Azul é a Cor Mais Quente (2013)

Uma visão heteronormativa do amor entre duas mulheres

Eu assisti esse filme assim que foi lançado no cinema. Em primeiro momento, notei apenas a beleza das atrizes, a trilha, a relação entre Adèle e Emma, e evitei ao máximo ser crítica, mas muita coisa me incomodou, mesmo eu sendo “mente aberta”. Ao assistir novamente, foi praticamente impossível não problematizar, não querer debater e não querer alertar o que tu propagas como romance.

O longa frânces Azul é a Cor Mais Quente combina erotismo e polêmica, e foi criado pelo diretor franco-tunisiano Abdellatif Kechiche, que deu ao público uma notoriedade que quase obscurece as qualidades do filme. O roteiro de Kechiche é livremente adaptado do romance gráfico Le bleu est une couleur chaude (2010), da quadrinista francesa Julie Maroh.

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O filme se passa com Adèle (Adele Exarchopoulos) aos 15 anos, na transição da adolescência para idade adulta. Ou seja, aquele período crítico de mudanças, descobertas, experiências, insegurança e erros – um tema universal, se assim posso dizer. Todos nós passamos por essa fase, com mais ou menos sofrimento, mais ou menos dificuldades, e nos lembramos dela com variáveis doses de saudade, negação, piedade e até mesmo amnésia seletiva.

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A personagem Emma (Léa Seydoux) é muito bem montada, ela passa bastante segurança a Adèle como mulher e profissional que tenta emplacar sua carreira artística, mesmo sem ter muito apoio das pessoas. Uma identidade mais construída do que de sua parceira, sexualmente assertiva, gosta de Sartre e é estilosa. Tudo isso, ou boa parte disso, se sabe apenas pelo trailer.

Adèle é completamente desfavorecida fisicamente em sua interpretação. Quem vê a mulher incrivelmente linda que ela é fora de cena, não pensa que é a mesma moça que come com a boca aberta em 99% da trama:
 
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O fato dela comer com a boca aberta não só foi de péssimo gosto, como foi desnecessário. Além do macarrão, o sexo e os close-ups (o rosto de Adèle é o único cenário em boa parte das 3 horas de filme, e ela sempre está desfavorecida diante das câmeras). O propósito parece ser que o espectador leia Adèle em suas entrelinhas, e que o percurso emocional da protagonista seja o grande atrativo e interesse para quem vê, mas muitas vezes isso é massante.
 
É claro que a beleza das atrizes ajuda a enfeitar a coisa, e o fato de que elas se entregam às interpretações excelentes também. Mas a sexualização das personagens é marcada de forma obscura na trama, inclusive como as próprias atrizes declaram: elas não se sentiram confortáveis diante das inúmeras exigências do diretor e não pretendem voltar a trabalhar com ele.
 
A trama da jovem estudante que conhece a pintora que mudaria por completo sua vida, tinha tudo para ser uma bela história sobre amor, mas também é uma visão hétero quase que distorcida do amor entre duas mulheres.

Por que falar sobre isso?

Azul provocou muito barulho fora das telas, pelo tema (ou suposto tema) do amor lésbico, pelas cenas quentes (assim como indica o título) e principalmente pela notícia de que o diretor teria sido tirânico e submetido suas atrizes a constrangimentos, por ser uma visão heteronormativa do amor entre duas mulheres.
 
O que é heteronormatividade: Termo preconceituoso que designa que a heterossexualidade é a única orientação sexual que deve existir. No caso da trama: o diretor molda como uma relação lésbica é, sem ser fiel a realidade (no caso da HQ).
 
Esse é o tipo de filme que você poderia perfeitamente assistir ao lado dos seus pais e parentes, se não fosse pela falta de tato do diretor, que abusou das cenas de sexo em momentos inoportunos, o que não era necessário. A sequência sexual dura mais de dez minutos, tempo enorme quando se trata de um filme. Duas atrizes fazem sexo sem cortes, sem maquiagem e, ao que parece, sem subterfúgio.
 
Azul é a cor mais quente (2013) | Uma visão heteronormativa do amor entre duas mulheres

Não é todo mundo que está acostumado com isso, sejam dois homens, duas mulheres, um homem e uma mulher, ou o que for. Poucas vezes me senti tão desconfortável vendo um filme no cinema. Olhar ao redor e ver inúmeros homens assistindo como se fosse um pornô (inclusive fazendo você sabe muito bem o que) não é nem de longe um sucesso de crítica. É um sucesso do preconceito. Um sucesso de estereótipos. Faltou sensibilidade no olhar, assim como falta em muitos nus considerados artísticos.

O problema não é o sexo, e sim o apelo sexual. Nem em ninfomaníaca o apelo sexual foi tão usado e criticado quanto neste filme.

As atrizes acusaram o diretor, Abdellatif Kechiche, de maus- tratos. Ele diz que foi pela arte, mas eu afirmo que foi pela falta de noção.

Léa e Adèle, ambas heterossexuais, disseram a jornais e canais de televisão de Paris que haviam sofrido nas mãos de Kechiche. “Eu me senti como uma prostituta”, afirmou Léa. “Ficamos diante de Kechiche e da equipe técnica repetindo incessantemente cenas de sexo, sete dias por semana, dez horas por dia. Cheguei a ficar cansada de tanto fazer sexo.” Adèle disse que era inexperiente e se deixou manipular. “Não sabia que passaria por isso, quando assisti às cenas, me senti mal porque meus pais e meus amigos me veriam naquela situação forçada de amor lésbico.”

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Léa Seydoux em lágrimas ao falar de seu trabalho em “Azul é a Cor Mais Quente”


Léa contou que o sexo que praticaram não era 100% real. “Usávamos uma pequena prótese”, disse ao Correio da Manhã de Lisboa. “Tínhamos vaginas falsas… Usávamos uma fina membrana de silicone, um molde com a forma de uma vagina. Era um acessório perfeito, um verdadeiro efeito especial… Pode parecer um pouco chocante, mas para nós chegava a ser cansativo.”  Adèle afirmou ainda que Kechiche gosta de improvisar. “Ele queria que a gente vivesse o papel. Foi uma experiência ultrarrealista. Sou como irmã de Léa, então as cenas de sexo não teriam sido difíceis de fazer, não fosse o perfeccionismo de Kechiche. Léa ficou mais chateada do que eu.”

Azul é a cor mais quente (2013) | Uma visão heteronormativa do amor entre duas mulheresSe a intenção era agradar héteros que aplaudem lésbicas se beijando, ele conseguiu muito mais que aplausos. Mas não agradou as protagonistas e o público que esperava muito mais do que apelo sexual em um romance lésbico.

Se você analisar bem a sociedade, saberá o motivo dessa visão: quando duas mulheres se relacionam, ALGUNS homens héteros querem se envolver na relação, sem pudor e respeito algum, ou até mesmo querem apenas assistir. Não é por acaso que o maior público do filme seja de pessoas que não acreditam no amor sem distinção de sexo, homofóbicos mesmo. Você raramente vê isso acontecendo com homens, nunca escuta que é lindo ver homens se beijando, ou vê mulheres pedindo para entrar no meio do beijo deles. Mas quando duas mulheres se beijam a coisa muda. Quando um filme mostra o que esse tipo de gente gosta de ver, vira desrespeito com os gays. Conheço pessoas que já viram apenas as cenas de sexo de Azul é a Cor Mais Quente como se fossem retiradas do X-vídeos. Isso porque a internet está cheia de compilações sexuais da trama.

Azul é a cor mais quente (2013) | Uma visão heteronormativa do amor entre duas mulheres

Se você for pesquisar no google agora, saberá do que estou falando. E se procurar nos filmes favoritos daquele seu amigo que jura de pé junto que ser gay é imoral, poderá encontrar o filme. Não é por nada que ele atingiu o público errado, muitos comentários em redes de cinema são do nível “mulheres lésbicas tem que ser assim”, isso porque em algum momento deram o controle para um deles estereotipar um relacionamento lésbico.

Na HQ a história se desenvolve de forma diferente, mostrando mais o lado amoroso e o aprendizado do relacionamento do que o lado sexual de Adèle, mesmo ele existindo. As próprias atrizes não se sentiram confortáveis com tais cenas. Por que eu (como espectadora) precisaria me sentir? Não preciso, não quero e não vou!

Azul é a cor mais quente (2013) | Uma visão heteronormativa do amor entre duas mulheres

O fato é que Azul é a Cor Mais Quente não deve ser visto como um cult porn (como muitos o classificam) porque sua história não se baseia nisso. Se não houvesse uma inspiração, não estaria aqui para analisar a forma péssima que o filme foi dirigido. Talvez se tivesse sido dirigido por uma mulher, ou por um homem com mais sensibilidade do que o diretor Abdellatif Kechiche nada disso teria acontecido.

Azul é a Cor Mais Quente tinha tudo para ajudar na visibilidade lésbica, mas o que eu vi foi uma bela visão de um hétero safado sobre a relação de duas mulheres. A visão do carinha que espia pela janela. E se você não viu isso (nem com o depoimento das atrizes falando que se sentiram prostitutas) o problema de visão já não é meu.

Nem tudo é sétima arte, muitas vezes é mau gosto mesmo.

O filme não pode até não ser constituído somente de cenas desconfortáveis, possui uma trilha sonora muito boa, cenários interessantes, uma fotografia impecável, e até mesmo um bom enredo. Mas nem isto o salva de suas falhas, muito menos minimiza a sexualização exagerada das atrizes.

Azul é a cor mais quente (2013) | Uma visão heteronormativa do amor entre duas mulheres

O que era para ser a vida de Adèle, virou apenas o retrato da vida sexual dela, de uma forma bem mais erotizada do que deveria ser. Filmes como este são o reflexo da sociedade e do que muitos pensam sobre um relacionamento entre duas mulheres, a imagem de que a relação é muito mais carnal do que sentimental. E não adianta culparmos o título, culparmos as atrizes, pois sabemos pelos depoimentos que não foi por isso que a trama ficou do jeito que ficou, foi sim pelo seu diretor.

Triste para quem vive uma relação gay de verdade, fácil para quem ama julgar.

O sexo já foi incluso diversas vezes no cinema (até mesmo com cenas reais) e nem por isso incomodou tanto. A minha crítica é sobre a postura do diretor para com seu público-alvo, e não um banho de moralidade. Faltou respeito com as atrizes. Faltou respeito com o relacionamento gay. Faltou respeito com o público. Nenhum diretor deve violar o limite ético de suas atrizes, menos ainda estereotipar uma vivência que ele não teve. Isso é mais um apelo pela visibilidade gay sem estereotipação do que uma resenha.


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