Selma – Uma luta pela Igualdade (2014)

A voz da verdade não se apaga

Se você espera apenas uma cinebiografia de Martin Luther King, sinto te desapontar. “Selma” não é apenas sobre a vida dele, e sim sobre o que mudou a vida dele para sempre – a luta pelos direitos civis dos negros. O roteiro notável de Paul Webb rejeita qualquer autoridade moral fácil, e evita idolatrar Martin Luther King, o que torna a história muito mais saborosa e realista.

“Selma” aborda um período específico – de três meses em 1965 – quando King estava focado em conseguir direitos de voto para os negros, e enfrentava uma grande oposição por parte de praticamente todo governo. “Selma” segue por um caminho de luta e nos arrebata recontando a vergonha da falsa liberdade que os negros viviam nos EUA, quando ainda eram privados de diversos direitos básicos.

Selma - Uma luta pela Igualdade | A voz da verdade não se apaga

O filme se inicia com Martin Luther King (David Oyelowo) falando com sua esposa Coreta (Carmen Ejogo) sobre os direitos que quer conquistar. Ao mesmo tempo que aborda a tentativa frustrada de Annie Lee Cooper (Oprah) – uma mulher negra que luta para ter direito ao voto. Direito esse que foi dado para todos, mas que negros quase nunca conseguiam autorização, por conta da segregação, da intimidação, e até mesmo de assassinatos brutais em cidades pequenas. Em uma conversa com o presidente George Wallace (Tim Roth), Martin Luther King tenta obter o mesmo sucesso que Anne, mas acaba notando as verdadeiras intenções do presidente, e de todo um governo: negros silenciados.

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King decide se instalar na cidade de Selma (explicando o nome do filme), no Alabama – coração da região caipira Selma - Uma luta pela Igualdade | A voz da verdade não se apagaracista do país – para fazer diversos atos não violentos de protesto. Uma cidade marcada pela discriminação racial, onde os brancos ainda se acham superiores. Onde mesmo com mais de 50% de negros em sua população, a outra metade ignora os direitos básicos e os espanca sem um pingo de compaixão quando o encontram em locais públicos.
Se antes já acontecem coisas que te deixam boquiaberto, depois que King vai para a cidade de Selma, você não para mais de se impressionar com a história. Racismo, conspirações políticas, “Selma” é repleto de arquivos históricos e relatos reais, de como um povo foi silenciado por sua cor, mesmo depois da escravidão. E de como uma cidade se levantou em meio a opressão que sofria.

Avançando um pouco a trama, Malcolm X (Nigel Thatch) decide se unir a Martin Luther King. Eles que tiveram muitos atritos – por diferenças de pensamentos e de como conduzir a luta – mas, dessa vez sabem exatamente quem são os inimigos, e por qual motivo devem permanecer unidos contra eles. Para quem não conhece a história, Malcolm X era um homem que não reagia como King, seus protestos passavam longe do pacifismo, e assim como os panteras negras ele era caçado pelo governo.

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Com o começo dos protestos, o terror aumenta, as ameaças de morte a família de King aumentam e a violência desmedida assombra a cidade. Tudo isso porque eles marcham em Selma, por um direito que perante a legislação eles já possuíam. As marchas sempre pacíficas, mas os políticos locais e a truculenta polícia farão de tudo para proibir a comoção de um povo que paga com sangue o direito de existir e de necessidades básicas. Os tratam como inimigos de guerra, os assassinam como se eles estivessem armados. Mas, como você sabe, Martin Luther King tinha um sonho e não se deixaria deter pela ignorância e preconceito dos intolerantes da época.

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Impossível não se emocionar com as históricas marchas realizadas por Martin Luther King e os manifestantes pacifistas em 1965, a mais intensa foi a marcha entre a cidade de Selma, no interior do Alabama, até a capital do estado, Montgomery. Marcha essa que foi proibida pelo governador.

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Com a proibição do direito de protesto, a luta pela igualdade começa a unir brancos, clero – começam a chegar pessoas de outras cidades. Sem o apoio do Governador, e com uma advertência violenta, a marcha continua e o sonho da liberdade aumenta. Os brancos que estavam em Selma, estavam lá unicamente pelos negros e pela desumanidade com que eles foram tratados.

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Quando o presidente vê a repressão desnecessária, as mortes violentas sendo documentadas em um protesto pacifico, ele tenta convencer o Governador a cumprir o que por lei era obrigação: o direito do voto. Mas como você já pode imaginar, ele não quis cooperar e muitos habitantes não querem igualdade. É impossível se manter indiferente ao filme quando se vê tanta injustiça que sabemos que foram reais acontecendo. Sabendo que os brancos desde sempre foram privilegiados, e quando um direito básico foi dado aos negros, eles queriam tirar isso deles.

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Quando “12 Anos de Escravidão” ganhou o Oscar, ano passado, por mostrar os horrores e o absurdo da escravidão, não imaginaria que o legado contra o racismo continuaria a encantar a academia. Assim como “Histórias Cruzadas”, “Selma” veio mostrar que é mais do que uma cinebiografia sobre Martin Luther King, é a história de uma luta que continuou durante anos e anos. Os negros, já livres da escravidão, foram privados de uma vida digna e foram vingados – por eles mesmos – de forma pacifista e justa.

Feito de discursos reais, de histórias reais e de uma trilha sonora espetacular, “Selma” se utiliza de um tema muito sério e uma importante figura histórica – coisa que os membros da academia adoram. Não é um filme de emoções fortes, é um filme sobre uma história forte. Escolher um tema como esses para abordar, já é meio caminho andando para uma indicação, mas nem por isso o filme foi bem visto.

Mesmo que o filme tenha suas falhas – como qualquer filme longo que aborde um tema real – nada minimiza a história vivida e contada. As cenas das manifestações, da violência policial que se sucediam à elas, são bem orquestradas, junto das boas atuações de todo o elenco. Um filme que mostra que efeitos especiais não são mais importantes do que boas atuações.

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Martin Luther King foi interpretado por David Oyelowo, e a humanização de seu personagem é fabulosa – em nenhum momento ele é tratado como herói, como homem sem defeitos, ou endeusado por isso, ele é mostrado como um homem íntegro, humilde, determinado, falho e acima de tudo humano – como deve ser. Ver a força de uma figura como ele, e seus discursos inspiradores emociona. O elenco – bárbaro, por sinal – conta com uma pequena participação da Oprah – que também é produtora do filme. Tim Roth está brilhante como o governador e Tom Wilkinson como presidente.

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Não é apenas um filme sobre raça, menos ainda sobre um sonhador, é sobre a esperança – sobre um ponto da história americana que teve um enorme impacto na sociedade ocidental como um todo. “Selma” é perfeito para quem quiser conhecer um momento bem específico da história de Martin Luther King, mas não é apenas a história sobre um homem, é a história sobre a luta dele. Sobre gerações marcadas por um racismo sangrento – que sempre mostraram que existe bons motivos para se levantar e lutar. “Selma” é um soco no estômago, um choque de realidade, um filme que te conta uma história de sofrimento, dos horrores do preconceito, da desigualdade e da injustiça, mas é principalmente um filme sobre a coragem.

Esse é o indicado ao Oscar de melhor filme – que nunca será esquecido – mesmo se não for laureado. Isso porque a história que ele conta mostra porque o verdadeiro vencedor não derrama sangue em sua luta – mesmo que seu próprio sangue caia diante disso – ele continua de pé. “Selma” prova que enquanto houver palavras como arma, as armas de fogo não as apagaram. “Selma” é a prova de que podem silenciar um homem com a morte, mas nunca vão minimizar a força de suas palavras. Martin Luther King, Malcolm X – e todas as vozes silenciadas de Selma e do mundo – comprovam que a voz da verdade não se apaga.


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