Annabelle 3: De Volta Para Casa (2019)

Monstros à solta

O universo Invocação do Mal caiu no gosto popular após expandir-se ao longo de diversas décadas e unir algumas das histórias mais assustadoras do cinema contemporâneo. O filme homônimo de abertura, lançado em 2013, abriu espaço para diversos entrelaços e cross-overs que seriam utilizados muito bem (em grande parte) para dar vida a um inesperado cosmos focado nos demonologistas Ed e Lorraine Warren, interpretados nas telonas pelo icônico casal Patrick Wilson e Vera Farmiga, respectivamente. Depois disso, os casos analisados pela dupla de caçadores paranormais se desmembraria em duas derivações – uma delas assombrando o público até hoje, mesmo que não tenha feito o sucesso prometido à época do lançamento: Annabelle (2013).

É certo dizer que a primeira história envolvendo a demoníaca boneca não causou tanto impacto, mas nos entregou uma competente narrativa em Annabelle 2: A Criação do Mal (2017), preparando o terreno para a suposta conclusão da trilogia. Agora, a personagem-título, mencionada também em outros longas-metragens (como A Maldição da Chorona, neste ano), retorna para a casa dos Warren para se tornar arauto de uma caótica composição de espíritos vingativos e perturbados que se voltaria principalmente para a filha de Ed e Lorraine: Judy (Mckenna Grace). O resultado, por sua vez, é surpreendentemente satisfatório, ainda que abandone alguns elementos-chave que o enquadrem dentro do gênero terror.

Gary Dauberman não é um estranho ao mundo do horror: o roteirista ficou responsável por transcrever ao papel histórias já conhecidas do universo supracitado, além de estar atado ao filme duplo IT: A Coisa, cujo segundo capítulo chega ainda este ano aos cinemas. Dauberman substitui David F. Sandberg na supervisão principal do filme, fazendo sua estreia diretorial com o pé direito: apesar de não conseguir justificar todas as suas escolhas estéticas e narrativas (diferente de Sandberg), o cineasta arquiteta uma atmosfera convincente que se baseia com força em uma mistura de tensões psicológicas e metalinguísticas, abusando de algumas redundâncias e entregas autoexplicativas demais para um projeto como esse.

Dauberman já emula seu mestre James Wan ao introduzir-nos à mais nova jornada sobrenatural de Annabelle, construindo um belíssimo plano-sequência que nos leva, em consequência, para a casa dos Warren. Já aqui, percebemos que as construções cênicas tentam ao máximo seguir um planejamento meticuloso para não se tornarem óbvias demais: os jump-scares, traços marcantes do gênero do qual falamos, não ocorrem em excessos – aliás, nem ao menos parecem dar as caras. O diretor preza bastante pelo cultivo de determinada ambientação – a angústia, por exemplo, é reafirmada por uma espécie de filtro enevoado que fornece uma perspectiva etérea, seja de dia, seja de noite -, mesmo que se mova através de convencionalismos para focar nas quatro subtramas principais.

Grace é acompanhada da dupla Madison Iseman e Katie Sarife, que dão vida às respectivas Mary Jane e Daniela. Mary Jane é a charmosa babá contratada pelos Warren para cuidar de Judy enquanto ambos saem em, supostamente, mais uma caçada demoníaca. Daniela, por sua vez, é a amiga irreverente que se convida para a residência e, como é de esperar, torna-se a força-motriz para o desencadeamento do Inferno na Terra. Afinal, ela é movida pelos infinitos rumores que cercam a família e, ao saber da existência de uma sala de artefatos amaldiçoados, não perde a chance de dar uma conferida – de fato, a cena em questão é longa demais até mesmo para os mais acostumados a um ritmo acuado, ganhando dinamismo no momento em que a sagrada prisão de Annabelle é violada.

A partir daí, o escopo imagético que se mostrava um tanto quanto original, embora repleto de referências, cede a uma cópia escrachada da iteração anterior. Em certo ponto, o trio de protagonistas se separa, causando uma ruptura na linearidade narrativa e obrigando o roteiro, também assinado por Dauberman, a se multiplicar. Ora, até mesmo o par romântico de Mary Ellen é sugado para dentro da história, perdendo-se literalmente no meio da névoa e sendo escorraçado para o ato de conclusão. É notável observar como o diretor procura por fluidez e consegue trazê-la em uma quantidade insuficiente: conforme nos aproximamos das catarses prometidas pela peça fílmica, percebemos que as coisas mergulham numa infeliz pressa.

Entretanto, as três atrizes dotam de uma química interessante – e Sarife rouba a cena várias vezes. Ela, inclusive, faz parte de algumas das sequências mais inteligentes não apenas da obra, mas ouso dizer da saga. O cineasta, ao abrir espaço para que Annabelle atraia todos os espíritos enfrentados pelos Warren até então, também permite a si mesmo explorar outras formas de se contar uma história bastante conhecida. Dauberman faz bom uso de objetos como luminárias e televisões que não necessariamente nos fazem pular da cadeira, e sim mostram o inevitável. Sabemos o que realmente vai acontecer, assim como os personagens – e não há nada que possamos fazer quanto a isso. Dessa forma, o suspense e a tensão presentes de modo que tangencia a exaustividade, também servem como base para uma agonizante impotência.

À medida que caminha para a conclusão, a narrativa perde força e se vale de saídas um tanto quanto formulaicas: diferente das investidas predecessoras – e até mesmo dos outros longas do mesmo universo -, a resolução à la contos de fada prenuncia a aguardada máxima do “são e salvos”, todavia, de forma intangível e forçada demais. O breve enlace entre Lorraine e Katie, buscando uma perspectiva otimista, finca-se dentro de um bloco restrito e descartável, que poderia acabar de outra maneira.

Annabelle 3: De Volta Para Casa (2019) pode se afastar do tom de terror dos outros filmes da franquia, mas, no final das contas, é inesperadamente aprazível por outros momentos. Dauberman faz bom uso de seu tempo dentro do universo e mostra que está preparado para encabeçar outras histórias – as quais devem acontecer, agora que o cosmos se expandiu de forma chocante e exponencial.


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