Misturar literatura clássica brasileira com videogame não é exatamente uma ideia comum e talvez seja justamente por isso que “Investigação Póstuma”, da Gaia Studio, chama tanta atenção logo de cara. Inspirado livremente em Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, o jogo tenta transformar o humor ácido, a quebra da quarta parede e o olhar crítico da obra original em uma experiência interativa e, surpreendentemente, acerta em vários pontos.
Antes de falar do game, vale lembrar rapidamente o que torna Memórias Póstumas de Brás Cubas tão especial. Publicado em 1881, o livro acompanha Brás Cubas, um “defunto-autor” que decide narrar sua vida após a morte, sem compromisso com moralidade ou cronologia tradicional. Ele comenta suas próprias falhas, ironiza a sociedade da época e conversa diretamente com o leitor um recurso extremamente moderno para o século XIX.
Essa narrativa fragmentada, irônica e quase metalinguística é o coração da obra — e também o maior desafio para qualquer adaptação.
Investigação Póstuma não tenta simplesmente recontar a história do livro. Em vez disso, ele usa o universo e o espírito da obra como pano de fundo para uma experiência investigativa. Aqui, o jogador assume um papel ativo em desvendar acontecimentos ligados à vida (e pós-vida) de Brás Cubas, navegando por memórias, pistas e relatos pouco confiáveis.

O grande charme está justamente na forma como o jogo brinca com a ideia de narrador duvidoso. Em vários momentos, você não sabe se está lidando com fatos, exageros ou pura invenção algo totalmente alinhado com a proposta literária original.
Além disso, o game quebra a quarta parede com frequência, conversando diretamente com o jogador de forma sarcástica e inteligente. Em certos trechos, parece que Brás Cubas está rindo da sua tentativa de “organizar” uma história que nunca quis ser organizada.
No aspecto mecânico, o jogo segue uma linha mais narrativa, com foco em exploração, leitura de documentos e resolução de pequenos enigmas. Não espere sistemas complexos ou ação intensa Investigação Póstuma é mais sobre interpretação do que habilidade.
Ainda assim, o ritmo funciona bem. Os puzzles são acessíveis, mas exigem atenção aos detalhes e, principalmente, uma boa leitura das entrelinhas algo que dialoga diretamente com a obra de Machado.

Visualmente, o jogo aposta em uma estética que mistura o clássico e o contemporâneo. Elementos que remetem ao século XIX aparecem lado a lado com recursos modernos de interface, reforçando a ideia de que estamos lidando com uma narrativa fora do tempo.
A trilha sonora e o design de som também ajudam a criar essa atmosfera meio etérea, meio irônica como se tudo estivesse sendo contado de um lugar entre o mundo dos vivos e dos mortos.
Apesar da proposta criativa, o jogo às vezes se apoia demais no material original e poderia ousar mais em suas próprias ideias. Em alguns momentos, a experiência parece mais uma homenagem do que uma expansão do universo.
Além disso, jogadores que não conhecem Memórias Póstumas de Brás Cubas podem perder parte das referências e nuances embora o jogo ainda funcione de forma independente.
“Investigação Póstuma’ é um projeto corajoso e inteligente, que consegue algo raro: traduzir o espírito de uma obra literária complexa para o formato interativo sem simplificá-la demais. Não é um jogo para quem busca ação ou desafio técnico, mas é uma experiência riquíssima para quem gosta de narrativa, literatura e jogos que brincam com a própria linguagem.


