Cinemanálise | A franquia Pânico (Scream)

8 meses atrás ( 22/08/2016 )

A franquia Pânico (Scream) foi pioneira ao introduzir o terror “auto-consciente” e mudou a forma que público e crítica assistiam filmes de terror. Assustadora e inteligente, a saga desafiou muitas das noções pré-concebidas que as pessoas tinham, até então, sobre filmes de terror tradicionais.

Kevin Williamson (The Vampire Diaries, The Secret Circle, The Following) era apenas um jovem aspirante a roteirista quando escreveu Pânico, mas Wes Craven já era um lendário diretor de terror quando foi contratado para a direção.

A união dessas duas mentes acabou por ser um casamento perfeito: o jovem Williamson forneceu uma história capaz de revitalizar o gênero de terror e Craven trouxe a experiência necessária para explorar todo o potencial desse roteiro. Como resultado, a franquia Pânico alcançou o equilíbrio perfeito ao satirizar os clichês do gênero, ao mesmo tempo que os aplica sem pudor em sua narrativa.

Já não havia mais espaço (nem paciência) para casais sendo assassinados por fazer sexo, personagens femininas estúpidas que sempre tomavam decisões erradas e acabavam mortas, policiais idiotas, assassinos vingativos com histórias de infância complicadas, suspeitos óbvios… O público queria mais. O público queria PÂNICO!


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Pânico (1996)

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Bem-vindos a Woodsboro, mais uma pacata cidadezinha do interior prestes a ser aterrorizada. Aqui você conhecerá um grupo de adolescentes que entrou para a história – alguns por sobreviver, outros por morrer e outros por algumas surpresas – formado por Sidney Prescott (Neve Campbell), Billy Loomis (Skeet Ulrich), Randy Meeks (Jamie Kennedy), Tatum Riley (Rose McGowan) e Stu Macher (Matthew Lillard). Você também conhecerá alguns adultos que são tão interessantes e importantes para a saga quanto os adolescentes, entre eles Gale Weathers (Courteney Cox), Dewey Riley (David Arquette) e Diretor Himbry (Henry Winkler). É importante prestar atenção nos personagens deste primeiro filme, porque eles serão lembrados e referenciados sem parar nos próximos (aprendi isso depois de assistir toda a franquia pela 3ª vez).

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Há um ano, Maureen Prescott foi assassinada brutalmente, e seu executor recebeu o apelido de Ghostface. Mas aparentemente Woodsboro está longe de ter paz, já que o casal de adolescentes Casey Becker (Drew Barrymore) e Steven Orth (Kevin Patrick Paredes) são assassinados e, a partir daí, todos são potenciais vítimas – e suspeitos.

A estreia da franquia Pânico nas telonas é uma sátira inteligente sobre filmes de terror, bem como uma linha entre realidade e ficção e sua relação com a violência. O filme é muito inteligente, uma grande sátira e muitas vezes se dá ao luxo de ser engraçado, mas nunca em um momento impróprio. A cena de abertura é um excelente exemplo de como Craven consegue manter a tensão palpável numa sequência e transformá-la em algo icônico e referencial sem precisar de grandes artifícios ou efeitos especiais.

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Este foi o longa que ressuscitou o terror na década de 90, e especialmente o sub-gênero slasher. Antes de Pânico estrear em 1996 e renovar a paixão pelo gênero, os anos 90 – com algumas exceções, claro – eram, basicamente, repletos de sequências, com estúdios tentando ganhar dinheiro com partes 2, 3 e 12 de franquias que rolavam desde os anos 80.

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Pânico (1996) é um clássico moderno. Não só fez o terror ser relevante novamente para o público mainstream, como também é incrivelmente divertido.

Melhor morte:

Casey Becker (Drew Barrymore)

Não poderia ser diferente, afinal, a cena de morte de Casey Becker na abertura de Pânico entrou para a história do cinema. Além de ser uma morte brutal, foi o momento que estabeleceu para as pessoas que elas não estavam assistindo mais do mesmo. Todos pensavam que Drew Barrymore era a personagem principal e, nos primeiros minutos, ela é brutalmente assassinada. O choque e a novidade fizeram parte da franquia Pânico desde o primeiro momento.

Melhor frase:

Scream (1996)

Pânico 2 (1997)

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Dois anos depois do banho de sangue em Woodsboro, a turma de amigos da escola está de volta (pelo menos quem sobreviveu), só que agora na faculdade e em outra cidade. Já que o primeiro filme “falou” sobre filmes de terror, foi bastante natural que Pânico 2 tivesse ênfase em sequências. O roteiro, novamente escrito por Kevin Williamson, mantém a inteligência do predecessor e apresenta uma ambientação onde os eventos do primeiro longa inspiraram um filme chamado “Apunhalada”, e Gale Weathers está no auge da fama após ter lançado um livro sobre os mesmos acontecimentos. Depois que “Apunhalada” estreia, os assassinatos voltam a acontecer e Sidney Prescott, ao lado de seus velhos e novos amigos, terá de enfrentar mais um Ghostface.

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Acontece que Pânico 2 não é apenas mais uma boa sequência. Não é tão simples assim. Esse filme enfrentou diversos desafios e era destinado a dar errado. É quase inacreditável que o resultado final tenha sido tão positivo e, mesmo que você não tenha gostado deste tanto quanto do primeiro, basta entender o contexto para se surpreender.

Pânico chegou aos cinemas em 1996 e se transformou em um fenômeno. Uma sequência foi encomendada, e tinha de ser lançada em 357 dias. Ou seja, em apenas um ano, um roteiro precisava ser escrito, atores e equipe tinham que ser contratados, locações precisavam ser selecionadas, filmagens tinham que começar, edições deviam ser feitas e estratégias de marketing tinham que ser criadas (e postas em prática) para fazer o filme acontecer. No mundo das sequências, a junção de todos esses fatores somados a tão pouco tempo equivale a um desastre. Nenhuma outra sequência lançada apenas um ano após o filme original foi tão criticamente elogiada e apreciada pela audiência como Pânico 2. Foi uma mistura perfeita de trabalho, talento e sinergia.

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Pânico 2 é repleto de momentos memoráveis, emoções e jump scares. É um filme auto-consciente que não se perde sob a sua própria presunção. Craven e Williamson criaram maneiras inteligentes para assustar as pessoas sem precisar reciclar os clichês do terror que já tinham utilizado.

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Ele tem seus defeitos, mas com as dificuldades e pressões enfrentadas pela produção, é completamente compreensível. A verdade é que, até hoje, é difícil saber se algum outro longa-metragem conseguiria atingir os pontos que Pânico 2 atingiu sob aquelas circunstâncias, e isso realmente o torna um filme incrível.

Melhor morte:

Randy Meeks (Jamie Kennedy)

Randy era um dos sobreviventes do massacre original e favorito dos fãs. Perdê-lo foi bastante angustiante, mas necessário para lembrar ao público que ninguém está seguro. Foi uma decisão ousada, que afirmou a franquia como imprevisível e corajosa numa época em que o público estava acostumado a ver seus favoritos sempre vivos no final.

Melhor frase:

Scream 2

Pânico 3 (2000)

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Pânico foi sobre filmes de terror, Pânico 2 foi sobre sequências e Pânico 3 é sobre? Trilogias, é claro!

O terceiro filme da franquia é ambientado em Los Angeles, onde o terceiro filme da franquia “Apunhalada” está sendo gravado por estrelas de Hollywood. Já se passaram 3 anos desde o último massacre, e Sidney Prescott está tentando fugir (de novo) dos banhos de sangue que a perseguem, desta vez morando em uma casa de campo no interior da Califórnia. Nem preciso dizer que não adianta muito, certo? Outro Ghostface aparece, mata os atores de “Apunhalada”, liga pra Sidney e começa toda a patifaria novamente.

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Kevin Williamson, infelizmente, não escreveu este roteiro porque estava trabalhando na série Wasteland. Então o novato Ehren Kruger foi contratado em seu lugar. Uma contratação arriscada e que não deu nada certo. Até agora ninguém entendeu se foi uma tentativa de encontrar outra mente brilhante dando chance a um roteirista iniciante (afinal, o próprio Williamson era um novato quando escreveu Pânico), se as ideias de Kruger não fluíram com as de Craven ou se foi um acidente… Mas Pânico 3 acabou por ser o mais fraco dos quatro filmes, com um roteiro drasticamente diferente dos anteriores. Ao assistir, você tem a sensação de que não está assistindo uma parte desta franquia, e sim, mais um dos tantos longas recheados de mortes, caos, vingança e reviravoltas previsíveis tão satirizados anteriormente. Ah, e com algumas piadas preguiçosas sobre Hollywood também.

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Pânico 3 tentou encerrar a franquia, um erro que seria corrigido mais de uma década depois. O esforço da produção merece reconhecimento, mas com novos personagens horríveis e o assassino menos interessante de todos, não há muito o que salvar.

Melhor morte:

Tom Prinze (Matt Keeslar)

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A morte de Tom não teve muito impacto emocional, mas foi a morte de melhor qualidade do filme. O corpo é mostrado explodindo e logo a câmera corta para a casa. Sensacional.

Melhor frase:

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Pânico 4 (2011)

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Demoraria 11 anos para Pânico voltar aos cinemas. Durante esse tempo (e inclusive até agora), os estúdios cinematográficos investiam mais e mais em remakes/reboots de sucessos dos anos 80/90. E como você deve saber muito bem, o cinema não focou apenas em clássicos terror, foi algo geral, incluindo O Massacre da Serra Elétrica, Batman, James Bond, Star Trek, entre outros. Então não é nenhuma surpresa que o tema de Pânico 4 tenha sido justamente remakes e reboots.

Wes Craven estava de volta na direção. Kevin Williamson estava de volta no roteiro. Será que tantos anos depois, eles seriam capazes de trazer a franquia de volta à vida?

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A ambientação volta para Woodsboro, onde a nova geração cresceu na era pós-filmes de terror satíricos, e acompanhou a franquia “Apunhalada”, que a esta altura já está na sétima película. Os adolescentes, desta vez, são ainda mais auto-conscientes do que os do primeiro filme. Nesse contexto, Sidney Prescott retorna a Woodsboro para promover o livro que escreveu sobre como foi capaz de se reestruturar depois dos três massacres que passou, e seu retorno coincide com o aniversário do massacre. A presença de Sidney e a cidade decorada com máscaras do Ghostface nos postes acaba inspirando um novo assassino a usar a infame máscara.

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Para uma franquia conhecida por suas cenas de abertura marcantes e violentas, esta acaba sendo um pouco decepcionante, principalmente por se tratar das mentes de Craven e Williamson. Mas a partir daí o roteiro cresce rapidamente, apresentando as características que fazem dos filmes Pânico aquilo que eles são – referências a outros filmes, piadas ironizando os clichês do gênero, introduzir novos (e interessantes) personagens, mortes sangrentas – e sendo inteligente o suficiente para se adaptar à nova audiência, sabendo em que pontos devia diferenciar-se dos outros filmes sem perder o espírito e incluindo a modernidade na narrativa.

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Pânico 4 tem seus probleminhas, mas mesmo assim consegue se sair muito bem ao apresentar essa mistura de clichês, reviravoltas e sátira que os dois primeiros filmes introduziram tão bem. Dito isso, foi realmente bom ter o elenco original de volta, mesmo que por uma última vez, enquanto o jogo mental de “quem é o assassino” não decepciona na hora da revelação. Por resgatar a nostalgia dos seus predecessores, sem perder a oportunidade de contar uma história original e interessante, Pânico 4 trouxe a franquia para uma nova geração – o que, no fim das contas, é o objetivo de todos os remakes.

Melhor morte:

Kirby Reed (Hayden Panettiere)

Kirby era uma mistura de Randy Meeks e Tatum Riley, interpretada de forma incrível por Hayden Panettiere. Inteligente, sarcástica, badass, viciada em filmes de terror e com alguns dos melhores diálogos do longa, foi impossível não simpatizar com ela instantaneamente. E quando uma nova personagem consegue ser tão interessante, você naturalmente acabará torcendo pela sua sobrevivência. A morte de Kirby foi uma homenagem à franquia devido às referências aos remakes de filmes de terror, e até hoje ainda surgem teorias sobre sua possível sobrevivência, tamanha sua capacidade de conquistar a audiência.

Melhor frase:

Scream 4


Provar que filmes de terror e slasher podiam ser sobre pessoas, não apenas sobre monstros é mais uma das grandes diferenças entre a franquia Pânico e outras do gênero. Quando você pensa em Halloween, quem vem à sua mente é Michael Myers; quando pensa em Sexta-Feira 13, é Jason Vorhees; quando pensa em A Hora do Pesadelo, é Freddy Krueger; mas quando você pensa em Pânico, você lembra imediatamente de Sidney Prescott. É claro que a máscara do Ghostface é icônica, mas os personagens humanos são o coração da saga, são eles que continuam aparecendo filme após filme, é com eles que você se conecta, não com os diferentes assassinos que usam a máscara.

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Tão inovadora, que mesmo 20 anos após a estreia do primeiro longa, a saga criada por Kevin Williamson e Wes Craven ainda está viva. Das telas do cinema para a TV, Pânico inspirou uma série que acaba de encerrar sua 2ª temporada – mas sobre ela, falaremos na próxima Cinemanálise.


O que você acha da franquia Pânico? E qual seu filme favorito entre os quatro? Concorda com minha análise? Discorda? Deixe sua opinião nos comentários!


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