Caixa de Pássaros

O intimismo do terror psicológico (SEM SPOILERS!)

Por conta de algum tipo de acidente estranho de origem desconhecida, as pessoas começam a morrer aos poucos do outro lado do mundo de maneira anormal. Apesar de cada morte ser, na verdade, fruto de suicídio, há algo muito mais sombrio e estranho por trás disso, uma espécie de loucura consequente da incapacidade de compreender o impossível. Nenhum dos suicídios é simples. Todos são fruto de um surto violento e desesperado de insanidade, que leva pessoas a se enforcarem com cadarços, arrancarem os próprios olhos, arrancarem as artérias dos braços, e assim vai.

O”incidente”, que começa como algo localizado e específico começa a cruzar o globo e infectar de país e país, passando da Sibéria ao Alasca, e descendo pelos Estados Unidos, onde a história se desenvolve de fato. Romance de estreia do vocalista da banda The High Strung, Josh Marleman, Caixa de Pássaros é o tipo de obra que reúne conceitos comuns de grandes obras, autores/as e mitologias do horror, carregando o/a leitor/a em uma visita intimista e especial sobre como é o medo com base na aflição, no inimaginável, no sensorial e, talvez do elemento mais importante (como vários/as vão perceber): do inominável.

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Apesar de se utilizar de um cenário apocalíptico, Malerman aproxima o enredo de personagens extremamente reais e humanos, focando na (fortíssima) protagonista Malorie e seus dois filhos, ainda variando entre presente e passado no enredo para explicar pontos fundamentais à trama (e aprofundar a tensão do thriller).

Premiado nos Estados Unidos e extremamente bem recebido em todos os lugares onde foi publicado (inclusive no Brasil!), o livro trabalha na construção do suspense contínuo através das limitações: as personagens sabem que olhar para as ditas “criaturas” é a grande questão, e que para sobreviver (durante e depois) num mundo sem governos, sem ordenamento e sem ajuda externa, depende da capacidade de se adaptar de maneira criativa e situacional a não usar a visão em praticamente nenhum momento.

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Com óbvias e fantásticas referências ao horror espacial e inexplicável de autores icônicos e importantíssimos como H. P. Lovecraft (O Chamado de Cthulhu e Outros Contos) e Robert W. Chambers (O Rei Amarelo), além da manufatura intrincada de um clima pesado de suspense típico dos ares psicológicos de Stephen King (A Coisa), o autor aproveita de temas não tão bem aproveitados, constrói um enredo bem amarrado e interessante que, ao mesmo tempo, deixa espaço para que o/a leitor/a preencha a partir dos cantos obscuros de sua imaginação.

Da metáfora da resistência, da superação, da transformação, da força e, principalmente, da capacidade humana de adaptação pela sobrevivência, a escolha de focar em uma protagonista mulher (e mãe) não é gratuita: cada decisão, pensamento, ação – seja na certeza ou na incerteza, no erro ou no acerto – trazem de maneira firme e real o peso de uma representatividade bem elaborada e que produz uma das personagens mais fáceis de se compreender e se colocar no lugar.

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Malerman trabalha com sentidos, e apesar de não utilizar onomatopeias, consegue provocar sensações táteis e auditivas incríveis graças à exatidão de descrições práticas e cheias de comparações bem colocadas. De escrita atual, desenrolada e afiada, o músico consegue transformar, ao mesmo tempo, 272 páginas em poucas e em muitas: o livro é desses de se devorar e acaba rápido, mas por outro lado, acaba se tornando enorme por conta da amplitude e da profundidade do universo criado.

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Trazido ao Brasil numa edição bem fiel e muito bem reproduzida da versão original pela Intrínseca, que conseguiu transferir com sucesso através da diagramação e do bom trabalho de tradução todo o peso do mundo surreal (e real!) da história, o livro é uma ótima pedida para novos/as leitores/as do gênero, tanto quanto para os/as veteranos/as de outras passagens mais (ou menos) assustadoras. Uma boa dica é ler, antes ou depois, alguma coletânea de contos de Stephen King, H. P. Lovecraft e, sem dúvidas, O Rei Amarelo.


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