O Contador (2016)

Boas ideias, péssimas execuções

Protagonizado por Ben Bruce Wayne Affleck em, provavelmente o auge de sua forma física (o que indica que veremos um Bat-Affleck ainda maior em A Liga da Justiça e no filme solo do morcego com mommy issues), O Contador (2016) tem a cara, a mística e o visual de vários excelentes filmes feitos entre o final da década de noventa e a metade dos anos 2000. A trilha sonora, incluindo Radiohead, contribui bastante para isso – apesar de variar entre boas escolhas e péssimos momentos para uso.

Assistir The Accountant é assistir três filmes diferentes que, sim, se tocam, mas caso você pegue em pontos variados (seja por banheiro, atraso, aquele/a amigo/a ou namorado/a que não pausou o longa, ou aquela dormida marota depois da semana de provas), vai achar que são histórias diferentes com pegadas distintas ao redor de um tema comum.

Dirigido e co-produzido por Gavin O’Connor (responsável pelo piloto da série The Americans, 2013, e pelo roteiro do fantástico Guerreiro), co-produzido pelo ator Mark Williams (o eterno Arthur Weasley da saga Harry Potter) e roteirizado por Bill Dubuque (O Juiz, 2014), o filme se sintetiza não somente na experiência da equipe por trás das câmeras, mas na reunião de um inesperado elenco que dá a impressão de um projeto maior do que realmente é (Affleck, Anna Kendrick, J.K. Simmons, Jon Bernthal, John Lithgow, Cynthia Addai-Robinson, Jeffrey Tambor, Jean Smart).

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Acompanhamos uma história marcada por flashbacks e focada na vida de um homem com autismo de hiperfuncionalidade, que lhe garante capacidades lógico-matemáticas impressionantes, foco absurdo e capacidade de aprender de maneira metódica além do normal, porém com habilidades sociais e compreensão de relacionamentos muito fracos. Conforme aprendemos ao decorrer do filme, o núcleo familiar do rapaz em questão (nunca sabemos seu nome real) é formado por ele, seu pai e seu irmão, em uma trindade masculina simbólica relativamente bem construída.

O trabalho de Christian Wolff (como é chamado por boa parte do longa) se resume a ser um contador profissional para diversos gangsteres, mafiosos, criminosos internacionais de alta escala, líderes mundiais e assassinos profissionais – o que lhe coloca na mira de uma investigação do Departamento do Tesouro Americano (a partir do qual a história se desenrola).

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No primeiro terço do filme, o enredo é a vida de um autista com hiperfuncionalidade que, por conta de algum aspecto misterioso em sua vida, provavelmente o clichê do pai militar, se tornou uma espécie de super-humano. As falhas do sobrenatural Wolff moram justamente em suas perfeições, e a atuação de Affleck contribuem absurdamente para isso – o contador é um homem recheado por pensamentos e emoções, mas por conta de sua condição, todas essas coisas são perceptíveis tão somente quando observamos mais de perto.

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A segunda história é a da investigação, focada em J.K. Simmons (que sofre variações inexplicáveis de caráter durante o longa) e Cynthia Addai-Robinson (em uma atuação apagada por problemas de construção de personagem do roteirista e do diretor), e no desenvolvimento da investigação a respeito de Wolff, sobre o qual o governo não sabe praticamente nada. Sob esse ângulo, tudo vira um jogo de duas camadas: a vida de Christian como super-contador (gênio da matemática, mestre em armas, combate e infiltração) e a investigação sobre quem diabos é essa pessoa e qual sua identidade secreta.

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Surge uma terceira história, um filme de ação com combates clichê extremamente previsíveis e com pontas amarradas de maneira fraca com o restante da trama. Nesse ponto somos apresentados ao subutilizado (e talentosíssimo ator, escritor, narrador, dançarino, músico e roteirista) John Lithgow (3rd Rock from the Sun, 1996–2001; Interestellar, 2014), Jon Bernthal (Demolidor, 2016), Jeffrey Tambor (Transparent, 2014) e Jean Smart (Fargo, 2014) mais a fundo, demonstrando quem realmente seus personagens são (até certo ponto) e apresentando mais uma série de clichês previsíveis e pontas a serem ligadas com o clímax de violência do fim do longa.

De fotografia mais ou menos fria, O Contador tenta criar um quebra cabeça, mas subestima sua plateia contando uma história antiga, mas com um personagem interessante (seria como montar um quebra cabeça pela centésima vez depois de tê-lo montado pela nonagésima nona mês passado, mas o principal elemento da figura montada é Mohamed Ali).

Recheado de referências (intencionais ou não) ao universo do novo Batman (como provável piada), Uma Mente Brilhante e O Talentoso Ripley, O Contador poderia ter sido um dos grandes filmes razoavelmente esquecidos pelo público geral entre os anos 90 e 2000, amado por quem lhe conhece (tipo de longa que aquela/e sua/e amiga/e que sabe exatamente do tipo de narrativa que você gosta te indica junto com ótimas produções), mas que acabou como um produto fraco para mediano que certamente será esquecido até o começo do ano que vem.


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