O Tocha Humana será negro no cinema, e não há nada errado com isso [ou O Inesperado Racismo da Ignorância]

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O talentosíssimo ator Michael B. Jordan foi selecionado para o papel de Johnny Storm (a.k.a. Tocha Humana) no reboot do filme O Quarteto Fantástico que estreia em agosto. Desde o anúncio do ator, um tsunami de comentários ridículos, racistas e desnecessários tomaram conta da internet, e provavelmente continuarão até que o filme esteja no cinema.

Em primeiro lugar estão todos os obstinados fãs de quadrinhos, que não conseguem suportar a dura realidade que é saber que uma das criações de Jack Kirby e Stan Lee terá sua cor de pele alterada. Seus protestos e lágrimas insípidas são, com certeza, baseadas principalmente em racismo. As queixas que não são racistas, são meramente baseadas em nostalgia, que infelizmente está vinculada estreitamente ao racismo. A dura e real verdade é que, se você está puto(a) pelo simples fato de que um ator negro interpretará o Tocha Humana, você está operando dentro de um paradigma da ideologia racial – ou seja, em todos os sentidos, tamanhos e formas, vinculado ao racismo. Isso não quer dizer que você é racista, porque você pode não ser, mas essa é a realidade aterrorizante do racismo: muitas vezes é possível se envolver em uma ideologia racista, sem nem ao menos perceber que está fazendo isso.

O Tocha Humana será negro no cinema, e não há nada errado com isso (ou O Inesperado Racismo da Ignorância)

Hollywood é esmagadoramente branca. E mesmo que atores que não sejam brancos se tornem populares ou aclamados pela crítica, quase nunca são reconhecidos como merecem (Selma no Oscar, lembra?). Essa notável falta de pessoas diversificadas é ainda maior quando as histórias em quadrinhos que amamos se tornam mainstream. Um argumento usado com frequência para justificar as reclamações sem parecer racista é “Se afro-descendentes podem assumir papéis originalmente caucasianos, por que um branco não pode interpretar um personagem que é originalmente afro-descendente?” Resumindo, na cabeça de algumas pessoas, já que um ator negro está interpretando o Tocha Humana, seria justo que um ator caucasiano interpretasse o Pantera Negra ou o Luke Cage. Eu sinto muito por tirá-lo do mundinho colorido e repleto de justiça social em que você vive, mas se você quer reclamar de algo, pelo menos tenha a mínima noção da realidade onde vive. Personagens originalmente negros são interpretados por atores brancos desde que o mundo é mundo.

Eu poderia fazer uma lista gigante com atores brancos e ocidentais que interpretam negros, indígenas, asiáticos, entre outros. Mas como estamos falando particularmente de personagens negros, peço que analise os exemplos a seguir:

Cleópatra (1963)
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Atriz: Elizabeth Taylor
Análises antropológicas e arquitetônicas da tumba de Cleópatra convenceram os especialistas de que a lendária e sedutora egípcia descendeu de negros, e não corria sangue de macedônios em suas veias. “Tudo indica que ela tinha o rosto em formato alongado, traço típico de africanos da Antiguidade. Cleópatra possuía genes da raça negra.”, afirma o cientista austríaco Hilke Thuer.

Othello (1965)
O Tocha Humana será negro no cinema, e não há nada errado com isso (ou O Inesperado Racismo da Ignorância)
Ator: Laurence Olivier
“Otelo, o Mouro de Veneza” é uma obra de William Shakespeare, cuja história gira em torno dos personagens Otelo (um general mouro que serve o reino de Veneza) e sua esposa Desdêmona. O termo “mouro” era utilizado pelos romanos para identificar as populações que habitavam a região noroeste da África.

Em Rota de Colisão (2007)
O Tocha Humana será negro no cinema, e não há nada errado com isso (ou O Inesperado Racismo da Ignorância)
Atriz: Mena Suvari
A personagem Brandi Boski foi interpretada por uma atriz loira, branca e de olhos claros, mas na verdade, não se trata de uma personagem. O filme conta a história real de Chante Mallard, uma mulher negra que protagonizou um homicídio bastante polêmico.

Ah, mas você não estava falando de pessoas reais, mas de adaptações? Certo, compreensível. Acontece que isso também acontece em adaptações:

Katniss Everdeen na franquia “Jogos Vorazes”
O Tocha Humana será negro no cinema, e não há nada errado com isso (ou O Inesperado Racismo da Ignorância)
Atriz: Jennifer Lawrence
Nos livros, Katniss descreve-se como tendo “cabelo preto liso, pele cor de oliva, olhos cinzentos, magra e não muito alta”. Bem diferente do que é mostrado no cinema, onde é interpretada pela atriz loira, branca e de olhos azuis Jennifer Lawrence.

Eben Oleson em “30 Dias de Noite” (2007)
O Tocha Humana será negro no cinema, e não há nada errado com isso (ou O Inesperado Racismo da Ignorância)
Ator: Josh Hartnett
Nos quadrinhos de Steve Niles e Ben Templesmith, o primeiro protagonista se chamava Eben Olemaun. Ele era inuíte (membro da nação indígena esquimó que habita as regiões árticas do Canadá, do Alasca e da Groelândia). No filme, o nome do personagem foi modificado para “Eben Oleson” e o papel ficou com o ator branco e americano Josh Hartnett. Um fato curioso sobre essa adaptação, é que a cidade onde a história ocorre – Barrow, Alaska – possui uma população total formada por 57% nativos americanos e apenas 22% caucasianos. No filme, por outro lado, só existe um personagem nativo americano.

Eu poderia ficar muito mais tempo citando os inúmeros casos de personagens negros, fictícios ou não, que foram interpretados por atores brancos. Mas tenho certeza de que já derrubei o argumento falho de que “Já que um ator negro é o Tocha Humana, um ator branco pode ser o Pantera Negra.”

Outra verdade dura e inconveniente, é que não temos muitos heróis e heroínas negros que sejam populares o suficiente para ganhar suas próprias adaptações. Vamos analisar o que temos no cinema até agora:
Aço: protagonizado por Hill Harper, o filme estreou em 1997 e não caiu nas graças da crítica e do público
Spawn, O Soldado do Inferno: protagonizado por Michael Jai White, o filme foi ao ar em 1997. Não caiu nas graças da crítica.
Blade, O Caçador de Vampiros: protagonizado por Wesley Snipes, o personagem teve sua própria franquia, cujo último filme foi ao ar em 2004.
Hancock: protagonizado por Will Smith, o filme estreou em 2008 e não agradou o público e crítica em geral.
Mulher-Gato: protagonizado por Halle Berry, o filme estreou em 2004 e seu roteiro horrível desagradou até quem não assistiu.
Pantera Negra: filme anunciado.
Ciborgue: filme anunciado.

Mas não podemos esquecer dos coadjuvantes, certo? Aqueles personagens que são colocados em filmes protagonizados por heróis caucasianos, como se isso fosse preencher o vazio de protagonistas negros que existe em Hollywood:

Nick Fury: Nick Fury, veterano da Segunda Guerra Mundial, usuário de uma droga que lhe confere longevidade e diretor da SHIELD, é originalmente caucasiano. Mas Mark Millar e Bryan Hitch mudaram sua etnia quando criaram “Os Supremos”, do Universo Ultimate, e lhe deram as feições de Samuel L. Jackson. Nick Fury já foi branco em uma adaptação live-action: David Hasselhoff fez o personagem em um filme para a TV de 1998. Mas agora ele é (e provavelmente sempre será) o Samuel L. Jackson.
Máquina de Combate: nunca protagonizou um filme, sendo apenas personagem coadjuvante do Homem de Ferro e, recentemente, d’Os Vingadores.
Tempestade: nunca ganhou um filme solo, sendo apenas parte da equipe X-Men. Mesmo atualmente, quando vários personagens estão ganhando filmes solo (Deadpool, Gambit, Wolverine), a Fox não tem intenções de anunciar um filme protagonizado pela Tempestade.
Falcão: nunca protagonizou um filme, sendo apenas personagem coadjuvante do Capitão América e, recentemente, d’Os Vingadores.
Bishop: nunca protagonizou um filme, sendo apenas parte da equipe X-Men.

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Agora que tal comparar esses heróis com a quantidade de heróis caucasianos que vemos no cinema há anos?

Homem de Ferro I, II e III; Capitão América I, I e III; Thor I, II e III; Homem-Aranha I, II e III; O Espetacular Homem-Aranha I e II; X-Men I, II, III, Primeira Classe e Dias de Um Futuro Esquecido; Wolverine Origens e Wolverine O Filme; Lanterna Verde; Homem de Aço; Batman (trilogia Nolan e anteriores); Kick-Ass I e II; Motoqueiro Fantasma I, II; Demolidor; Elektra; Superman I, II e III; Superman, O Retorno; Watchmen; O Quarteto Fantástico I e II; O Incrível Hulk; Hellboy I e II; Guardiões da Galáxia; Dredd; Preciso continuar?

Entenda de uma vez por todas: existem muitos protagonistas brancos e existem muitos papéis originalmente negros que são vividos por atores brancos. Escalar um ator negro para um papel originalmente branco não é racismo, não é injusto e tampouco errado. É corrigir e melhorar esses personagens, que foram criados numa época completamente diferente da nossa. É dar a chance de crianças e jovens que não são caucasianos poderem se identificar com um personagem. É mostrar que o mundo é diferente de 50 anos atrás, e que este mundo é melhor do que há 50 anos atrás.

O Tocha Humana será negro no cinema, e não há nada errado com isso (ou O Inesperado Racismo da Ignorância)

Will Smith viverá um personagem originalmente branco. Problem?

Sejamos francos: há mais pessoas comprando ingressos para assistir filmes baseados em HQs, do que comprando HQs. E mesmo que você não queira admitir, é o público do cinema que está em foco agora e, inclusive, é esse público que tem sustentado as editoras (principalmente a Marvel). O primeiro filme do Quarteto Fantástico e sua sequência arrecadaram um total de 500 milhões de dólares no mundo inteiro (e em ambos os casos, a maior arrecadação veio da bilheteria estrangeira). As melhores edições dos quadrinhos do Quarteto Fantástico não conseguem sequer chegar a 1% desse valor. A verdade é que os fãs de quadrinhos não são tão importantes quanto acham que são, tampouco sua nostalgia racista ou quase-racista, porque os quadrinhos não dão lucro. Aliás, os quadrinhos estão voltando a vender graças aos filmes e às mudanças que as editoras têm adotado – com mais personagens negros, gays, mulheres e etc.

O Tocha Humana será negro no cinema, e não há nada errado com isso (ou O Inesperado Racismo da Ignorância)

O mundo precisa de diversidade em seus super-heróis. No mundo dos quadrinhos, a Marvel e a DC precisam se esforçar mais para virar o jogo, assim como seus leitores. Nós, leitores de quadrinhos, devemos exigir, aceitar e apoiar os super-heróis diversificados, em vez de agir como idiotas racistas cada vez que surge um boato sobre um ator negro interpretar um personagem originalmente branco. E até que as editoras, os criadores e os fãs façam a sua parte, todos nós devemos aprender a aceitar – seja de boa ou má vontade – que alguns de nossos amados heróis caucasianos precisam de um retoque para brilhar nas telonas. Pessoalmente, eu estou ansiosa para ver Michael B. Jordan como Tocha Humana, aliás, estou muito mais empolgada com ele do que com o filme em si.

O Tocha Humana será negro no cinema, e não há nada errado com isso (ou O Inesperado Racismo da Ignorância)

E para você que é cabeça dura e vai insistir no erro, dizendo que “tudo o que quer é que o filme seja fiel aos quadrinhos”, deixo a lembrança de que já existem dois filmes do Quarteto Fantástico com um ator branco interpretando o Tocha Humana. Não tá feliz? Não assiste o reboot, ora bolas. Assista os filmes antigos e supere.

Por mais heróis e heroínas diversificados.
Por mais adaptações que incluam atores diversificados, mesmo que os personagens sejam originalmente brancos.
Por menos racismo, ódio gratuito e argumentos sem fundamento nesse meio.
Por um mundo mais igual – na vida real e nas histórias fictícias.

*Esse texto é dedicado ao leitor Thymon Brian Rocha Santana.

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