há de errado com a Igreja.

“O medo é uma terra estranha. Nele, a obediência cresce como milho, em fileiras que facilitam a colheita. Mas, às vezes, nele crescem as batatas do desafio, que florescem no subsolo.”

A beleza do livro está em como Pratchett consegue tocar em pontos tão delicados, a ponto de gerar uma polemica imensa quanto a sua real intenção, de uma maneira tão divertida. Acreditem quando eu digo que esse livro é hilário. O leitor é levado a questionar tudo o que acredita, toda sua maneira de pensar, enquanto rola de rir com as passagens e descrições absurdas. É como se Douglas Adams e a trupe do Monty Python se encontrassem para jogar uma partida de D&D e fazer piadas com Tolkien e C.S. Lewis.

Eu volto a dizer aqui: Pequenos Deuses não é sobre religião. É sobre defender o que você acredita. Eu diria até que é uma defesa aos Deuses. Os humanos precisam de Deuses. No contexto da história, a forma com que os Deuses são apresentados, aqui os humanos precisam de deles. Não é um Deus Onipotente criador de tudo. Estamos falando de Deuses controlados pelos humanos, Deuses que precisam dos humanos tanto quanto os humanos precisam deles. É uma troca justa, se você analisar.

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Se você está procurando por uma leitura dinâmica e que ao mesmo tempo vai te fazer pensar por muito tempo, Pequenos Deuses é a escolha certa. É diversão absurda garantida. Leia o livro de mente aberta e certamente ampliará seus horizontes.

Agora é esperar a Bertrand publicar mais partes dessa série maravilhosa escrita pelo gênio cômico Terry Pratchett. A Tartaruga se move.

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