Preacher

Dos quadrinhos para a TV: Tudo que você precisa saber sobre a HQ

Os anos 1990… Para boa parte dos leitores de quadrinhos que viveram aquele período é de fato uma época inesquecível. Saindo da “parruda” e clássica década de 1980, os 90 foram o berço para toda a sorte de experimentações estranhas no mercado de quadrinhos. Algumas deram certo, muitas outras são lembradas com pesar.

Os anos 1990 são especiais em particular por conta de uma proposta ainda inédita no mercado de quadrinhos mainstream Americano. A fundação de um selo dentro de uma das maiores editoras dos Estados Unidos voltado para o público adulto – a Vertigo.

Quando a editora Karen Berger fundou oficialmente a Vertigo em 1993 (a DC Comics já tinha uma linha adulta de quadrinhos, mas sem um selo oficial), ela provavelmente não tinha ideia do tipo de eventos que colocou em movimento dando tamanha liberdade criativa a novos autores dentro de uma empresa do tamanho da DC Comics. Alan Moore, Neil Gaiman, Grant Morrison, Peter Milligan…. Todos beberam nessa fonte e tornaram o selo uma das ideias mais geniais daquela década.

Eis que um até então desconhecido (do público Americano) Irlandês chamado Garth Ennis é contratado pelo selo para escrever o sucesso Hellblazer. Ennis faz sua estreia em “Hellblazer”#43 com o arco “Hábitos perigosos” e arrebata de cara os leitores. Somado ao sucesso de seu trabalho em “Etrigan” e “Hitman”, o escritor em 1995 finalmente tem carta branca para criar sua obra prima, Preacher ao lado de seu fiel escudeiro e ilustrador, Steve Dillon. Desde então, a Vertigo nunca mais foi a mesma.

Proinsias Cassidy, Jesse Custer e Tulipa O’Hare no traço de Glenn Fabry.

Preacher é uma série regular da Vertigo publicada de 1995 até o ano 2000. A revista principal tem sessenta e seis edições além de cinco edições “One Shot” especiais e uma mini-série em quatro edições contando a origem do infame Santo dos Assassinos. O material foi integralmente escrito por Garth Ennis e ilustrado por Steve Dillon (a série regular) com belíssimas capas de Glenn Fabry e até hoje vende como água tanto nos Estados Unidos quanto aqui no Brasil.

Com a recente adaptação deste clássico moderno em um seriado pelo canal AMC é natural que as atenções do público, mídia especializada e finalmente da editora nacional que publica o material se voltem para a franquia.

Este é um pequeno guia para quem está interessado em trilhar o tortuoso caminho do reverendo Jesse Custer e conhecer o lindo e brutal universo da revista em quadrinhos que deu origem ao seriado.

Tá. Qual é a história de Preacher?

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Preacher conta a saga do reverendo Jesse Custer, um pastor decadente da cidadezinha de Annville no Texas que é possuído pela criatura chamada Genesis. A fusão entre Genesis e Custer causa uma grande explosão de energia durante um sermão na igreja de Annville matando toda a congregação do pastor.

Genesis, um rebento oriundo da união proibida entre um anjo e uma demônia, é um conceito novo composto de pura bondade e maldade fundidas e um poder que rivaliza ao do criador (É. Deus mesmo). Genesis é uma ameaça tão absurda que fez com que Deus abandonasse o Paraíso no momento em que nasceu. Ao saber disso, Custer acompanhado de sua ex-namorada Tulipa O’Hare e do estranho Irlandês Proinsias Cassidy, partem pelo mundo em busca do “nosso senhor” para fazê-lo prestar contas por seus atos.

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A concepção de Genesis por Steve Dillon.

Em sua jornada pelos Estados Unidos em busca de Deus, Jesse descobre a real extensão dos poderes de Genesis. A chamada “voz de deus” é um poder que obriga qualquer um que escute o comando verbal de Custer fazer o que ele mandar. No meio do caminho Jesse, Tulipa e Cassidy se deparam com a mais vasta sorte de atrocidades que vão desde uma organização secreta dentro da igreja católica que preserva a linha de sangue de Jesus Cristo até grupos de vampiros e sodomitas, passando pela maldita família de Custer.

Enquanto procura por deus, Jesse é perseguido pelo impiedoso Santo dos Assassinos – o anjo da morte da mitologia de Ennis, um sujeito com tanto ódio no coração que foi expulso do inferno pelo próprio Satã e posto a serviço de deus para resolver os “problemas” que ninguém tem coragem de se meter.

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O Santo dos Assassinos contra o Mundo.

Não há obra em quadrinhos (mesmo dentre as outras criações de Garth Ennis) como Preacher. Não há uma chamada “sequência espiritual” ou “sucessor” para este gibi e não houve nesses anos todos alguma outra publicação que misturasse horror, western, sexo, crítica social e uma verdadeira aquarela de bizarrice com tamanha perfeição como este troço. O conteúdo de Preacher é extremo, rico em carga dramática, é recheado de referências e crítica ácida ao comportamento Americano na década de 1990. Nas palavras do autor Texano, Joe R. Lansdale “[Preacher] é meio que parte bangue-bangue, parte história policial, parte história de horror, e parte fodidamente estranho. Bem, muito fodidamente estranho”.

Quem são os protagonistas de “Preacher”?

O elenco principal em Preacher é bem compacto. Composto fudamentalmente pelo triângulo Custer/O’Hare/Cassidy, Garth Ennis joga com essa dinâmica em trio durante toda a série enquanto introduz a mais escrota seleção de antagonistas e coadjuvantes que você poderia imaginar em uma história em quadrinhos.

A saga do reverendo Custer o leva desde um acerto de contas com fantasmas de seu passado até improváveis encontros com seres sobrenaturais e psicóticos mentalmente degenerados. Isso tudo com todo o poder da igreja católica e do reino dos céus em seu encalço. Os mais marcantes personagens em Preacher são:

Jesse Custer

Preacher: coming to a screen soon – hopefully.

O cara. Quando vemos Jesse pela primeira vez ele é um pastor na paróquia da pequena cidade de Annville. Jesse é atingido pela entidade Genesis que lhe confere o poder de comandar as pessoas a fazer o que ele ordenar usando a chamada “voz de deus”.

Jesse é filho de John Custer, um ex-fuzileiro combatente da guerra do Vietnã e da fugitiva Christina L’Angelle, que escapou das garras de sua maldita família na cidade de Angelville. Jesse foi uma criança traumatizada que perdeu os pais cedo e foi criado em um ambiente religioso extremamente hostil por sua avó. Apesar de ter conseguido fugir de Angelville e desfrutado de um feliz período de adolescência ao lado de seu amor, Tulipa O’ Hare, Jesse é arrastado de volta para a vida religiosa e se torna o pastor de Annville.

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Jesse Custer, interpretado pelo ator Dominic Cooper na série.

Custer é um herói a moda antiga. Dotado de um rígido código de honra no melhor estilo Texano, o personagem vive em conflito entre suas crenças e o mundo que o cerca e tem no ator John Wayne um guia espiritual com o qual se comunica (e só ele consegue ver). Intuitivamente inteligente, bom de briga e com um grande senso de justiça e compaixão, Jesse é um misto de fragilidade e brutalidade e sua teimosia e necessidade de respostas guia toda a série.

Tulipa O’Hare

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Tulipa O’Hare está bem longe de ser o típico interesse romântico de personagem masculino. A jovem, criada como se fosse um menino pelo pai após a morte de sua mãe durante o parto, é um dos primeiros ícones da mulher casca grossa nas publicações adultas da Vertigo.

Tulipa é uma exímia atiradora, perita em praticamente qualquer arma de fogo, dotada de técnicas de sobrevivência e combate e uma mulher que, apesar de um amor imenso pelo protagonista do gibi, não se rende facilmente às suas babaquices e ao seu machismo eventual.

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Tulipa O’Hare, interpretada pela atriz Ruth Negga na série.

O relacionamento entre Jesse e Tulipa é extremamente conturbado devido ao choque de personalidades tão fortes. As cicatrizes emocionais da relação entre os dois são muito bem exploradas por Ennis no arco que detalha as origens de Custer e sua relação com sua família.

Tulipa é a bússula da série. Com uma noção muito clara da realidade e uma maturidade notável, a moça frequentemente bota os outros dois protagonistas em seus devido lugares.

Proinsias Cassidy

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Cassidy é um Irlandês falador e um cafajeste misterioso que vaga por este mundo há bastante tempo. E quando dizemos bastante, é bastante. O personagem é o primeiro contato do leitor com a natureza sobrenatural do gibi e instantaneamente forma laços de amizade com Tulipa e Jesse.

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Proinsias Cassidy, interpretado pelo ator Joseph Gilgun na série.

Cassidy tem moral duvidosa, um passado obscuro e é o personagem mais ambíguo e manipulador do gibi. O trabalho de Ennis neste protagonista transita entre o anti-herói e o vilão. Um amigo fiel ou um filho de uma puta traidor. Você nunca sabe quando se trata de Proinsias. E esta é a magia do personagem.

Santo dos Assassinos

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A epítome do que se entende por “bicho papão” em histórias em quadrinhos. O Santo dos Assassinos já foi um homem, um impiedoso e cruel soldado confederado de natureza psicótica que matou todo tipo de gente na Guerra Civil Americana.

Após anos de matança indiscriminada, o sujeito finalmente consegue estabelecer uma família e deixar de lado seus hábitos nefastos, no entanto a alegria dura muito pouco para o Santo. Ao viajar para buscar remédios para sua esposa e filha que estavam gravemente doentes, o Santo é emboscado por uma gangue de foras-da-lei. Atrasado por este combate, ele chega tarde demais em casa para salvar sua família e os encontra mortos pela doença. O personagem perde o resquício de humanidade que ainda lhe restava e se torna ódio puro.

Logicamente após sua irônica morte, o Santo é enviado ao inferno e chegando lá é expulso pelo próprio Diabo por ter um coração tão frio e cheio de ódio que chega a congelar os domínios do Tinhoso. O Santo é recrutado pelo Paraíso para trabalhar como seu Anjo da Morte, resolvendo os “pepinos” que as entidades celestiais não querem mexer, mas como é considerado perigoso demais para andar pela Terra, Céu ou Inferno é enterrado debaixo de uma colina e aguarda o comando divino para voltar a matar.

Com toda a situação de Jesse Custer e Genesis, os anjos celestiais não veem outra alternativa que não seja recrutar o Santo dos Assassinos para caçar o pastor e aí começa a relação antagônica entre os dois personagens.

O Santo dos Assassinos é virtualmente indestrutível, bizarramente forte e nunca erra seu alvo, as duas pistolas Colt Walker que carrega em seus coldres tem munição infinita. Sua missão é acabar com Jesse Custer e ele vai matar qualquer um que esteja em seu caminho sem parar até ter cumprido este objetivo.

Cara-de-Cu

Cara-de-cu

Filho de Hugo Root, o severo e racista Xerife de Annville, Cara-de-Cu é um adolescente vítima de abusos que tenta se matar emulando seu ídolo, Kurt Cobain – o vocalista da banda de grunge Nirvana. Infelizmente sua tentativa de suicídio é mal sucedida e o jovem tem seu rosto desfigurado horrivelmente.

Após a caçada a Jesse Custer em Annville, o Cara-de-Cu culpa Custer pelo suicídio de seu pai, que foi forçado pelos poderes de Jesse a seu auto sodomizar. O jovem jura vingança e promete matar o pastor.

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Cara-de-Cu, interpretado pelo ator Ian Colletti na série.

O apelido Cara-de-cu é proferido pela primeira vez por Cassidy ao ver o rosto do jovem enquanto o mesmo implora pela vida do pai ao Santo dos Assassinos em uma das cenas mais bizarramente cômicas do arco inicial do revista.

Familía

A inesquecível família L’Angelle.

Preacher tem um elenco itinerante vasto em suas 66 edições. Ainda podemos destacar os principais antagonistas da série, a organização militar-religiosa chamada de o Graal, representada pelo seu operativo de campo, Herr Starr que tem grande interesse em Custer desde o terceiro arco da série em quadrinhos até praticamente seu final. Os anjos celestiais tem presença marcante durante o decorrer de toda a história, assim como personagens do sofrido passado de Jesse como o violento Jody, o zoofílico  T.C. e a maldita avó de Jesse, Marie L’Angelle.

Veja também: Preacher | Assista o primeiro trailer da série

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Gostei. Mas Preacher saiu no Brasil? Onde posso encontrar isso?

Apesar da imensa popularidade de Preacher entre o público nacional, a história da publicação aqui no Brasil é extremamente conturbada.

Na década de 1990, o material chegou a ser publicado por até quatro editoras diferentes (desta incluem, Abril Jovem, Bainstore e a finada Heavy Metal) em formatos distintos (mixes com outros títulos Vertigo e edições simples) até finalmente começar a ser compilado em encadernados pela editora Panini quando a mesma adquiriu os direitos de publicação de material Vertigo em meados dos anos 2000.

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Os diversos formatos de publicação de Preacher no Brasil na década de 1990.

Atualmente a Panini publica a série toda em encadernados similares aos “trade paper backs” importados, no entanto no presente momento o volume 1 de Preacher se encontra esgotado nas lojas com promessa de uma breve re-impressão.

Agora com o lançamento do seriado baseado nos quadrinhos a tendência é que haja um esforço maior na distribuição e re-impressão deste material aqui no Brasil. Então fique atento às notícias sobre o seriado e a HQ aqui no Proibido Ler.

Leia também: Preacher | Review do episódio 1×01 “Pilot”


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