O Retorno de Mary Poppins (2018)

A singela homenagem de Rob Marshall

Em 1964, Walt Disney alcançava um novo patamar em seu império de animações, trazendo aos cinemas a adaptação do romance Mary Poppins, da autora inglesa P.L. Travers. Apesar dos conflitos entre o produtor e a escritora – que inclusive ganharão uma matéria especial e bem divertida -, o filme tornou-se um sucesso e trouxe um Oscar para a atriz Julie Andrews, a qual encarnara a personagem-título. Mas mais que isso, a narrativa fantástica, ambientada nos primeiros anos do século XX, orquestrou um belíssimo tour-de-force protagonizado pela família Banks, no qual o patriarca era movido pelo dinheiro e não aceitava que seus filhos continuassem crianças (mesmo que fossem). Com a chegada da encantada babá, um mundo de sonhos e de fantasia se abriu, mostrando que muitas vezes o que falta na nossa vida é uma simples colherada de açúcar.

Cinquenta e quatro anos depois, Rob Marshall resolveu mergulhar no universo Disney e reviver a clássica obra, encabeçando o projeto de uma continuação inesperada e que tornou-se uma das grandes sensações do ano. Voltando para o núcleo Banks, agora na época da Grande Depressão, os outrora infantes Michael e Jane Banks já estão crescidos, com suas preocupações da vida adulta, e passam por um triste prospecto: com a queda das ações e um desemprego absurdamente inenarrável, eles podem perder a casa de infância e deixar para trás tudo o que viveram pelas paredes do imenso sobrado. E detalhe: Michael (Ben Whishaw) tem três filhos e, ainda que encarne uma versão mais amenizada, parece estar seguindo os passos do falecido pai, tornando-se austero com o restante da sua família e abandonando a inocente mente que, em uma época diferente, lhe dava perspectivas otimistas.

De qualquer forma, o resultado é muito além do que poderíamos esperar e traz inúmeras referências gritantes à iteração original, além de reverenciar algumas produções da filmografia de Marshall. Entretanto, a mimésis não é a única coisa a respaldar O Retorno de Mary Poppins: as incríveis adições ao elenco, a formulação de uma narrativa mais dramática e a expansão do cosmos londrino encontram terreno fértil e, com exceção de deslizes técnicos e alguns obstáculos óbvios, conseguem satisfazer tanto o público que se aventurou com as epopeias da babá quanto a nova geração que permanece redescobrindo os clássicos do cinema moderno.

Como sempre, Mary Poppins (Emily Blunt) aparece quando as coisas vão de mal a pior. Michael e Jane (Emily Mortimer) procuram incessantemente pelas ações resguardadas no nome da família para salvar sua casa, e as crianças são construídas com uma personalidade mais adulta do que se imagina – e não de modo compulsório, mas sim natural. É aí que, durante uma empreitada entre os bem cuidados bosques da Rua das Cerejeiras, o caçula Georgie (Joel Dawson) quase é levado por uma pipa até ser salvo pela babá praticamente perfeita em todos os aspectos. Além da chegada triunfal, descendo dos céus como uma força divina e emulando Andrews na obra de 1964 com um interessante carisma, ela logo se apropria do comando da família e causa espanto para os dois irmãos dos quais cuidou há muito tempo.

O problema é que ambos creem piamente que os acontecimentos de décadas atrás não passaram do fruto de sua imaginação – mesmo as evidências provando o contrário. E, como se não bastasse, o ceticismo acomete os filhos mais velhos, Anabel (Pixie Davies) e John (Nathanael Saleh). Portanto, cabe a Mary recuperar a inalienável doçura que lhes foi roubada inconscientemente e, para isso, utiliza de uma retórica irônica e polida, algo próprio de sua personalidade para os convencerem de que até o impossível é possível. E é claro, ao longo do caminho ela é auxiliada por companheiros tão maravilhosos quanto ela, como o acendedor de lampiões Jack (Lin-Manuel Miranda) e sua trupe, e até mesmo sua prima Topsy (Meryl Streep).

 

Diferentemente de antes, a estruturação da jornada trilha os passos de um tour-de-force mais formulaico. David Magee aproveitou-se das clássicas empreitadas heroicas para adicionar alguns antagonistas à trama, coisa que não era presente com tanta clareza no filme de Robert Stevenson. Aqui, a tentativa de salvar o casarão é impedida pelas mãos ardilosas do Sr. Wilkins (Colin Firth), novo diretor geral do Fidelity Fiduciary Bank, o qual faz de tudo para manter as ações dos Banks escondidas. Ele sim é engolfado em uma trama vilanesca, a priori parecendo amigável apenas para depois revelar suas verdadeiras ações. Entretanto, estamos falando de uma investida infantil: é quase óbvio esperar que a resolução encontre seu final feliz e que, eventualmente, Mary dê adeus à família mais uma vez quando tudo estiver resolvido.

Muitos podem não gostar ou não se identificar com a estética de Marshall – o que é bastante compreensível. Suas habilidades cinematográficas estão conectadas fortemente com as artes dramáticas. Não é à toa que firmou seu nome na indústria com Chicago e desandou com suas tentativas falhas em Nine e Memórias de uma Gueixa. Entretanto, para que haja a construção de um laço emotivo entre público e filme, é preciso entender que a paixão pelo teatro é indispensável. As falhas cênicas existem em todos os atos, suprimidas pela verborragia dialógica e, por vezes, cansativa: desde a quebra do eixo de câmera até a manutenção de uma zona de conforto, inclusive na cena em que Mary visita sua prima, parece chato comentar sobre o que poderia ser melhorado, mas fazer vista grossa nunca é uma boa opção.

O diretor também aproveita para emular seus próprios longas-metragens. Ao adentrarem no mundo animado, marcando novamente o hibridismo artístico que tanto foi repudiado por Travers e que encantou os espectadores, Mary e Jack mergulham num palco à la Velma Kelly e Roxie Hart – até mesmo o corte de cabelo Chanel, que se tornaria tendência naquela época, volta, com os figurinos estonteantes e um preciosismo imagético peculiar. De qualquer forma, o suposto pedantismo na verdade nem chega a existir, devido principalmente às atuações de Blunt e Miranda, que se transformam e endeusam os escritos da autora em uma épica rendição musical. Miranda também fica responsável por criar as novas canções que em momento algum deixam de nos emocionar e, mais uma vez, marcam a adoração de Marshall pela iteração predecessora.

Talvez o maior mérito resida na soberba direção de arte, que traveste as cinzentas ruas de Londres com um misticismo sobrenatural e expressionista. Desde as cores pastéis até a arquitetura das residências revisitam um anacronismo clássico, também optando, em diversos momentos, pela presença da neblina, a qual prenuncia algum evento divisor de águas. A adorável cena do sapateado, protagonizada por Dick Van Dyke em 64, volta com reformulações mais contemporâneas. Falando nisso, Van Dyke e Julie Walters reprisam não seus papéis, mas personagens que jurávamos serem varridos para debaixo do tapete – o Sr. Dawes Jr. e a empregada Ellen, respectivamente, em performances aplaudíveis.

O Retorno de Mary Poppins não chega aos pés do original, mas também não deixa de nos satisfazer com uma atmosfera suave, gentil e animada. Com um elenco que brilha mais que a própria história, Marshall deixou sua singela homenagem, sem sombra de dúvida. Mesmo com o triste adeus, Mary ainda tem muito a nos ensinar, em meio a suas lições e ao seu único jeito de ser.


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