A Máfia no Cinema – Parte 1

O Poderoso Chefão

Saiba mais sobre essa super produção de Francis Coppola, que fez muita gente se apaixonar por cinema e, principalmente, pela Família Corleone.

O Poderoso Chefão, vai além das telonas, a história sobre o filme, sobre os bastidores, sobre o elenco, sobre a máfia de verdade, a história que fez e faz história. Seria injusto incluir um filme desse nível em uma lista qualquer, pois ele merece uma postagem inteira.

Tomo um cuidado ao falar sobre a máfia – não porque eu tenha medo (vai saber né) – e sim porque o tema é explorado de todas as formas possíveis no cinema. Portanto, respire bem fundo, vai ter uma segunda, e talvez até uma terceira parte sobre o tema, SIM!

A palavra máfia, significa bravo. Referindo-se a um homem, “mafiusu” significa alguém ambíguo, arrogante, destemido, empreendedor e orgulhoso. A máfia é conhecida como organização criminosa que transformou o tráfico, o jogo e o achaque nos negócios mais lucrativos possíveis, fez a sétima arte lucrar muito. E o que isso faz diferença? Bom, essa quase trilogia é repleta de tudo e mais um pouco que acabei de mencionar. Entenda o porquê do quase no decorrer da leitura, ou morra de curiosidade:

Dirigido por Francis Ford Coppola, baseado no livro homônimo escrito por Mario Puzo, O Poderoso Chefão, é uma das mais aclamadas e mais importantes franquias da história do cinema. Repleto de belíssimas atuações, o longa conta a história da Família Corleone, e do crescimento da máfia nos Estados Unidos.

O Poderoso Chefão (1972)

A Máfia no Cinema – Parte 1 | O Poderoso Chefão
A primeira parte da saga da Famiglia Corleone, comandada pelo respeitado Don Vito Corleone mostra a família mafiosa que controla os negócios ilegais na Nova York dos anos 40 e 50. A maneira como ela gerencia os negócios é mostrada em detalhes bem elaborados, e a gerência dos mafiosos não se resume em contas e pagamentos, o filme é feito de assassinatos e muita sabedoria. O diretor Sergio Leone, foi a primeira opção para dirigir a produção. Outros nomes também foram cogitados. No final dos anos 60, Coppola, conseguiu assumir a direção do longa, produzido pela Paramount Pictures. Ele foi escolhido pelo chefão do estúdio, Roger Evans, por sua descendência siciliana, e ainda estava no início de sua carreira. George Lucas foi o grande amigo que o convenceu a dirigir. Obrigada, George!
O diretor começou a trabalhar dia e noite no livro, adicionando notas de rodapé para criar o filme, separando entre o que merecia as telonas, o que não merecia e o que mais chamaria a atenção do público. O livro de Puzo se passava nas décadas de 40 e 50 e o filme seria ambientado nos anos 70, mas por insistência de Coppola, os produtores acabaram cedendo a época original. AINDA BEM!

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Com o roteiro em mãos, Coppola sugeriu nomes para os papeis principais e então começaram os problemas com a produtora. Eles queriam Marlon Brando, já o diretor brigava por Al Pacino. Os produtores pediram  diversos testes de nomes consagrados, como: Robert de Niro, Martin Sheen, Robert Redford, e o queridinho da produtora, James Caan, que ficou com o papel de Sonny Corleone. Para o papel de Vincent, que ficou com o ator Andy Garcia, os produtores testaram até Sylvester Stallone e John Travolta. Coppola insistia para que Al Pacino atuasse, mas a Paramount não queria o desconhecido (que só havia atuado no teatro) nas telonas. Isso soava como uma piada de péssimo gosto para os produtores, o que não mudou a visão do diretor sobre o ator, Copolla achava seu rosto perfeito para o papel de Michael Corleone.
O diretor nada satisfeito, colocou Al Pacino no meio de todos esses testes, e acabou vencendo pelo cansaço (o ator sabia que não era desejado nos sets pela produtora). A prova concreta do quanto vale insistir em algumas coisas, é atuação desse mestre. Marlon Brando, apesar de sua atuação impecável, era conhecido principalmente por seu “temperamento excêntrico”. Ele ficou como papel de Don Vito Corleone (apesar de sua fama de encrenqueiro, e de sempre chegar atrasado no set). No teste, o ator colocou pedaços de algodão na boca para caracterizar-se como Don Corleone. Ele queria ficar “parecido com um Buldogue”, afirmou em entrevistas. Já nas filmagens, ele utilizou uma prótese dentária feita por um dentista, a peça está em exibição no American Museu.

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Coppola foi ridicularizado por sua equipe, ninguém (além dele e de seus atores) achava o filme uma boa ideia, e por não gostar de violência, fez do filme uma obra de arte. O estúdio cogitou a ideia de contratar um diretor para cenas de ação, que pudesse auxiliar nas mortes, tiroteios e explosões. O diretor os surpreendeu, e antes que fosse substituído, passou a agregar coisas que distraíam as pessoas que (assim como ele) evitavam cenas mais fortes, como por exemplo: as laranjas rolando no asfalto durante o tiroteio, tornando tudo o mais artístico possível (como a sétima arte deve ser). O resultado foi um filme bem ilustrado e valioso, sucesso de crítica, que rendeu 3 Oscar, de melhor filme, melhor roteiro, e melhor ator para Marlon Brando, que se recusou a receber o prêmio (pois detestava com todas as suas forças Hollywood).

O Poderoso Chefão – Parte II (1974)

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Com o sucesso do primeiro filme e total aceitação do público, a continuação teve liberdade criativa e US$11 milhões de orçamento. Apesar de tudo isso, a pré-estreia foi um desastre. Isso mesmo! Ninguém entendeu o “voltar e avançar” do tempo durante a trama, e por esse motivo, (duas semanas antes do filme entrar em cartaz) Coppola e o editor Walter Murch, reduziram o número de cenas (de 20 para 12) tornando o segundo longa um sucesso imediato. Outra coisa que chamou muita atenção na época, foi a PARTE II no título, foi uma ousadia, pois nenhuma continuação recebia um número após o nome. Coisa que hoje em dia é completamente normal. Nessa segunda parte da saga da famiglia Corleone, Coppola e Puzo foram além da imaginação, e contaram duas histórias incríveis. A primeira continuou o primeiro filme, mas o foco deixa de ser o contrabando e passa a ser o jogo, perseguição de outras famílias e do governo federal, tornando um prato cheio de emoção. A segunda, o crescimento de Vito Andolini, que ficou mais tarde conhecido como Don Vito Corleone. interpretado pelo grande ator Robert De Niro.

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Não tão exuberante quanto os outros dois, mas repleto de momentos inesquecíveis – tais como a trilha da ópera Cavalleria Rusticana. Com impecáveis reconstituições de época, o filme levou 4 Oscar, de melhor filme, direção, roteiro adaptado e ator coadjuvante, para Robert de Niro.

O Poderoso Chefão – Parte III  (1990)

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Dezesseis anos após a segunda parte da saga, Coppola e Puzo deram a luz a parte final da história que ganhou o coração do público. O título era para ser outro, mas os produtores recusaram. A decisão desagradou o diretor, que não via os três filmes como uma trilogia, e sim, como dois filmes e um epílogo (agora você pode entender o porquê da quase trilogia que citei no começo do artigo). Nessa terceira parte, é possível ver o lado mais intenso de toda a trama, e a busca pelo perdão mais emocionante das telonas. Ironicamente, o diretor (que quase foi substituído no primeiro filme) teve que diminuir a violência dessa continuação, a pedido dos produtores, pois a censura achou que ele “ultrapassou os limites”. Alguns outros atores participaram do filme, como Andy Garcia, Vincent, e Sofia Coppola, filha do diretor. “Um filme sobre famílias deve ser feito por uma” dizia o cineasta sobre incluir membros da própria família nos filmes. O pai do diretor, Carmine, também compôs algumas músicas e apareceu no filme tocando piano, a mãe fez figuração, a irmã Talia Shire interpretou Connie Corleone.


CURIOSIDADES RÁPIDAS:

  • O nome do chapéu tradicional siciliano usado pelos guarda-costas do Michael é “Coppola” igual ao nome do diretor.
  • Nos 3 filmes, todas as cenas com música ao vivo são de verdade, e não playback. Coppola acredita que isso melhora o ânimo dos atores. (E eu acrescento: melhora até o nosso).
  • No livro de Mario Puzo, Jack Woltz (John Woltz) é um pedófilo. Uma cena em que uma garota sai de seu quarto chorando, presenciada por Tom Hagen (Robert Duvall), foi cortada do filme original, mas pode ser vista no DVD.
  • A cena em que Moe Greene (Alex Rocco) leva um tiro, foi inspirada na morte do gângster Bugsy Siegel.

A Máfia de Verdade e o Filme

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Houve um momento em que a própria máfia tentou impedir que o filme chegasse as telonas. Isso mesmo que você acabou de ler.
Joseph Colomboconhecido também como Joe Colombodeclarou guerra contra o filme e fez de tudo para acabar com a produção. Se você não faz ideia de quem é ele, calma que já te conto. Nos anos 70, The Italian-American Civil Rights League exigiu que a Paramount Pictures encerrasse a produção. Cansada de ver os italianos retratados como bandidos, organizou comícios em toda a cidade, chegando a coletar US$ 500.000, para encerrar a produção do filme. Mas o objetivo deles não era tão nobre quanto aparentava. A organização havia sido fundada por Joe Colombo, líder da família criminosa Colombo, uma das Cinco Famílias do crime organizado de Nova York.

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Ele criou a liga para revidar, quando ouviu falar sobre gângsteres no filme, decidiu que ninguém jamais poderia assistir tamanha afronta, pelos estereótipos e pela atenção que o filme geraria. Quando protestos e entrevistas na TV não funcionaram, ele resolveu tomar medidas mais drásticas, para alcançar sua meta.
Segundo Al Ruddy (produtor do filme), os mafiosos quebraram as janelas de seu carro e deixaram um bilhete avisando que se a produção não parasse, algo ruim aconteceria. Seguindo com as ameaças, Robert Evans (um executivo da produtora) recebeu um telefonema intimidante o mandando sair da cidade, ou alguém iria quebrar sua cara e machucar seu filho. Sindicatos controlados pela máfia se recusaram a deixar Coppola filmar em certos bairros, e até roubaram equipamentos de filmagem. Escritórios da Paramount tiveram de ser evacuados depois que receberam ligações com uma ameaça de bomba. Já imaginou?

Mario Puzo, Coppola, Robert Evans, and Al Ruddy

Em ordem: Mario Puzo, Coppola, Robert Evans, e Al Ruddy.

Então, FINALMENTE, eles decidiram convocar uma reunião com Joe Colombo, e eventualmente, ele fez aos produtores uma oferta que eles não podiam recusar. Só assim o filme foi autorizado a seguir em frente. A proposta? Al Ruddy se encontrou com Joseph Colombo no Sheraton Park Hotel, e surpreendentemente, o mafioso só tinha uma ordem: as filmagens poderiam continuar se a palavra “máfia” não aparecesse nem um vez no script. Al Ruddy aceitou imediatamente, pois a palavra só surgia uma vez em todo o roteiro.
Após a reunião, Colombo ficou até entusiasmado com a ideia de um filme. Durante as filmagens, ele e seus colegas começaram a aparecer no set para visitar o elenco e a equipe, dar pitacos, e principalmente para conversar com Marlon Brando. Vai entender?
Colombo usou de sua influência para controlar quem atuaria no filme. Gianni Russo, trabalhou para o chefe do crime organizado (Frank Costello) quando criança, e foi um dos homens que ajudou na negociação dos termos entre a Paramount e a máfia. Por seu trabalho duro, Colombo garantiu que fizesse o papel de Carlo Rizzi, genro de Don Corleone.
Mas, o que era para ser uma parceria entre criminosos da ficção e da vida real, acabou terminando muito mal. A máfia, que não gosta de exibicionismo, não se calou diante da produção. E, em 28 de junho de 1971, enquanto Coppola filmava algumas cenas, acontecia algo, quarteirões ao lado: um assassino atirou em Colombo, o homem que quis apagar a máfia do longa, quase foi apagado por chamar atenção demais para as Cinco Famílias. Ele não morreu, mas passou o resto de sua vida paralisado, e faleceu em 1978.


O diretor teve que contar com a ajuda de muitos amigos para que as sequências pudessem ser feitas, e quase foi demitido diversas vezes. Além de demitir diversos “traidores”, sem contar o contato direto com a máfia, os problemas com os furtos, as proibições. Al Pacino (que ninguém além de Coppola queria) foi consagrado por sua brilhante atuação, com o diretor apostando tudo em sua capacidade, até sua própria carreira. Marlon Brando, um capítulo a parte, imortalizou Don Corleone em uma atuação fantástica, e provou que seu comportamento “rebelde” não interferia em sua atuação de mestre. Muitos dizem que Copolla o chamou até de Deus, depois dessa produção, e não é para menos.

O Poderoso Chefão é uma história, que antes de ser sobre a máfia, fala sobre o poder da lealdade e do amor na família. O filme, ou melhor, a trilogia (ou quase), se tornou uma das melhores produções do cinema, com cenas inesquecíveis. A obra Mario Puzo foi adaptada de forma que impecável, os diálogos foram tão bem feitos, que é difícil escolher o melhor, o favorito. Um alimento para memória cinematográfica, que até hoje faz muitas pessoas se apaixonarem por cinema.

Espero que tenha gostado de saber um pouco mais sobre uma das melhores franquias que a sétima arte deu ao mundo. Não se esqueça de acompanhar segunda feira, no mesmo BatCanal, a segunda parte da Máfia no Cinema. E de sugerir filmes e temas para as próximas matérias.
É o mínimo que você pode fazer, já que veio até minha casa, e não me trouxe nem um café.

A Máfia no Cinema – Parte 1 | O Poderoso Chefão

Até a próxima, Legião. E não se esqueça: não é nada pessoal, são apenas negócios.

UPDATE:
A parte II já saiu! Confira:

A Máfia no Cinema – Parte 2 | Filmes sobre o crime organizado


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