A Lenda de Tarzan (2016)

Novas embalagens, antigos problemas

Background

Por mais que a história de Tarzan esteja presente no imaginário de milhões de pessoas em suas correspondentes gerações (seja de antigas adaptações em filme, e até mesmo das animações da Disney) e, ainda mais, faça parte do imaginário coletivo graças às aventuras repletas de ação e romance, ela entra na categoria de produto cultural criado graças ao pensamento de uma época. Não me levem a mal, eu assisti a adaptação da Disney com as músicas do Phil Collins. Eu também vibrei com as aventuras na série animada para a televisão, no amor entre o protagonista e o seu par, os momentos intensos de ação e o background dramático.

Mas há muito mais por trás disso: escritas por Edgar Rice Burroughs, as histórias de Tarzan foram concebidas como metáforas da superioridade racial e civilizacional que os Europeus acreditavam ter em relação aos Africanos. Nessa época, governantes do velho continente dividiram entre si territórios dos povos africanos, provocando um longo e violento processo de colonização sem precedentes.

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A nova onda de adaptações de clássicos dos contos de fada e histórias da infância de muitos/as de nós consequentemente nos traria aqui: a apresentação antiga x a nova representação. Nisso, você pode ser fiel, ou apresentar uma série de modificações que não necessariamente mudem o núcleo da história. Como em Malévola. Assim que A Lenda de Tarzan foi anunciado, decidi dar a famosa “chance” por acreditar na capacidade e na possibilidade das mudanças, até porque por fatores econômicos, o inclusivo e o contemporâneo são mais rentáveis (vide Rey e Finn em Star Wars, Furiosa em Mad Max, etc).

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Decidi assistir de mente aberta. Acho pessoalmente que a família Skarsgård é extremamente talentosa e faz boas escolhas de papéis e envolvimento em produção (nem entro em detalhes sobre como todos/as os/as membros/as da família são extremamente talentosos), e de certo que com Alexander (o Tarzan da película) não seria diferente. O arco do filme, mesmo nos trailers, estava claro desde o começo, mas… que se danasse. Formatação clássica de histórias, ainda mais tão antigas assim, funcionam bem. Não funcionassem, grandes sucessos da atualidade não repetiriam velhas fórmulas (em contrassenso às novas estruturas narrativas). Mas daí que, bem…

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Nada de novo sob o sol

Dirigido por David Yates (responsável pelos quatro últimos filmes da série Harry Potter, além de Animais Fantásticos e Onde Habitam 1 e 2), com roteiro assinado por Craig Brewer (Entre o Céu e o Inferno, 2006) e por Adam Cozad (Operação Sombra: Jack Ryan, 2014); estrelado por Alexander Skarsgård (Tarzan/John Clayton), Margot Robbie (Jane),  Samuel L. Jackson (George Washington Williams), Osy Ikhile (Kwete), Christoph Waltz (Leo Rom), e Djimon Hounsou (chefe Mbonga), A Lenda de Tarzan é a tentativa de apresentar mais do mesmo (inclusive os símbolos de opressão e racismo) com tons “modernos” que tentam disfarçar os diversos problemas de um filme mediano.

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O ponto fundamental é manter-se atento/a ao significado por trás das imagens; é ir além do simples e compreender quão problemática é a história do homem branco que, ao ser introduzido em meio aos “animais”, consegue se comunicar com eles de igual para igual, mas consegue superá-los graças à variedade de sua força e de sua inteligência – de um caucasiano (tipicamente europeu).

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No filme em si, que tenta apelar para diversos pontos emocionais distintos, não há literalmente nada de novo sob o sol. Os elementos que poderiam ter sido melhor aproveitados, não são. Alexander é, fisicamente, um bom Tarzan, mas não convence quando precisa ir além.

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Margot Robbie é uma Jane deslocada, apesar de mostrar (pela enésima vez) quão capaz e versátil consegue ser em papéis tão diferentes (comparemos O Lobo de Wall Street e o Esquadrão Suicida, por exemplo).

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Samuel L. Jackson abandona o papel (clichê) de personagem irritado, para encarnar mais um estereótipo de papéis para negros no cinema: o coadjuvante que ajuda, tem sabedoria, mas não é tãããão importante assim (e tem uma razão muito específica de estar ali enquanto valor cultural do que representa).

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Dijomon faz um adversário que traria, em tese, uma lição e um ponto de quebra do maniqueísmo… SE fosse melhor trabalhado – e temos outro incrível talento jogado fora.

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Waltz é a maior decepção do filme. Não por si só, óbvio; ele é um excelente ator. O problema mora na construção de um personagem tão raso, cartunesco e, bem, que é malvado só por ser malvado. Suas motivações não convencem, e sua aparente imagem dual entre o inofensivo e o agressivo não funcionam em momento algum.

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Os flashbacks são interessantes e entregam de maneira emocional um ritmo interessante ao filme (que não necessariamente funciona o tempo inteiro), apesar de serem, várias vezes, desnecessários. Muito do que é verbalizado no longa poderia ter sido mostrado de maneira bem mais sutil e imagética: praticamente todas as coisas poderiam depender do som, da luz, das cores, do enquadramento (mesmo para um blockbuster!). Em filmes como esse, mais importante do que transmitir uma mensagem, é transmitir o sentimento por trás dela, e então, conseguir se fazer entender a partir disso.

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A floresta e as savanas são extremamente mal utilizadas, e embora o CGI seja razoavelmente bonito, também é bem fraco e dispensável na maior parte do tempo.

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A trilha sonora é esquecível, a paleta de cores que brinca entre o cinzento de Londres e o colorido da natureza perde sua motivação em mais de uma situação, e voltamos sempre ao mesmo ponto (apesar de tentarem esconder sobre novas máscaras): Tarzan é uma história de legitimação cultural do racismo e da opressão social.

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Em vários momentos a película tenta se localizar como carregada de momentos voltados para públicos x ou y (como empoderamento feminino, por exemplo), mas consegue anular através da própria confusão de intenções tudo isso. Em dado momento, empodera, para em várias cenas seguintes, anular e diminuir. No final das contas, A Lenda de Tarzan não é um filme de seu todo ruim. As atuações, no geral, são aceitáveis. A história distrai, a sonoplastia convence e as cores são agradáveis (até certo ponto) – o que garante uma bacia de pipoca para quando não tiver mais nada para assistir.

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Esta resenha poderia muito bem se chamar: como tentei estragar Tarzan para você. Quem sabe eu consiga – pelo menos assim possamos não necessariamente destruir uma narrativa que sim, é bonita e tem seu poder, mas recriá-la da maneira que ela merece: sem a terrível carga colonizadora que a mantém.


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