Glen Hansard: a história do músico que apresentou ‘Once – Apenas Uma Vez’ ao mundo

0
Glen Hansard: a história do músico que apresentou 'Once – Apenas Uma Vez' ao mundo

Existem artistas que passam a vida tentando fazer sucesso. Outros apenas seguem criando, até que o universo mexe seus pausinhos e finalmente os encontra. Foi assim com Glen Hansard.

Para muitos, seu nome sempre estará ligado a “Once – Apenas Uma Vez” (2007), romance musical que conquistou o Oscar de Melhor Canção Original com “Falling Slowly” e se tornou um dos filmes independentes mais importantes dos anos 2000. Mas a trajetória do músico irlandês começou muito antes daquele violão nas ruas de Dublin.

Hansard, que morreu nesta terça-feira (29), aos 56 anos, já era um artista respeitado em seu país quando aceitou protagonizar um filme de orçamento modesto que mudaria sua vida para sempre. Curiosamente, o reconhecimento internacional nunca alterou a maneira como enxergava sua própria carreira. Antes de ser ator, depois do Oscar e até seus últimos anos, ele continuou sendo, acima de tudo, um músico.

Um nome importante da música irlandesa

Nascido em Dublin em 21 de abril de 1970, Glen Hansard cresceu cercado pela música popular irlandesa e começou a tocar violão ainda muito jovem. Em 1990, fundou o The Frames, banda que ajudou a consolidar a cena alternativa da Irlanda nas décadas seguintes.

Embora o grupo nunca tenha alcançado o sucesso mundial de nomes como U2 ou The Cranberries, conquistou uma legião de fãs graças às apresentações ao vivo e às composições escritas por Hansard. Suas músicas falavam sobre relacionamentos, inseguranças, amadurecimento e esperança com uma honestidade que se tornaria sua principal marca registrada.

Muito antes de Hollywood conhecê-lo, Glen Hansard já era visto como um dos compositores mais respeitados de sua geração na Irlanda.

Quando a própria vida virou cinema

A ligação entre Hansard e “Once” aconteceu de forma bastante natural. O diretor John Carney, que também era músico antes de seguir carreira no cinema, conhecia Hansard da cena artística de Dublin. Quando decidiu escrever uma história sobre um cantor de rua tentando sobreviver através da música, não fazia sentido procurar um ator famoso. A pessoa ideal já existia.

Glen Hansard não precisou aprender como era viver de apresentações em bares, ruas ou pequenos palcos. Aquela era justamente sua realidade. Essa escolha acabou dando ao filme uma autenticidade rara, fazendo com que muitas cenas parecessem mais um registro documental do que uma obra de ficção.

Ao seu lado estava a cantora e pianista Markéta Irglová, cuja parceria musical acabou se transformando também em uma das grandes forças da narrativa.

Lançado em 2007 com um orçamento estimado em apenas US$ 150 mil, “Once – Apenas Uma Vez” surpreendeu crítica e público ao contar uma história simples sobre duas pessoas que encontram na música uma maneira de expressar sentimentos que jamais conseguem colocar em palavras.

Sem grandes reviravoltas ou fórmulas românticas tradicionais, o filme conquistou espectadores justamente por transmitir a sensação de que tudo aquilo poderia acontecer com qualquer pessoa.

A canção que conquistou Hollywood

Se “Once” emocionava pelo conjunto da obra, foi “Falling Slowly” que levou o filme ao mundo inteiro. Composta por Glen Hansard e Markéta Irglová, a canção rapidamente se tornou parte importantíssima da produção e acabou vencendo o Oscar de Melhor Canção Original em 2008, superando trilhas de produções muito maiores como as canções de “Encantada” (2007) e de o “Som Do Coração (2007), estrelado pelo majestoso Robin Willians e o eterno Good Doctor, Freddie Highmore.

A cerimônia ainda entrou para a história por outro motivo. Depois que Hansard fez seu discurso, Markéta Irglová foi interrompida pela produção antes de concluir suas palavras. A reação negativa da plateia levou a Academia a convidá-la de volta ao palco minutos depois para finalizar seu agradecimento, criando um dos momentos mais lembrados daquela edição do Oscar.

Para Hansard, no entanto, a estatueta nunca representou um ponto de chegada.

A vida depois de ‘Once – Apenas Uma Vez’

Ao contrário do que costuma acontecer com artistas que recebem reconhecimento internacional repentino, Glen Hansard nunca tentou construir uma carreira em Hollywood.

Seu caminho continuou sendo a música. Nos anos seguintes, lançou discos solo, retomou projetos com o The Frames, manteve a parceria com Markéta Irglová e realizou turnês por diversos países. Além da trilha sonora de “Once”, eles gravaram mais três discos ao longo de sua existência. São eles:

  • The Swell Season (2006): O projeto inicial autointitulado que deu origem à parceria da dupla.
  • Strict Joy (2009): O segundo álbum oficial de estúdio, que reflete o amadurecimento musical e pessoal dos dois.
  • Forward (2025): O trabalho mais recente gravado na Islândia, marcando o retorno definitivo do duo após 16 anos.

Hansard também colaborou com artistas de diferentes estilos e participou de projetos beneficentes ligados à música e à educação. Em 2012, o filme foi adaptado para os palcos da Broadway e conquistou oito prêmios Tony, incluindo o de Melhor Musical. Era a confirmação de que aquela história simples continuava emocionando novas gerações muito além das salas de cinema.

Em 2023, o Brasil também ganhou a sua versão de “Once – O Musical”. Na pele de Glen, está o ator, músico e compositor Lucas Lima e a atriz, cantora, dançarina e dubladora Bruna Guerin, como Markéta Irglová. O musical ganhou oito categorias do prêmio Bibi Ferreira, incluindo a de melhor musical, ator revelação e melhor atriz em 2023.

Muito mais do que um vencedor do Oscar

É natural que Glen Hansard seja lembrado por “Once – Apenas Uma Vez” ou pela música “Falling Slowly”. Afinal, foi através deles que milhões de pessoas conheceram seu trabalho. Mas reduzir sua trajetória a um único prêmio seria injusto.

Hansard construiu uma carreira de mais de quatro décadas baseada naquilo que sempre acreditou: escrever músicas honestas, sem excessos e sem tentar impressionar o público com fórmulas prontas. Essa postura explica por que o longa continua funcionando quase vinte anos depois.

O filme nunca dependeu de efeitos especiais, de grandes discursos ou de um romance idealizado. Sua força estava justamente na sensação de verdade. Os personagens pareciam pessoas comuns porque eram interpretados por artistas que conheciam profundamente aquele universo. Poucos filmes conseguem transformar a simplicidade em sua maior qualidade.

“Once – Apenas Uma Vez” fez isso!

E Glen Hansard foi o principal responsável (mas não o único), por fazer isso acontecer.

O legado de Glen Hansard

A notícia da morte de Glen Hansard certamente fará muita gente voltar a ouvir “Falling Slowly” ou revisitar “Once – Apenas Uma Vez”. Talvez essa seja a melhor forma de entender sua importância.

Mais do que um músico premiado ou um ator que venceu um Oscar, Hansard mostrou que autenticidade ainda é capaz de atravessar gerações. Sua obra nunca buscou grandiosidade. Preferiu falar de encontros, despedidas, sonhos e recomeços com delicadeza, permitindo que o público encontrasse um pouco de si em cada canção.

Quase vinte anos depois de “Once”, essa continua sendo sua maior herança.

Não apenas para a música ou para o cinema, mas para todos aqueles que acreditam que algumas histórias não precisam fazer muito barulho para permanecer vivas.

“Once – Apenas Uma Vez” está disponível apenas para compras ou aluguel no Prime Vídeo, YouTube ou Apple TV.

0 0 votos
Classificação do artigo
Inscrever-se
Notificar de
guest

0 Comentários
mais antigos
mais recentes Mais votado