O Jogo da Imitação (2014)

O mundo é cruel até mesmo com seus heróis

A história de um homem que mudou a história, mas que não teve uma história com final feliz. Baseado no livro “Alan Turing: The Enigma”, escrito por Andrew Hodges, O Jogo da Imitação conta, em 114 minutos, como o matemático Alan Turing liderou um grupo de estudiosos durante a Segunda Guerra Mundial, até que conseguissem descriptografar e quebrar os códigos alemães da máquina Enigma. Dividido em três ambientes, o longa mostra as façanhas de Turing durante a guerra, sua vida depois da guerra – onde é perseguido por causa de sua sexualidade – e sua infância, quando ainda era estudante e fazia suas primeiras descobertas nos campos da matemática e do amor. O Jogo da Imitação foi indicado ao Oscar 2015 em 8 categorias, sendo elas Melhor filme, Melhor Diretor (Morten Tyldum), Melhor Ator (Benedict Cumberbatch), Melhor Atriz Coadjuvante (Keira Knightley) e Melhor roteiro adaptado, sendo um dos concorrentes mais fortes na briga pela estatueta.

Benedict Cumberbatch está magnífico no papel. O ator trouxe muitas características de Sherlock Holmes para Alan Turing, mas soube exatamente até onde poderia ir. Assim como Sherlock, Turing é um homem estranho, anti-social, imediatista, inteligente, calculista, arrogante e literal. Contudo há diferenças entre eles, e Cumberbatch consegue deixá-las muito claras. Turing não tem a intenção de soar arrogante, ele apenas fala ou responde de forma que – para pessoas “normais” – parece arrogante. Há uma inocência cativante nele que se desenvolve com o passar do filme e torna o personagem cativante. Há também de se ressaltar o fato de que, ao mesmo tempo que se acompanha a história do matemático na guerra, se acompanha sua infância na escola, fazendo com que Alan Turing seja muito mais humano para o público do que para os personagens que convivem com ele.

O Jogo da Imitação | O mundo é cruel até mesmo com seus heróis

A sexualidade de Turing é mostrada de maneira bastante respeitosa e ponderada, o que causou opiniões diversas na crítica, que afirmou que O Jogo da Imitação deixou de lado esse aspecto tão importante. O que absorvi – e acredito que seja esse o objetivo dos produtores – foi um contraste brutal no modo como a homossexualidade era tratada. Turing referia a si mesmo como “homossexual”, enquanto a polícia tratava sua sexualidade como crime – “atentado violento ao pudor”. E os momentos finais do longa transformam esse contraste em violência, numa situação onde é impossível não enxergar a injustiça, a desumanidade, a brutalidade e a tortura que este homem tão brilhante é submetido. Os últimos momentos de Turing destroem um conceito que até hoje tenta ser comprovado por pessoas que não entendem que a homossexualidade é normal: que a sexualidade nada tem a ver com o trabalho ou com a mente do homem. Se esse conceito fosse real, por que Alan Turing não consegue resolver uma simples cruzadinha depois de submeter-se à castração química?

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Contudo, Benedict e sua performance só se tornam completamente admiráveis com a chegada de Keira Knightley. Particularmente, nunca me surpreendi com nenhuma atuação dela, pelo menos não ao ponto de dizer que meu queixo caiu, que merece um Oscar, que é um talento sensacional ou algo do tipo. Mas sempre notei que as características marcantes de seu trabalho são a naturalidade e a química impecável que ela consegue desenvolver com seus colegas de elenco. Esse tipo de talento muitas vezes passa despercebido e até pode-se dizer que se trata de um papel simples, que qualquer atriz poderia interpretar – uma opinião terrivelmente equivocada.

Agir com naturalidade em frente às câmeras é uma arte, e mesmo atores com décadas de carreira já confessaram ter dificuldades com isso. No caso de Keira Knightley, assim que aparece na tela não há dúvidas de que ela é uma moça inocente e esforçada dos anos 40. Sua personagem, Joan, é maravilhosamente escrita, uma menina brilhante que está amarrada aos valores da sociedade da época. Corajosa, amável, altruísta e incrivelmente inteligente, Joan não está em cena para representar a figura clichê de par romântico feminino – até porque nosso protagonista é homossexual – mas sim, ser algo a mais naquela situação.

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Joan é oprimida desde sua primeira aparição e Turing interfere para que ela atinja seu objetivo. Ele não facilita as coisas para ela, apenas usa sua influência como homem para levá-la até os lugares onde ela merece estar – como sua equipe, por exemplo. A forma como as mulheres são tratadas na sociedade da época não é o tema principal do filme, mas graças ao roteiro e ao desempenho de Knightley, essa parte da história não foi deixada de lado. Outra coisa maravilhosa sobre Joan, é que ela não se importa com o fato de Turing ser homossexual – entretanto, quando Alan a ofende, ela contra-ataca. É realmente uma personagem feminina muito inspiradora e encantadora.

Dentre muitas coisas que me fazem gostar de um filme, uma das mais especiais é um roteiro que faz com que todo o elenco tenha espaço e seja importante para a trama. Veja bem, todos os filmes tem seus protagonistas e seu elenco de apoio, mas nem todo roteiro faz com que os personagens secundários tenham relevância na história, chamem atenção do público, marquem, emocionem ou causem qualquer outro sentimento – isso geralmente fica com os protagonistas, só com eles. Em O Jogo da Imitação é possível apreciar todo o elenco, desde os oficiais britânicos até os companheiros – e companheira – de Turing no intenso trabalho de decodificação do Enigma. Matthew Goode é um dos atores mais charmosos e carismáticos, e destaca-se (sem muito esforço) como um dos homens da equipe de Turing. Há também Matthew Beard como outro membro da equipe, Peter, responsável por momentos bastante emocionais e inocentes, que fazem bastante diferença. Allen Leech é o último homem da equipe de Turing, que aparenta ser o elo mais fraco, mas é forte o bastante para guardar segredos melhor do que os mais profundos túmulos.

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Mark Strong interpreta Stewart Menzies, o chefe do MI6 (ao que tudo indica, aquele que inspirou a criação do chefe de James Bond – “M”) e, como de costume, faz seu espetáculo – o seu papel pode não ser tão grande, mas ele é Mark Strong. Há tanto carisma nele que simplesmente não dá para esquecê-lo depois que o filme termina. Charles Dance interpreta o superior imediato de Turing e ele é, basicamente, uma versão do Tywin Lannister na Segunda Guerra Mundial. Tão importante quanto a atuação de Cumberbatch é a atuação de Alex Lawther, que interpreta o jovem Alan, ainda nos tempos de escola. Preciso ressaltar, ainda, que a cena final do ator na pele de um Alan Turing ainda criança, encarando um dos muitos choques que a vida lhe daria, foi uma das cenas mais surpreendentes que já assisti.

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O Jogo da Imitação não é um filme com final feliz, não é um filme sobre justiça, sobre um casal que encontrou forças para ser feliz independentemente das adversidades e, definitivamente, não é um filme sobre um herói de guerra. Embora tenha salvado muitas vidas e ter contribuído para a história de maneira muito significativa, Alan Turing viveu no inferno, e é muito importante que todos saibam, assistam, se emocionem e aprendam com isso.


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Por Louise


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