O Predador (2018)

Uma tentativa fracassada de reviver a franquia

A década de 2010 parece ter entrado num ciclo inquebrantável de nostalgia para a indústria do entretenimento. Desde a criação de continuações que ninguém imaginou ser possível, como Jumanji: Bem-Vindo à Selva (2017), e a ressurreição de franquias lendárias (Alien e Jurassic Park), mergulhar em clássicos e repaginá-los com camadas modernizadas, a priori, se mostra interessante para reavivar uma chama “esquecida” do público agora adulto e levar as novas gerações a conhecer histórias inesquecíveis. Entretanto, não podemos negar que esse apego pelo passado também pode ser complicado, ainda mais quando não se há mais nada a dizer ou quando a presunção desenfreada fala mais alto.

Tal qual foi a surpresa quando os estúdios 20th Century Fox anunciaram que retornariam com mais uma investida no sombrio mundo de Predador, talvez como forma de expandir o universo. É quase automático nos lembrarmos de Arnold Schwarzenegger quando se menciona um dos longas-metragens que, à época, moldaram o gênero da ficção científica e da ação ao lado de seus conterrâneos. Considerando as evoluções nos efeitos especiais e no modo da tradução narrativa, o diretor Shane Black teria em mãos um potencial gigante para fazer mágica – e infelizmente, não foi isso o que aconteceu: o resultado não apenas falha em entregar o mínimo do que promete, mas também incremente elementos cômicos em detrimento da desconstrução da horripilante imagem do personagem-título.

A abertura do filme funciona em sua maior parte como arquitetura atmosférica, já fazendo bom uso de elementos sonoros e visuais para mostrar a chegada de uma espaçonave alienígena à Terra. Apesar do ritmo frenético, o breve prólogo também abre espaço para uma emulação interessante da própria trilha sonora original, com Henry Jackman fundindo o classicismo da década de 1980 com algumas revestidas contemporâneas. Entretanto, essa crescente expectativa cai por terra conforme as múltiplas tramas se engolfam em uma tentativa fracassada de humanizar cada um dos personagens e brincar com viradas de roteiro que na verdade são tão previsíveis quando a continuidade da obra. De fato, os únicos momentos que realmente conseguem envolver o público em uma completude satisfatória são aqueles em que as medonhas criaturas usam e abusam de sua força e suas armas.

Black, responsável também pelo roteiro ao lado de Fred Dekker, procura trazer uma perspectiva interessante para personagens como Quinn McKenna (Boyd Holbrook), dando-lhe uma backstory trágica e que conversa diretamente com o contato com o alienígena. No princípio, isso pode até funcionar, mas não é até a chegada do segundo ato e da entrada de coadjuvantes como Nebraska (Trevante Rhodes), Coyle (Keegan Michael-Key) e Baxley (Thomas Jane) que o público passa a compreender um pouco melhor a organicidade narrativa. Entretanto, o duo responsável pela história peca na dinamização dos acontecimentos: o grupo de desertores lunáticos entra no caminho do Predador por acaso, quando na verdade poderia muito bem ter sido recrutado pelo governo para acabar com a iminente ameaça. Isso abriria margens para uma complexidade mais interessante e até mesmo uma conexão maior entre eles e a audiência.

A personagem de Olivia Munn é outra que não sabe muito bem qual arco seguir. Munn encarna a bióloga-geneticista Casey Bracket, cujo conhecimento acerca dos extraterrestres em questão também insurge de modo inexplicável e a leva para uma facilidade controlada pelo tirânico Traeger (Sterling K. Brown em uma atuação ridiculamente forçada). Na verdade, não sabemos muito bem qual sua relevância para o desenrolar das tramas: além do papel cômico, que casaria muito bem com as outras personalidades irreverentes em qualquer outro tipo de gênero, exceto este, ela dá as caras ocasionalmente para salvar os heróis, em uma espécie de deus ex machina, quando estão à beira da destruição. Ademais, as piadas, mesmo sendo bem construídas e se afastarem da canastrice, simplesmente não casam com o tom da obra – e não deveriam: afinal, esse é, grosso modo, um filme de monstros.

As cenas de ação também sofrem do mesmo mal: Black as coreografa de modo impecável, mas sua quantidade é desnecessária e satura demais todos os outros elementos cinematográficos. Caso Predador se assumisse como uma investida formulaica, seria muito melhor absorvido pelo público e poderia se valer da nostalgia; entretanto, a ideia de ser mais do que consegue o transforma em mais uma presunção do entretenimento vazia e sem nexo. Nem a entrada de Jacob Tremblay como Rory McKenna, o filho supergênio de Quinn, ajuda a melhorar os diversos erros: todavia, ele se mostra mais importante que Casey, visto que traz em seu DNA composições necessárias para a constante evolução dos predadores.

De qualquer modo, não posso tirar mérito do time artístico e na composição estética do personagem-título. Esse é um dos poucos pontos fortes do longa: o alienígena mantém traços característicos do original, mas com reformulações imagéticas que dialogam com sua contemporaneidade e constante evolução. Entretanto, o roteiro retorna para uma perdição cíclica ao humanizá-lo sem explicações lógicas – e, como supracitado, desmistificando seu lendário significado.

Shane Black até tentou expandir o magnífico universo oitentista de uma franquia clássica, mas não conseguiu – aliás, fez o exato oposto disso: é possível até dizer, sem exageros, que o novo mergulho é uma vergonha estrutural ainda maior que o spin-off Alien vs. Predador.


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