Sharon Carter não merece o seu ódio

“Capitão América: Guerra Civil” estreou no dia 28 de abril nos cinemas brasileiros e, partindo desse princípio, a não ser que sua cidade não tenha um cinema, acredito que você já tenha assistido um dos filmes de super-heróis mais esperados do ano (talvez mais de uma vez).

Apesar do longa ter sido amplamente elogiado por público e crítica, alguns detalhes e/ou furos de roteiro acabam sendo apontados pelos fãs à medida que o tempo passa. É natural. Contudo, há também as más interpretações de situações, personagens, relacionamentos, diálogos, entre outros, que podem acabar prejudicando seriamente o entendimento do público sobre a trama e/ou os personagens envolvidos nela se não esclarecidas. É por isso que resolvi escrever um artigo focado em Sharon Carter.

ATENÇÃO: o texto a seguir contém spoilers dos filmes “Capitão América: O Soldado Invernal” e “Capitão América: Guerra Civil”.

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A personagem foi introduzida como uma agente da SHIELD ao Universo Cinematográfico da Marvel (MCU) no filme “Capitão América: O Soldado Invernal” (2014). Nick Fury lhe designou a missão de proteger e monitorar Steve Rogers em seu apartamento, informando ao diretor da SHIELD se o Capitão América era alguém confiável e não apresentava nenhum risco. Para se aproximar de Rogers, Sharon passou a morar no apartamento em frente ao seu, sob a identidade de uma enfermeira chamada Kate. Eles ficaram bastante próximos, tendo Steve até chamado-a para sair.

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Quando Jasper Sitwell ordenou que todos os agentes da SHIELD fossem atrás do Capitão América, após ele escapar do Triskelion, Sharon questionou suas ordens, exigindo saber os motivos da perseguição. Ela estava trabalhando na sala de controle central do Projeto Insight quando Capitão América revelou a infiltração da HIDRA na SHIELD. Sharon foi a primeira agente a tomar a iniciativa de se opor à SHIELD/HIDRA, tendo salvado a vida de Cameron Klein, o agente que estava sendo ameaçado por Brock Rumlow para lançar os aeroporta-aviões. No final do filme, Sharon Carter entra para a CIA.

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Em “Capitão América: Guerra Civil” (2016), Sharon é introduzida durante o funeral de sua tia, Peggy Carter, conhecida por ser uma das fundadoras da SHIELD e a treinadora de Steve Rogers, bem como seu primeiro amor. O discurso de Sharon durante o funeral é crucial para que Steve tome sua decisão no que diz respeito ao “Tratado de Sokovia”. E, consequentemente, para o desenvolvimento de Steve como personagem e da trama em um todo. Enquanto todos os acontecimentos do filme estão se desenrolando, Sharon ainda está em luto pela morte de Peggy. Steve pode ter convivido com ela por alguns anos, mas Sharon teve uma vida inteira com a tia que até hoje é uma das mulheres mais importantes de sua vida. Ela nem sequer entrou em casa após o funeral e já foi obrigada a deixar toda sua dor de lado por causa do trabalho.

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Assim que toma conhecimento de que Bucky Barnes será responsabilizado pelo ataque terrorista na ONU, Sharon fornece informações privilegiadas a Steve. Vale lembrar que Steve e Sam estão há dois anos procurando por Bucky e não conseguiram nada, enquanto Sharon obtém tudo em questão de horas. Graças a ela, Steve consegue encontrar e ajudar Bucky a fugir dos agentes que invadem o apartamento dele (lembrando que as ordens eram “atirar para matar”, outra informação importante concedida por Sharon), bem como ajudá-lo a não ser morto pelo Pantera Negra.

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Uma vez “presos”, Sharon fornece, de livre e espontânea vontade, a filmagem e o áudio do interrogatório de Bucky para Steve e Sam, o que permite que Steve tenha tempo para descobrir o que realmente está acontecendo e obtenha respostas sobre o estado mental de Bucky. Ela, em seguida, quebra o protocolo e fala para Steve onde Bucky está sendo mantido, para que mais uma vez ele possa tentar protegê-lo. Ela acredita em Steve e em Bucky imediatamente. Sharon entra em um combate corpo-a-corpo com Bucky sem hesitação, apesar dele já ter derrubado dois vingadores. Isso porque ela sabe que precisa proteger as pessoas cujas vidas estão em risco.

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Sharon novamente arrisca sua carreira e liberdade ao ajudar Steve e Sam a recuperarem seu equipamento, para que eles tenham uma chance melhor na luta contra o Homem de Ferro e sua equipe. Isso acontece depois que eles são considerados criminosos, então é um risco enorme para ela.

Assim acabam suas cenas no filme. E na internet uma onda de ataques contra a personagem (e até mesmo contra a atriz Emily VanCamp) são feitas por “fãs”. Entre os principais argumentos, estão…

“Ela é apenas um interesse romântico”

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A maior parte de suas cenas foram ambientadas em seu local de trabalho. Depois de enfrentar a tragédia pessoal de perder alguém que amava, ela voltou a trabalhar imediatamente. Sharon claramente possui uma posição de poder, pois no filme ela aparece dando ordens a agentes da CIA, posicionada ao lado do General Ross, e na mesma sala que Sam e Steve quando foram capturados. Essa posição de poder é solidificada por 1) ter acesso a arquivos do governo com rapidez e facilidade (como os que ela entregue a Steve), 2) ser informada em primeira mão sobre os planos do governo (ela passou a Steve informações privilegiadas sobre a forma como a força-tarefa iria lidar com Bucky) e 3) ter autoridade para acessar o equipamento de Steve e Sam. Ela fez tudo isso na pequena quantidade de tempo de tela que o filme lhe proporcionou. Suas ações foram cruciais para Steve e Sam. Então não, ela não é apenas um interesse romântico. Nem chega a ser um romance, é apenas um beijo, U-M B-E-I-J-O. O romance ainda será construído.

“Ela só ficou ao lado do Capitão porque é apaixonada/tem crush nele”

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Sua decisão de ficar ao lado do Capitão América se deu pelos mesmos princípios estabelecidos para sua personagem em “Capitão América: O Soldado Invernal”. Durante seu discurso em homenagem a Peggy, ficou claro que ela era muito próxima da tia e herdou suas percepções morais. Quando faz contato visual com Steve durante o discurso, sua mensagem fala sobre “fazer algo que você acredita” – nada que sugira romance ou atração. Suas ações são baseadas no que ela acredita estar certo, e essas percepções foram moldadas por sua educação e seu relacionamento com Peggy, já que ambas confiam e apoiam alguém que acreditam ser bom. Se Sharon tem um grande amor neste filme, é o amor por sua tia, não por Steve. Ninguém diz que Peggy apoiou Steve porque tinha um crush nele, mas sim porque sabia que era o certo a se fazer. Assim como Sharon.

“Ela tá perseguindo ele desde o filme anterior. Ela tá forçando esse romance”

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Foi Steve, não Sharon, quem tomou a iniciativa em “O Soldado Invernal” e em “Guerra Civil”. No filme anterior, ele conversou sobre ela com Natasha e a chamou para “tomar um café”. Neste filme, ele a levou até a porta do hotel e ele teria chamado ela para sair, pedido seu número ou coisa parecida durante aquele momento na porta do elevador, se eles não fossem interrompidos. Foi Steve quem mostrou sua atração por Sharon, Steve quem disse que o beijo estava “atrasado”, foi Steve quem sorriu como um idiota depois daquele beijo e foi Steve quem olhou para seus melhores amigos com esse mesmo sorriso no rosto. Sharon sorriu, voltou para o carro e continuou com sua vida – porque ela provavelmente tinha 1) muito trabalho a fazer por causa de todo o risco em que se colocou para ajudá-los ou 2) fugir para as colinas, já que ela cometeu um crime devolvendo o equipamento a eles.

“O beijo foi desnecessário/estranho/do nada”

Todos que insistem em dizer que o beijo entre Sharon e Steve foi “desnecessário”, “estranho” e “veio do nada” estão, na verdade, escolhendo pensar desse jeito. Se Sharon Carter arriscasse sua carreira e sua liberdade para me passar informações que salvassem a vida do meu melhor amigo, me deixasse escutar seu interrogatório, me dissesse o local exato onde ele estava sendo mantido e aparecesse com meu escudo quando eu mais precisasse dele, fora ter acreditado em mim e lutado contra a HYDRA anteriormente, eu também beijaria essa mulher.

“Steve só beijou a Sharon porque viu a Peggy nela”

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Steve claramente tinha atração por Sharon desde que a conheceu em “O Soldado Invernal” – e isso não tem a ver com o fato dela ser sobrinha da Peggy. Pense: de que outra forma Sam teria reconhecido ela no funeral? Sam nunca tinha se encontrado com Sharon em tela e, ainda assim, foi ele quem cutucou Steve assim que ela apareceu. Então, a galera vai mesmo fingir que Steve não falou nenhuma vez com Sam sobre a enfermeira bonita, que não era realmente uma enfermeira, do outro lado do corredor com quem ele flertava alguns anos atrás? E o discurso de Sharon deixou muito claro que tudo o que ela conseguiu foi por si mesma. Ela se tornou uma agente da SHIELD e da CIA sem precisar usar a figura de sua tia, assim como conquistou o respeito, a confiança e o coração de Steve Rogers.

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Sharon Carter é uma ótima e bem escrita personagem feminina, especialmente levando em conta o quão pouco ela teve de tempo de tela no MCU. Ela tem princípios, integridade e uma bússola moral dizendo-lhe o que é certo. Ela não quer ser considerada a “sobrinha de Peggy Carter”, mas construir sua própria carreira. Ela é compassiva, é decidida, é corajosa, é inteligente e é forte. É muita complexidade e profundidade para alguém que nem mesmo é considerada uma personagem central. Sharon Carter contribuiu para o sucesso de Steve, para manter Bucky vivo, para que a verdade fosse revelada e foi uma parte vital do filme.

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E, apesar de tudo isso, muitos preferem ignorar tudo isso, tratando-a meramente como um obstáculo para o seu “ship” e odiando-a gratuitamente por isso. Esta personagem feminina brilhantemente escrita – o tipo de personagem que precisamos tanto – está sendo reduzida a um “interesse romântico” pelos fãs, não pelo roteiro.

Então, que tal parar de odiar e reduzir Sharon Carter por ficar no caminho de seu ships NÃO EXISTENTES? E principalmente, parar de pedir por mais personagens femininas se, quando introduzirem personagens como Sharon, elas serão odiadas sem motivo? Sharon Carter não merece o seu ódio. Vamos celebrar as personagens femininas incríveis que temos, apoiá-las e dar abertura para que mais e mais mulheres brilhem nas telas de cinema.

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Por Louise


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