Corrente do Mal (2014)

Um suspense clássico e contemporâneo

Vivemos uma época difícil para os fãs de terror. Se outrora fomos presenteados com grandes obras cinematográficas que entraram para a história com suas reviravoltas, personagens icônicos e tramas inéditas, hoje somos engolidos pelo monstro do “mais do mesmo”. Quando algo dá certo, a indústria se dedica demais àquilo, fazendo com que o público chegue ao seu limite.

O estilo found-footage é um ótimo exemplo disso. Quando A Bruxa de Blair (1999) chegou aos cinemas, foi algo completamente inovador. Mais tarde, com Atividade Paranormal (2007) o estilo chegaria ao seu auge, e hoje ninguém mais suporta ouvir falar de found-footage.

Pois bem, fora isso temos os reboots e remakes que raramente conseguem satisfazer as expectativas do público. Em uma época com tantas vantagens, tecnologias, acesso a informação e investimento, é decepcionante perceber que a indústria do terror não consegue fazer um filme que se equipare aos grandes sucessos dos anos 70, 80 e 90.

Em meio a essa escuridão, contudo, pode surgir uma luz inesperada e surpreender positivamente quem já não criava expectativas para histórias de terror há um bom tempo. É o caso de Corrente do Mal (2014), um filme original que incorpora detalhes do terror clássico e mistura com o contemporâneo da forma certa.

Corrente do Mal (2014) | Um suspense clássico e contemporâneo

Dirigido e roteirizado por David Robert Mitchell (The Myth of the American Sleepover), que tirou a inspiração para a história de um pesadelo, Corrente do Mal foi considerado um dos melhores filmes de terror da temporada americana. Foi exibido na Seleção Oficial do Festival de Sundance, na Semana da Crítica do Festival de Cannes, no Festival Internacional de Cinema de Toronto e ganhou o prêmio Austin Fantastic Fest de Melhor Filme e Melhor Roteiro.

Corrente do Mal é um sucesso com a crítica especializada, mas deixou o público dividido. Enquanto muitos amaram, vários odiaram e alguns o consideraram “aceitável” – tal como The Babadook (2014). O melhor conselho a seguir antes de assistir este filme é não acreditar em todo o hype em torno dele.

Não estou dizendo que este não é um bom filme, porque é. Entretanto, com a quantidade de louvor que recebeu da crítica especializada, as expectativas se tornaram extremamente elevadas – o que pode fazer com que muitos se decepcionem e considerem uma história interessante, como ruim.

Corrente do Mal (2014) | Um suspense clássico e contemporâneo

Corrente do Mal é um filme sutil, lento e inteligente. Não possui muito sangue e a maioria dos sustos acontecem devido à antecipação subjugada. Este é um filme sobre o medo. O medo de crescer, de perder a inocência, e sim, em certo ponto, sobre o medo de contrair uma DST e viver com ela até a morte.

Jay Height (Maika Monroe) é uma jovem e bonita estudante que mora com sua irmã, Kelly (Lili Sepe), num bairro extremamente calmo de Detroit. É outono e a moça se interessa por um rapaz chamado Hugh (Jake Weary). O casal tem um encontro e a noite termina com uma transa no banco de trás do carro dele. É aí que as coisas começam a ficar estranhas.

Corrente do Mal (2014) | Um suspense clássico e contemporâneo

Hugh faz com que Jay fique inconsciente usando clorofórmio. A moça acorda amarrada em uma cadeira, num lugar desconhecido e escuro, e descobre que o sexo casual lhe rendeu uma maldição.

Não se trata especificamente de uma DST ou de uma gravidez inesperada, mas de uma verdadeira maldição. Hugh explica que uma vez que eles tiveram relações sexuais, uma criatura “sexualmente transmissível” irá segui-la lentamente para todos os lugares onde for. Se a criatura conseguir pega-la, acabará com sua vida de uma maneira horrível. Não há como se esconder ou fugir, apenas passar a maldição adiante ou morrer.

Corrente do Mal (2014) | Um suspense clássico e contemporâneo

Os mistérios de Corrente do Mal são a base para o sucesso do filme. O roteiro não esclarece do que se trata a maldição; não se sabe onde ou como começou, nem se um dia terminará; não se sabe se a criatura é um fantasma, um demônio, uma alucinação ou uma doença; não se sabe como dar um fim definitivo para isso, apenas que é preciso passar adiante o mais rápido possível por meio de relações sexuais.

A tensão é constante do início ao fim. Não é o tipo de filme que dá todas as respostas que os protagonistas precisam após uma pesquisa na internet ou em livros antigos. O mecanismo de terror neste filme é inteligente, alguns momentos deixarão você com os olhos arregalados e outros serão eficazes pelo suspense.

Corrente do Mal (2014) | Um suspense clássico e contemporâneo

Corrente do Mal possui uma atmosfera enervante. Jay e os outros personagens são, muitas vezes, cercados por pessoas e algumas delas caminham em direção a eles. Sempre que isso acontece, o público se pegará procurando pela criatura no fundo de cada cena, e, dessa forma, sentirá exatamente o que os personagens estão sentindo: uma sensação inevitável de morte iminente.

A ambientação atemporal do filme é uma maravilha, uma vez que remete aos filmes de terror do final dos anos 70 e início dos anos 80. Não é possível definir em que época se passa a história, já que, por exemplo, temos filmes em preto e branco na televisão, ao mesmo tempo que smartphones nas mãos dos personagens. Acredito que a ideia é exatamente essa, não deixar nada muito claro e fazer com que a dúvida e o mistério transcendam a tela e toquem o público.

Corrente do Mal (2014) | Um suspense clássico e contemporâneo

O sexo é um assunto muito bem escolhido, não apenas por causa da tradição do horror adolescente, mas porque conecta o espectador com a história. Os fãs vão encontrar muitas referências óbvias aos primeiros trabalhos de John Carpenter, como o fato da presença da criatura ser constante mesmo quando ela não está em cena – no melhor estilo Michael Myers.

Além disso, qualquer longa que apresente uma leitura parcial de “The Love Song of J. Alfred Prufrock”, de TS Eliot e uma citação de Dostoiévski que encapsula o tema do filme, merece um voto de confiança. Corrente do Mal traz uma perspectiva inovadora para o terror e apresenta uma dinâmica interessantes de imersão de público.

Corrente do Mal (2014) | Um suspense clássico e contemporâneo

O roteiro fala sobre os males do sexo? É um conto preventivo sobre doenças sexualmente transmissíveis? É um estudo sobre o crescimento e a inocência deixada para trás? Provavelmente é sobre tudo isso e muito mais. De certa forma, é melhor que o significado da história não fique totalmente claro.

O final é duvidoso e ambíguo, o que decepcionou muitas pessoas. Acredito que estamos acostumados demais a receber todas as respostas que desejamos. Quando uma história exige que cada um a interprete à sua própria maneira, causa amor e ódio, como podemos ver em finais de filmes como Donnie Darko (2001), Laranja Mecânica (1971) e 2001: Uma Odisseia no Espaço (1968). Este filme desafiará você a entendê-lo, mas será que você conseguirá? Nunca se sabe.


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Por Louise


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