Em meados dos anos 90, um duende de pouco mais de 200 anos de vida, invadiu a programação da TV aberta e deixou a molecada doida demais. As manhãs do Canal 11 de São Paulo, mais conhecida como CNT/Gazeta, recebia o programa do “Hugo” ou “Jogo do Hugo” – o primeiro game interativo da televisão brasileira.
O formato do programa era totalmente diferente de tudo que a televisão já tinha testado até então, não tinha nada a ver, por exemplo, com a interatividade dos programas do palhaço Bozo como foi mostrado no filme “Bingo – O Rei das Manhãs” (2017).
O telespectador controlava o personagem do jogo pelas teclas do telefone, e se chegasse ao final ganhava prêmios. Tudo isso acontecia AO VIVO sempre nas manhãs ou às 18h10 – horário que ficou conhecido como a “hora do programa do Hugo”.
O “Jogo do Hugo” era um campeão de audiência, chegou a somar quatro pontos de Ibope à época, e a receber mais de 1 milhão de ligações por dia causando um grande congestionamento nas linhas telefônicas da emissora.
A história
O formato original, criado na Dinamarca como “Hugo the TV Troll”, desembarcou no Brasil como “Jogo do Hugo” em 1995, exibido pela parceria CNT/Gazeta. A proposta era simples e brilhante, por ser ao mesmo tempo tecnológica e profundamente analógica: o espectador ligava, seguia instruções e usava as teclas do telefone para mover o personagem na tela.
Esse mecanismo de controle remoto via DTMF (Dual-Tone Multi-Frequency, ou em português, Multifrequência de Dois Tons) tornou o programa um dos primeiros exemplos de interatividade em massa na televisão brasileira. No Brasil, o programa teve que passar por uma redublagem feita pelo estúdio Herbert Richards em 1995.
A voz usada em muitos registros da época foi de Orlando Viggiani, o que ajudou a dar personalidade própria ao personagem por aqui. Desse trabalho nascdeu frases marcantes como:
- Não tem chororô, este jogo acabou.
- Pronto, passou. Uma vida acabou.
- Se Liga! É a última vida.
- Não dê moleza, que voar é uma beleza
- Obrigado. Caí sentado!
- Subindo a montanha, sem fazer manha.
- Não desanima que a vida termina!
- Errei a mira, cai na China.
O game
Hugo vivia em uma floresta com sua esposa Hugolina e seus três filhos Rat, Rit e Rut. Mas como nem em jogos de videogame os personagens podem viver felizes e tranquilos por muito tempo, uma bruxa chamada Mortícia resolveu raptar sua esposa e os três filhos. Ela trancafiou todo mundo em uma jaula que ficava em sua casa numa caverna. Tudo que o jogador tinha que fazer era conduzir Hugo até a caverna da bruxa e resgatar a sua família.
O jogo tinha a fase do trem, do avião e da floresta encantada, apenas estas fases eram jogáveis pelo telefone, quando chegava no “chefão”, ou seja, na caverna da bruxa, não exigia mais habilidade do jogador e o mesmo contava apenas com a sorte em escolher a tecla certa para salvar Hugolina e seus três filhos.
A participação
Essa era a parte mais difícil pra todo mundo no “Jogo do Hugo“. Você tinha que ligar para o famoso número 0900-701212 e rezar para ter sorte de conseguir participar. Os números “0900” eram “hot-lines” bem famosas e caras na época.
Quando o jogador conseguia ser atendido pela produção do programa, era realizado um cadastro e, além disso, o jogador tinha que responder a algumas perguntas como: “O que você mais gosta de fazer?”, “em qual período escolar você estava?”, “qual era o seu hobby?”, etc.
Depois era só aguardar um retorno por parte da produção para poder participar ao vivo. Quando dava certo, o jogador tinha que controlar o personagem pelas teclas 3 e 6 de um aparelho de telefone fixo.
Antigamente os aparelhos de telefonia fixa tinham dois modos de discagem: Pulso ou Tom. Sendo o tipo de discagem em tom, algo mais moderno. Como naquela época as tecnologias demoram pra ocupar a maioria das casas, não era todo mundo que tinha um aparelho fixo com esse tipo de discagem. Aliás, era caríssimo ter uma linha telefônica, então imagine um aparelho muito moderno pra época.
Pra conseguir jogar, o aparelho de telefone fixo tinha que estar na configuração de discagem em “tom”. Não era possível jogar se o aparelho tivesse apenas a opção de discagem por “pulso”. Isso frustrava muita gente. Mas enfim, o número 3 controlava o Hugo para a esquerda e o número 6 para a direita. Era só isso!
Se o jogador fosse bom e conseguisse salvar a família do Hugo, ele era presenteado com vários prêmios como: Banco Imobiliário, Jogo da Vida, bonés e camisetas personalizadas do Hugo, Patins, Walkman, CD Player, Microsystem, TV de 20 polegadas e, se tivesse muita sorte, rolava até um Nintendo 64.
O programa
O programa estreou em 30 de outubro de 1995 e ao longo das fases no Brasil, surgiram diferentes nomes associados à atração. A Vanessa Vholker foi a apresentadora na fase inicial, e em momentos posteriores são assumiu o programa nomes como Andrea Pujol, Matheus Petinatti e Rodrigo Brassolotto. Como houve variações entre temporadas e reexibições, o formato teve rostos diferentes conforme o tempo.
“O Jogo do Hugo” teve diferentes formatos e temporadas, se estendendo até 1998. Durante esses anos, o programa migrou entre blocos infantis, finais de tarde e reprises, mantendo sempre seu apelo entre crianças e adolescentes. Dando play nos vídeos abaixo, é possível conhecer ou relembrar como era o programa na época.
Referência para programas futuros
A proposta do Hugo abriu espaço para outras experiências interativas na televisão, como o “Garganta e Torcicolo no Paraíso das Ovelhinha”, programa apresentado pelo João Gordo entre 1997 e 1998 na extinta MTV Brasil. Hoje, bastam algumas notas sonoras da trilha ou a lembrança dos comandos no telefone para que muita gente volte no tempo e se veja torcendo pela vitória do jogador da vez.
Onde Hugo vive hoje
Trechos do programa circulam em canais de nostalgia no YouTube e em páginas de memória televisiva. Esses arquivos ajudam a entender como funcionava a dinâmica ao vivo e por que tanta gente guarda o Hugo na prateleira das lembranças queridas da infância.
O “Jogo do Hugo” entrelaçou tecnologia, jogo e televisão de um jeito que poucas atrações infantis conseguiram. Mais do que um passatempo, foi um rito de participação coletiva que mostrou o poder da interação em uma era pré-internet. Relembrar o Hugo é recuperar a ansiedade boa de apertar um número no telefone e ver a televisão responder a você.








