Cumulonimbus: Rashid transforma rua, luto e ancestralidade em tempestade

Não é um álbum pra ouvir uma vez só. É pra deixar molhar, e voltar quando bater a próxima vontade de lembrar de onde a gente veio

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Cumulonimbus: Rashid transforma rua, luto e ancestralidade em tempestade
Foto: Renato Nascimento

As ruas ganharam mais um do Michel, e dessa vez não é aquilo que a maioria diz logo de cara quando dá play num álbum de rap. Não é pedrada. Apesar que, involuntariamente, a vontade de gritar bem alto é grande, principalmente depois daquele socão em formato de rima colidindo na sua cara. O Michel é foda, mas aqui eu não estou falando da pessoa física, foi só um jeito diferente de introduzir aquilo que saiu da mente dele pra dar vida a mais um trampo do Rashid.

Com a chegada de “Cumulonimbus“, o rapper assina seu 13º trampo. Pensa que em 14 de abril de 2010 ele lançou o EP “Hora de Acordar”. Na segunda faixa desse EP, “E Se”, ele canetou essa aqui:

E se isso for ilusão? E se todos que disseram ‘não’ realmente tivessem razão?

Ainda bem que ninguém ali tinha razão. Dezesseis anos depois, ele tá aqui de novo: mais um álbum, mais algumas tracks, mais uma vez Michel, digo, Rashid. Mas de um jeito que a gente escuta e logo de cara pensa: isso aqui é ele purinho.

Foto: Renato Nascimento

Mas vou falar do álbum em si e depois eu volto a enaltecer esse cara (sim, eu posso). “Cumulonimbus” foi lançado no dia 11 de agosto de 2026. E se você pegar o verbete com a definição completa do nome, o resultado é esse:

“Nuvem pesada e densa, com uma grande extensão vertical, na forma de uma montanha ou enormes torres. Pelo menos parte de sua parte superior é geralmente lisa, ou fibrosa ou estriada, e quase sempre achatada; esta parte muitas vezes se espalha na forma de bigorna ou vasta pluma. Sob a base desta nuvem, que muitas vezes é muito escura, há frequentemente nuvens baixas e irregulares, fundidas ou não com ela, e precipitação às vezes em forma de virga.”

— Definição da nuvem Cumulonimbus segundo o Atlas Internacional de Nuvens da Organização Meteorológica Mundial

Todas as vezes em que eu dei play no “Cumulonimbus”, eu estava na rua. Acho que não tem lugar melhor pra ouvir esse cara: ele é dela, veio dela, seu som está nela. E pra sentir cada uma das 15 tracks, eu deixei pra ouvir enquanto caminhava pelas ruas do meu bairro, na zona leste de São Paulo. Isso quer dizer que se você ouvir em outro lugar está errado? Não. É só uma forma que eu encontrei de deixar chover, de me molhar e de não esquecer que é por meio da poesia que também nos conectamos com nossos ancestrais.

Esse álbum não foi canetado sozinho. Faixas pontuais deixam isso ainda mais evidente. Eu começo com a canção “Criado Por Mulheres”, que carrega uma poesia e uma homenagem a várias mulheres que fizeram e ainda fazem parte da vida dele. Mas o ponto alto é o final dela, com o Cairo (filho do Rashid) falando que uma das estrelas no céu é o vovô. Aqui, eu chorei largado!

A outra música, que também é um dos singles de “Cumulonimbus”, se chama “YOWA”. Pra ilustrar o que eu quero dizer, vou deixar alguns trechos que reforçam essa conexão com a ancestralidade.

“Eu vi quem ficou quando o abismo de dente afiado me ameaçou”

“YOWA! Basta saber que o caminho de ida também é a volta”

“YOWA! E a escuridão não habita onde tem vela acesa”

E logo depois desses versos, Rashid registra aquilo que eu falei sobre seu corre ser da porta pra fora de casa:

“Meu verso carrega o extrato da rua desde o anonimato”

Ele nunca foi um cara que fugiu da sua essência. A linearidade e a coerência do seu trampo sempre foram uma marca registrada. Ele já levou pancadas, e eu sei, já brigou pra caralho, e eu sei também. Se você for analisar a discografia dele, cada disco vai ditar o momento que ele tava vivendo. E esse aqui, com certeza, é um dos mais maduros e importantes de sua jornada.

Eu me lembro dele como um samurai, depois me lembro dele atravessando o portal. Mas me lembro mais ainda quando ele me trouxe coragem e luz há mais de dez anos. Mas isso aqui não é sobre mim, é sobre ele. E eu ainda estou falando de “YOWA”.

Ela permeia todas as dificuldades de alguém que carrega, na carreira e na vida, o peso de nunca ter esquecido de onde veio, e de quem fez o corre pra ele estar onde está hoje! E isso fica claro com a participação do Pai David Dias, sacerdote e pai de santo do Terreiro Aruanda, além de escritor, pesquisador e mestre em Ciência da Religião pela PUC-SP, quando ele diz:

“Você não está sozinho diante do seu povo”

“Um corpo, várias memórias, um povo, várias histórias. No fim das contas, quem aponta o destino é o passado. Para que o futuro jamais caminhe sozinho”

Isso é colocar alma no disco. O Emicida fez isso também no “AmarElo”, ao convidar o Pastor Henrique Vieira pra encerrar a música “Principia”. Não é porque se trata de um sacerdote falando, mas porque as vozes deles complementam e dão fé pra trajetória de quem conta a história.

Depois desse bonde vindo daqueles que a gente não pode esquecer, esse álbum me levou pra pensar sobre “Ouro, Mirra e Incenso”. Quem tem um amigo tem tudo, já dizia o Emicida, e nessa canção ele se junta com o Michel e o Tiago (Projota) pra mostrar como os três se completam. E de fato, eles nunca se separaram! Dor, peso, falta, luto, tudo isso junto e tudo se completa, se entrelaça, são eles, e aqui de fora a gente só “assiste” e bate palma. Não sei quem fez a gente chegar nisso, mas em 2026 já não é normal ter amigos assim. Uma pena! 

Bora se molhar? Só dar o play no álbum abaixo!

Referências

Rashid sempre foi muito bom em brincar nas rimas com referências de cultura pop. Aqui sobrou até pro Akuma do Street Fighter, Peter Pan e João e Maria. Mas não ficou só nisso: teve referências também no campo da literatura, música e da filosofia, com grandes nomes como Nietzsche, Krenak, Besouro Mangangá, Milton Nascimento, Caetano Veloso e Gonzaguinha.

Participações

Nas 15 faixas de “Cumulonimbus”, Rashid reuniu um time de peso, e cada um deles trouxe uma atmosfera diferente pra cada canção. Emicida e Projota dividem o microfone em “Ouro, Mirra e Incenso”; Kamau e Luedji Luna se encontram em “L’Appel du Vide”, unindo rima e melodia. Completam esse elenco Rael, Paula Lima, MC Neguinho do Kaxeta, Jota Ghetto, Slim Rimografia e Flávia K, cada um deixando sua marca em algum canto do álbum.

Foto: Renato Nascimento

Mesmo depois de ouvir “Cumulonimbus” algumas vezes, a chuva continua aqui dentro. Eu gosto demais de quem brinca com as palavras como uma criança brinca com a outra de Hot Wheels. Eu gosto quando cada sílaba me atravessa e o rastro delas ficam ecoando na minha cabeça durante meses. Não é só de dor que a gente vive, mas é muito foda quando a gente consegue perceber o peso dela numa track. Assim como não é só o amor que move o mundo: o ódio, a esperança e a gana estão lá também.

Isso tudo é o que forma essa nuvem, e como o Rashid bem disse: “Cumulonimbus”.

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