Ilha de Cachorros (2018)

Além do que os olhos veem

É muito difícil falar o nome de Wes Anderson e não ser automaticamente transportado para um universo único; afinal, todo bom amante do cinema contemporâneo sabe que o diretor responsável por obras magníficas como O Fantástico Sr. Raposo (2009) e O Grande Hotel Budapeste (2014) é apaixonado por visuais excêntricos e narrativas nem um pouco convencionais que passam pelo proposital charlatanismo, tangenciam o melodrama excessivo e se transformam, na verdade, em uma rendição tragicômica aplaudível recheada de inúmeras críticas sociais disfarçadas por certos convencionalismos da nossa própria vida. Logo, não é nenhuma surpresa que Ilha de Cachorros (2018) também siga em parâmetros parecidos – porém, com algumas técnicas que provam o seu amor pela indústria cinematográfica.

Ilha dos Cachorros é uma criação que vai muito além de sua aparentemente simplista concepção – ora, estamos falando de um produto de Anderson; considerá-la apenas pelos teasers e pelos vídeos promocionais é cair em um dos piores equívocos que se pode imaginar: a narrativa gira em torno da ilha-título à qual todos os cães foram banidos devido a uma conspiração organizada pelo governo japonês, cuja ideologia foi arquitetada e disseminada pelo Prefeito Kobayashi (Kunichi Nomura), induzindo seu próprio povo a acreditar na quantidade absurda de doenças que poderiam ser transmitidas pelos pobres animais. Como tentativa de erradicar a suposta mortal pandemia, todos esses pets foram deportados para o aterro em questão, no qual viveram até encontrarem seu fim.

Com esse pano de fundo, é quase impossível acreditar que a narrativa, respaldando-se ao longo de seu prólogo e do início do primeiro ato na estética documentária, se transformaria em uma das aventuras mais inocentes e profundas dos últimos anos – mostrando inclusive o engajamento político de Anderson e de seu time criativo em relação às barbaridades cometidas pelos próprios seres humanos. Entretanto, como estamos falando do “melhor amigo do homem”, é muito mais fácil compadecer-se e torcer para que finalmente alguém perceba o quão ridícula essa atitude é. Posso inclusive dizer que as delineações do roteiro, também assinado pelo cineasta ao lado uma competente equipe, são intencionais quanto a provocar sentimentos contraditórios nos espectadores, guiando-nos exatamente por onde queria sem cair nos malefícios do pedantismo.

A história tem seu pontapé inicial e definitivo durante cena de luta hilária entre dois pequenos clãs-alfa que disputam por uma sacola de lixo, em busca de alimento; maltratados pelos meses em que permaneceram à deriva na decadente ilha, somos apresentados aos protagonistas – os próprios cães -, dublados por alguns dos maiores nomes da indústria. Anderson preocupa-se bastante em fornecer características diferenciadas para seus personagens, exceto quando, intencionalmente, resolve retratá-los como uma massa amorfa movida pelas drásticas circunstâncias em que se encontram. Insurgindo em construções arquetípicas bem distintas, temos Chief (Bryan Cranston), um vira-lata que na verdade não vê muita diferença entre o agora e o outrora.

Em contrapartida, seus companheiros, todos cães de raça privilegiados em um tempo que há muito deixou de existir, unem-se em diversos momentos cômicos que aliviam a tensão que existe em cena; as construções imagéticas de puro terror fundem-se a diálogos autoexplicativos e filosóficos que se tornam ainda mais pertinentes quando colocados da perspectiva animalesca – Bill Murray, por exemplo, faz um incrível trabalho como Boss, criando uma excelente química ao lado de Jeff Goldblum e Edward Norton encarnando Duke e Rex, respectivamente. Todos eles são movidos por uma nostalgia emocionante, relembrando-se em uma constância cíclica da época em que serviam a seus mestres – enquanto Boss tenta abrir os olhos para uma independência cruel e ao mesmo tempo libertadora.

Tudo muda com a chegada do Pequeno Piloto, o jovem de doze anos Atari (Koyu Rankin), que rouba um aerodinâmico até a Ilha para resgatar o seu companheiro e ajudante Spots (Liev Schreiber), o primeiro cachorro a ser banido do centro urbano japonês. A partir daí, todos mergulham em uma jornada épica conhecida de cima a baixo pelos amantes de fábulas aventurescas, gradativamente colocando suas diferenças de lado para um bem maior, que se revela perigoso à medida em que os eventos se desenrolam. O erro de maior amplitude talvez esteja revelado aqui, quando Anderson resolve brincar com o anacronismo cênico, dividindo a saga em vários capítulos e inserindo flashbacks quando bem entende, fragmentando a história: optar por esse recurso funcionaria muito bem em uma outra trama, na qual o núcleo principal não fosse formado por tantos personagens. Em outras palavras, a utilização de loopings e explicações desnecessárias chega a tornar sua obra um tanto quanto monótona, ainda que em construções pontuais.

Além de sua clara denúncia política, que afasta a concepção fílmica e erroneamente miscível de que “animações são para crianças”, o diretor aproveita o espaço que cria para mostrar o seu amor ao classicismo cinematográfico. Não é à toa que tenha escolhido o stop-motion como seu carro-chefe, abrindo margens emuladoras de iterações predecessoras e que, sem sombra de dúvida, são base para a arquitetura de todo o cosmos criado: desde os enquadramentos propositalmente angustiantes até a paleta de cores – que segue na oscilação entre a intensa neutralidade e a intensa catarse -, as referências aos filmes de Akira Kurosawa estão em todos lugares.

O exemplo mais visível emerge na construção de uma sociedade asiática totalmente opressora que não aceita opiniões divergentes e mascara a suposta liberdade de expressão com agiotas, assassinos de aluguel e mais teorias da conspiração que servem de levante para movimentos protestantes e libertários. Tal pano de fundo nos carrega diretamente para Céu e Inferno (1963), no qual a constante pregação da conquista de obstáculos, do ócio compulsório e da manutenção de uma ordem restritiva são vertentes narrativas que permitem-na ser fluida e compreensiva, mesmo tornando-se complexa vez ou outra. Isso sem mencionar a clara extravagância de Godzilla da qual Anderson se despende – e consegue utilizá-la com maestria – para fornecer alguns twists e floreios muito bem-vindos.

As técnicas de stop-motion basicamente repudiam e encantam, entrando em um paradoxo deliberado tanto por seu criador quanto pela dupla formada por Adam Stockhausen e Paul Harrod, que já trabalharam ao lado do cineasta. Em conjunto, os três optaram por se desvencilhar da construção saturada de Sr. Raposo e inclinaram-se para pequenas concentrações monocromáticas que fornecessem sensações distintas; o apreço pela sinestesia é constante sem se tornar repetitivo. Os personagens, por sua vez, trocam de posição: enquanto os cachorros são antropomorfizados com inúmeras expressões, que também carregam seu próprio grau de fluidez, os humanos restringem-se a poucas mudanças faciais – e a tentativa de quebrar a perspectiva unidimensional da outras tramas tão similares é explorada o máximo que pode e encontra um sucesso definitivo.

Ilha dos Cachorros entra como mais uma obra-prima da filmografia de Wes Anderson, e não apenas pelo tato que o longa carrega consigo, mas também por estar em um patamar mimético digno de nota; é claro, nem todos irão gostar ou se identificar com o que se vê em tela – talvez apreciem mais uma vez a simetria orgásmica de seu diretor -, mas não podemos negar que tudo o que foi criado deve e merece ser lembrado até mesmo daqui vários anos.


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