A Marca do Medo (2014)

Um filme possuído pelo tédio

“A Marca do Medo” ou no original “The Quiet Ones” é um filme de 2014, dirigido por John Pogue.

Nessa minha busca incessante por títulos acessíveis através do streaming Netflix, tive o desprazer de conhecer essa pérola do cinema. Chamo de pérola porque não sei como categorizar uma história tão exagerada da pior forma possível.

A trama de A Marca do Medo gira em torno da jovem Jane Harper (Olivia Cooke – Bates Motel), que durante sua vida toda interagiu com uma boneca chamada Evey (um belo trocadilho para “evil”), que aparentemente está possuída pelo demônio – ou quase isso.

Jane não consegue levar uma vida normal. Ela se fere, não se enturma e é completamente perturbada com sensações horríveis, desde não se reconhecer no olhar no espelho, até se sentir perseguida pelas maldades da boneca.

A Marca do Medo (2014) | Um filme possuído pelo tédio

Ambientado em 1974, o filme acompanha um grupo de pesquisa da Universidade de Oxford, chefiado pelo professor Joseph Coupland (Jared Harris – Mad Men) que pergunta a seus alunos o que são fantasmas e se é possível provar que eles existem.

Como ninguém consegue responder sua pergunta, ele decide reunir uma equipe para fazer um experimento dedicado a comprovar a tese de que a mente humana é responsável por criar seus próprios demônios. Para isso, ele e seu grupo (uma estudante de medicina, um jovem engenheiro e um cinegrafista) isolam a perturbada Jane Harper e começam seu experimento para provar que a aparente possessão demoníaca que domina a jovem é fruto de sua própria mente.

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A história de A Marca do Medo foi inspirada em um experimento do professor Alan George, conhecido como “O Experimento Philip”. É impossível comparar o filme com a realidade. Embora seu elenco seja de primeira, o conteúdo é morno. Um verdadeiro desperdício de talentos indo para o fundo do poço com a Samara.

Jared afirma que tudo vem da nossa mente. Dadas as circunstâncias, ele usa a garota e sua boneca possuída para comprovar sua teoria: algum trauma fez ela dar vida a Evey – uma misteriosa anomalia cerebral ou algo do gênero. Qualquer coisa que comprove que quem projeta os atos da boneca, é a própria Jane, e não forças do mal.

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Uma trama absurda logo de cara, com um professor arrogante, que mesmo ouvindo “não” de seus superiores, perdendo o patrocínio, leva o experimento adiante em uma mansão com aspecto de mal assombrada. Porque é claro, faz todo sentido do mundo você fazer um experimento em um local assim. Não bastasse isso, seus alunos parecem não ter vida própria. Eles se afundam tanto quanto ele nessa pesquisa e largam a faculdade pela metade, como se não tivessem provas, casa, ou o que for.

Por vezes o longa parece um tutorial de como adestrar o diabo. Eles trancam Jane em um quarto por ser altamente perigosa, mas em alguns momentos, a tratam feito um cachorrinho dócil que pode passear tranquilamente e interagir com outras pessoas. Coisa sem sentido algum para o contexto do filme.

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Eles querem despertar a boneca com equipamentos de telecinese, para provar que Jane está criando tudo isso. Mas o exagero não para por aí. Bryan McNeil (Sam Claflin – Jogos Vorazes) é o cinegrafista amador da turma, religioso, que pretende simular o estilo found footage. O cômico é que as imagens apresentam decupagem e elipses durante a gravação. Cheguei a me perguntar “Ué, mas o capeta também edita vídeo?”

Tirando esses “erros”, Bryan é o único que trata Jane como um ser humano e não como um rato de laboratório, questionando os métodos nada eficazes do professor prepotente.

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O cinegrafista parece um príncipe encantado sem cavalo branco – o que também não faz o menor sentido no contexto do filme. Dentre cenas de sustos que abusam do nonsense e tensão, surge outras tão desnecessárias quanto um guarda-chuva em alto mar: eles jogando, músicas de fundo e até fumando um baseado.

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Entre os estudantes, também temos a atriz Erin Richards como Kristina Dalton, uma inglesa com estilo de boneca, verdadeiro objeto sexual nas mãos de dois outros membros da equipe. Harry interpretado pelo ator Rory Fleck, aparenta ser namorado de Kristina e não faz a mínima ideia do que está fazendo nessa história.

Como eu disse inicialmente, o elenco não é desagradável. Os atores se esforçam em seus papéis, mas não existe salvação para um filme ruim. Olivia Cooke se sobressai aos demais, mudando de personalidade algumas vezes, mas com toda certeza merecia uma protagonista com história melhor.

A trama é ambientada nos anos 70 de uma forma bem mais forçada que o convencional, o filme se perdeu inclusive em seu gênero, que por mais que queira ser considerado terror, não consegue atingir um nível aceitável nessa história. Uma tentativa de “REC”, “Carrie a estranha”, “Exorcista” e novela mexicana. Tudo junto e misturado.

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Olha, eu sei que o tinhoso deve ter suas façanhas, mas nessa história ele é quase um bombril de tanta função. Eles misturam tantos elementos que parece uma salada de frutas sabor satanás. A Marca do Medo segue a linha de produção found footage (aquela que supostamente contém registros reais de uma história).

Mas vemos fantasmas, demônios, sombras, bonecas possuídas, casas mal-assombradas, seitas, marcas satânicas na pele e muita, mas muita apelação. O demônio morde, possui, faz tatuagem, encarna bonecas, bota fogo na mão, no colchão, empata foda, só não faz um free step porque não sobra tempo no meio desse circo todo!

A garota branca, naquela velha camisola, com olhos grandes e expressivos, cara de louca, que quer transar a qualquer custo com um religioso, que por sua vez quer salvá-la, o objeto sexual, o cara sem sal que nem deveria estar ali, o professor lunático… Pareceu mais uma tentativa forçada de lembrar cenas importantes de outros filmes de terror e afins, do que contar uma história baseada em fatos reais.

Eu não sei se o ritmo ragatanga possuiu essa história, mas com toda certeza não foi o capeta. Eles apelaram pro lado sexual sem o menor sentido (porque claro que uma mulher possuída e cheia de marcas de luta pelo corpo quer transar com um homem religioso, precisa desesperadamente disso, começa a se tocar e se despir do nada, blá blá bleh). Nem parece um filme da Hammer (produtora famosa nos anos 60 por filmes como Frankenstein).

A Marca do Medo passou por quatro roteiristas, mas deveria ter parado mesmo é na gaveta. Se eu fosse você não assistiria, mas se assistir me conte o que achou.


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