Invocação do Mal 2 (2016)

Maior nem sempre é melhor

Enquanto para muita gente Batman v Superman, Capitão América 3: Guerra Civil ou Deadpool foram seus “filmes do ano”, aquele longa que esperamos ansiosamente no decorrer de meses, às vezes anos, o meu foi Invocação do Mal 2.

A segunda década dos anos 2000 trouxe pouquíssimas produções que agradassem fãs do gênero, e quando surgia algo de diferente, era regularmente mediano. Como consequência a linha independente, assim como fontes não mainstream, começaram a crescer, criar e ganhar espaço no cinema; fomos apresentados a novas levas de diretores e diretoras, roteiristas e produtores/as de conteúdo e vários dos subgêneros foram, de uma maneira ou de outra, renovados.

Invocação do Mal 2 (2016) | Maior nem sempre é melhor
Alguns nomes da “velha guarda” retomaram suas atividades (como George Romero), ainda que não dentro dos formatos tradicionais; e conhecemos a força impactante do novo horror brutalista francês, e fomos surpreendidas e surpreendidos com a criatividade dos cinemas tailandês e árabe. E daí chegou Invocação do Mal, em 2013, com o diretor malaio James Wan (Jogos Mortais, Sobrenatural, A Casa dos Mortos), e o ciclo do renascimento do gênero estava completando a sua primeira volta: o retorno à Hollywood (mais ou menos).

Invocação do Mal 2 (2016) | Maior nem sempre é melhor
Com a gritante estrutura de clássicos do gênero dos anos 70 e 80, Wan provou que uma fórmula antiga não significa se render a lugares comuns e repetições, e com o primeiro longa da série que se passa no universo que conta as histórias dos investigadores paranormais Lorraine e Ed Warren, em 2013, veio a confirmação: o terror voltou. Não o terror de repetição fatídica em subgênero, como o Pornô Tortura (popularizado com a série de longas Hostel, 2005, 2007 e 2011, iniciada por Eli Roth, “afilhado” de Sam Raimi – da trilogia original A Morte do Demônio), nem da nova velha fórmula de Atividade Paranormal (2009) de found footage, mas a apresentação de uma história bem construída, escrita e apresentada. Voltamos ao básico dos efeitos práticos, dos jogos de sombras, da ausência & presença de trilha, das múltiplas camadas de som, e do bom e velho medo do escuro.

Com maior parte do investimento partindo do bolso do próprio Wan, além de ser um “projeto de fãs para fãs”, o primeiro longa da série, que seria seguido pelo spin-off Annabelle (2014; dirigido por John R. Leonetti), foi relativamente livre de determinadas amarras do estúdio, o que resultou num blockbuster de terror para uma nova geração de amantes do gênero (e um grande “salve” para a geração mais antiga de fãs). Tendo custado apenas 20 milhões de dólares, o longa rendeu 318 milhões sem contar com as arrecadações em box office, tendo praticamente pago todos os seus gastos por quase que 16 vezes.

Invocação do Mal 2 (2016) | Maior nem sempre é melhor
Como resultado, a Warner e a Sony se envolveram a fundo no projeto de Wan, tornaram possível a filmagem de Annabelle, e a confirmação da esperada continuação, Invocação do Mal 2 (The Conjuring 2: The Enfield Poltergeist). Depois de todo esse background, extremamente necessário para entender o contexto do surgimento da série, podemos finalmente passar para a resenha (mais uma vez: sem spoilers!).

Com um pouco mais que o dobro de orçamento (42,1 milhões de dólares), mais envolvimento dos manda-chuvas, e maior esforço nas campanhas de marketing e maior investimento em locações, a sequência da película de 2013 se diferencia por diversos aspectos. O primeiro deles é a duração: com 133 minutos, pode ser considerado como um filme longo quando tratamos do gênero, sendo que O Exorcista (1973) tem 132 min em sua versão “crua”, lançada em 2003. Aqui, Wan explora muito de várias de suas marcas registradas: diversos takes sem cortes (takes editados são a minoria), câmeras que navegam por dentro dos cenários como se invadissem e deslizassem por dentro de uma maquete, e o uso de  ângulos tortos em planos diferentes para causar estranheza.

Invocação do Mal 2 (2016) | Maior nem sempre é melhor
A parte visual, tecnicamente falando, é a maior estrela do filme. Temos quatro “tipos” de câmera: a que acompanha a ação sob o ponto de vista aproximado aos das personagens, logo atrás de seus ombros;  o ponto de vista sobrenatual (e muitas vezes é engenhosamente sutil); a que navega pelos cenários (como já citado), entrando e saindo por portas e janelas, com visões aéreas amplas ou limitadas, e sempre sem cortes; e, finalmente, a câmera “suspense”, que mantém mais ou menos no mesmo plano o ponto de atenção, seja um canto escuro ou uma porta entreaberta, e ao mesmo tempo alguma personagem da cena.

Invocação do Mal 2 (2016) | Maior nem sempre é melhor
Uma das marcas registradas do diretor malaio é usada nos melhores momentos, em seu auge, e sem exagero: os enquadramentos com ângulos diferentes, com o “quadrado” da câmera sendo preenchido por elementos poligonais que variam em posição a partir de um centro, sofrem rotação e inclinação em múltiplos planos (preste atenção, logo no início do filme, na cena em que Lorraine está prestes a subir as escadas).
Invocação do Mal 2 (2016) | Maior nem sempre é melhor
Além de se passar nos anos 70, o filme adota a metalinguagem imagética de um filme de época, com título, trilha (parecida com a de O Exorcista, mas diferente em referência, apostando na força da trilha em momentos em que o longa de 73 apostou na força da ausência), alguns cortes, e fades.

Invocação do Mal 2 (2016) Maior nem sempre é melhor (RESENHA SEM SPOILERS!)
Faz várias referências a clássicos e momentos icônicos do terror na história do cinema, como (o já mencionado algumas vezes) O Exorcista, A Profecia (1976), Cemitério Maldito (1989), dentre outros.

Invocação do Mal 2 (2016) | Maior nem sempre é melhor
A película abandona parte significativa dos efeitos práticos que funcionaram muito bem anteriormente, substituindo-os por CG não muito bem acabado, o que acaba em um resultado inferior e artificial.

Invocação do Mal 2 (2016) | Maior nem sempre é melhor
Constrói suspense e ansiedade em ritmos diferentes que nem sempre funcionam; às vezes o tempo do anúncio e da execução dos sustos é ligeiramente mal calculada (acontece em pouquíssimos momentos). Diferente de seu predecessor, cai na armadilha dos famosos jumpscares (apesar de acontecerem apenas 3 vezes durante as mais de duas horas de filme – e isso é excelente).

Invocação do Mal 2 (2031) Maior nem sempre é melhor (RESENHA SEM SPOILERS!)
Não é de maneira alguma desonesto com a/o espectador: tudo que foi apresentado como ponto de conflito ou solução já apareceu antes em cena em algum momento, e até o (único) deus ex machina (resolução inverossímil dada a um problema dramático) é extremamente aceitável e até mesmo plausível. O elenco, sem exceção (até os cachorros!), é excelente, mas o destaque vai para o casal de protagonistas que interpreta Lorraine (Vera Farmiga) e Ed Warren (Patrick Wilson), ainda mais pela química consequente de uma amizade de longuíssima data; e principalmente para as crianças, tendo a brilhante e convincente a jovem Madison Wolfe (interpreta Janet Hodgson) como co-protagonista.

Invocação do Mal 2 (2022) Maior nem sempre é melhor (RESENHA SEM SPOILERS!)
O longa parece, em alguns aspectos, menos um filme de James Wan do que o primeiro, o que só confirma a mão dos estúdios sobre o produto final.

Invocação do Mal 2 (2035) Maior nem sempre é melhor (RESENHA SEM SPOILERS!)
A fotografia muda em relação ao primeiro filme, mas continua boa mesmo assim, levando em consideração a intenção de mostrar a “mudança de ares” não só geográfica, mas mais ou menos temática. Três coisas a se prestar atenção: O longa começa em Amytville, um dos casos sobrenaturais mais famosos da história, lançando mão de recursos “reais” para aumentar o clima de imersão; a relação entre os Warren, que vem sendo (muito bem trabalhada) desde o primeiro filme, e mostra que os protagonistas são, antes de tudo, muito amigos.

Invocação do Mal 2 (2025) Maior nem sempre é melhor (RESENHA SEM SPOILERS!)
Finalmente, e talvez a parte mais importante, preste atenção redobrada nos elementos dos cenários. Como já disse, Wan não é desonesto em relação aos elementos que precisará usar na trama, e isso pode lhe trazer uma perspectiva bem diferente do filme. Caso o terceiro filme aconteça (quase certo) é provável que Wan não continue como diretor (o que o próprio James explicou pela pressa dos estúdios em realizarem spin-offs e talvez a continuação, e sua agenda cheia nos próximos anos com as filmagens do próximo Velozes e Furiosos, Aquaman, a produção de Sobrenatural 4, e a produção de A Liga da Justiça).

Invocação do Mal 2 (2030) Maior nem sempre é melhor (RESENHA SEM SPOILERS!)
Sua vaga poderá ser preenchida tranquilamente pelo talentosíssimo co-roteirista Chad Heyes, que assinou os dois longas com o diretor malaio – sendo que sua afeição pela série fez com que confirmasse sua presença como, no mínimo, produtor dos próximos filmes. Apesar de ser notadamente mais fraco do que seu predecessor (o que mostra que nem sempre maior significa melhor – em todos os sentidos, mas principalmente financeiramente), Invocação do Mal 2 é um bom filme de terror que rema na direção oposta de outros títulos, e merece a visita ao cinema.

Invocação do Mal 2 (2016)| Maior nem sempre é melhor (RESENHA SEM SPOILERS!)


Gostou? Tem mais:


VEJA TAMBÉM:

COMENTE:

© 2019 Proibido Ler. Todos os direitos reservados.