As empresas do entretenimento ou que fomentam o entretenimento estão ganhando muito dinheiro, mas muito dinheiro mesmo. A maioria dos responsáveis por isso são nerds, gamers, geeks e uma pequena parcela que não se enquadram nesse nicho de mercado.
Vou me referir a esse nicho como nerd pra abranger o todo, e pra comentar um pouco sobre como eu percebo os últimos movimentos das empresas. Além disso, falar sobre o comportamento de consumo que está ligeiramente se modificando pra encarar as mudanças desse mercado.
Segundo um estudo da Brandar Consulting, o mercado nerd faturou em 2021 U$399 bilhões no mundo inteirinho. Tudo isso só com venda de produtos e serviços. No Brasil, o faturamento com produtos geek (no mesmo ano) foi de R$ 21 bilhões, segundo a Associação Brasileira de Licenciamento de Marcas e Personagens (Abral).
Nem precisei trazer dados mais precisos que podem apontar ainda mais como esse mercado é lucrativo e que esse lucro aumenta muito a cada ano. Mas pra ser assim, ele precisa de gente como eu e você, que costumamos gastar 40% a mais do que a média nacional, segundo o levantamento da Rakuten Digital Commerce, realizado entre 2018 e 2019. O mercado é interessante, mas o comportamento das empresas está mudando drasticamente.
O público nerd e gamer adora se dizer exigente. Mas será que é mesmo?
No início do mês de outubro, a Microsoft anunciou o aumento nos valores cobrados pelos planos oferecidos no Game Pass. Acostumados com um pequeno percentual de aumento para serviços desse tipo, algo como um ajuste por conta da inflação ou coisa do tipo, a bomba pegou a galera de surpresa e explodiu no bolso de geral. O aumento do plano Ultimate (o mais completo), por exemplo, foi de 99,8%, passou de R$ 59,90 para R$ 119,90.
Foi um aumento simples? Não, muito pelo contrário. Foi algo robusto e que foge da realidade de muitos gamers que investem numa assinatura do Game Pass, principalmente por conta dos jogos Day One (títulos que ficam disponíveis também na plataforma no mesmo dia em que estão disponíveis para compra individual nas lojas).
A biblioteca do serviço é vasta, tem jogo pra todo mundo, mas quem assinava esse plano especificamente, tinha como objetivo poder jogar os lançamentos no dia do seu lançamento oficial, era isso que justificava o investimento. Com esse aumento, que passará a valer a partir de novembro no Brasil, ficará inviável para a maioria e deixará de ser um “custo-benefício”, que diga-se de passagem, já não era tão barato assim.
O resultado foi o cancelamento em massa e milhares de relatos de insatisfação nas redes sociais. Algo que não se via há muito, mas muito tempo mesmo.
Saindo do campo das notícias mais quentes do universo gamer, vou te jogar em algo que aconteceu no fim de semana do Dia das Crianças em São Paulo. Há mais de 10 anos acontece a maior feira de games da América Latina na cidade, a Brasil Game Show. O evento é realizado sempre no mês de outubro pra casar estrategicamente com o Dia das Crianças. Afinal de contas, comercial + comercial dá um match dos bons.
Esse ano rolou a 16ª edição, num lugar menor e sem os principais estúdios, marcas e plataformas (que já estiveram no evento em edições anteriores) presentes como Xbox, Playstation, YouTube, Twitch, Redragon etc.
A principal atração foi a vinda do Hideo Kojima (Metal Gear Solid/Death Stranding), que despertou o interesse da galera no evento, e na área dos estúdios somente a Nintendo marcou presença. O ingresso mais barato (considerando apenas a inteira) estava no valor de R$ 308,00, e o mais caro (que dava acesso a todos os dias do evento) saía por R$ 1.598,00.
É barato? Não! E piora um pouco mais quando você coloca os gastos com alimentação, estadia (se você vir de fora da cidade) e transporte. Estou falando aqui só pra chegar e entrar no evento, não entrou na discussão o que você vai fazer lá dentro.
Espera-se que com esse valor de entrada, você consiga ter uma boa experiência, consiga curtir o evento e participar de pelo menos algumas ativações de marca. Mas geralmente não é isso o que acontece e o que você investe só pra entrar não se traduz na sensação de um valor bem gasto ou bem investido.
E não foi o que aconteceu com a BGS esse ano. Além de tudo que já disse acima, houve problema de superlotação, de organização, de organização para o meet and greet com a principal atração do evento, o Kojima, falta de comunicação com o público e de informações no geral, além do principal: os jogos. O principal que se espera numa feira de games é que tenha o quê? Games. Isso tem que ser o motor sempre e não um adorno que você coloca no console central, já que estou usando uma analogia de carro.
Para não deixar você sem contexto, vou linkar aqui um vídeo que ilustra bem como foi a BGS em 2025. Mas que o problema não é de hoje.
O problema mora aqui! O lugar onde o seu dinheiro não é valorizado. E o motivo é que há alguns anos o nicho nerd, geek e gamer vem sofrendo uma exploração de consumo das boas. Perceberam (há mais de uma década) que existe um grande poder aquisitivo ou uma valorização por pagar o preço que pedem pelas coisas ou serviços por conta do nerd ser considerado pelo mercado como um público exigente.
Se valendo disso, as empresas, marcas, estúdios, distribuidoras, lojas e qualquer outra coisa que couber aqui, tiver um CNPJ e atuar necessariamente nesse mercado, começaram a oferecer qualquer coisa pra gente (sim, eu me incluo nessa) e nós fomos comprando sem nem pensar duas vezes.
“Opa, é licensiado? Mim dê papai!”
Ok, você pode estar pensando agora que você gasta muito bem o seu dinheiro com nerdices, escolhe muito bem tudo que vai comprar e se protege (ou nem liga) de empresas predatórias que só visam o seu bolso e não a qualidade do serviço prestado ou do produto vendido.
Eu entendo isso muito bem, mas esse pensamento deixa de fazer sentido quando um serviço como o Game Pass, por exemplo, passa a te cobrar o dobro pelo mesmo tipo de serviço que ele já te oferecia e você continua ativo na plataforma. Ou quando você passa por uma experiência ruim num evento como a BGS, faz relato no Instagram ou Tiktok contando tudo de ruim ou de perrengue que passou (como muitos fizeram esse ano), e no próximo ano não vê a hora de chegar outubro pra carimbar seu passaporte gamer novamente.
É aí que elas (empresas) acham que vale qualquer coisa. Acreditam ainda mais que para um público muito exigente que não sabe o que quer ou do que se trata essa “exigência” toda, vale qualquer coisa.
Afinal de contas, se você não sabe o que quer ou o que busca, de fato, vale qualquer coisa. E é assim que se ganha muito dinheiro oferecendo pouco, maquiando, criando apelos e apelos que nunca se traduzem na realidade ou fazendo uma única pessoa como a presença do grande Kojima, por exemplo, representar o “preço” do que você investiu pra estar na BSG.
O mesmo acontece com quem continua acreditando que manter a assinatura do Game Pass é um bom negócio. Logo você que sempre se esforçou pra comprar games e produtos originais da Microsoft, que trabalhou com muito esforço e suor pra ter um Xbox, que acreditou que a Microsoft estava revolucionando e pensando na expansão e na melhora da comunidade gamer no planeta.
Mas não, o que se viu foi ela te chamando de trouxa e achando que se você paga X você com certeza pagará XX porque você é exigente, gosta de um serviço bom e de qualidade. Sem qualquer sombra de dúvidas, eles oferecem isso muito bem. Como você vai continuar jogando seus jogos se não for por meio do Game Pass, hein? Na cabeça deles eu imagino muito que seja assim. Mas muito mesmo!
E agora? Você vai continuar acreditando que faz parte de um público exigente e essas empresas pensam em você? Ou só no seu bolso?
Aqui, você pode até dizer que a base do capitalismo é assim: o lucro acima de tudo. Ok. Isso é uma ótima discussão, mas não é o ponto aqui. O ponto é: você realmente se valer do que sempre te chamaram pra não aceitar qualquer coisa. Te cobrou muito e te entregou pouco, reclame, boicote, não use, não vá, não fale sobre, cancele, não compre!
Somente quando começar a doer no bolso deles, eles vão passar a pensar que de fato se trata de um público exigente e não bobo. E digo mais, é a partir desse movimento que eles vão começar a entender que mais coisas estão atreladas ao valor, mas não ao preço. Ser exigente não é gastar mais, é cobrar mais pra garantir que seu investimento seja valorizado.





