LGBTQ: Nós Não Somos Descartáveis

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Há cerca de um ano, eu escrevi aqui para o Proibido Ler um texto sobre A Desvalorização das Mulheres nos Quadrinhos. Hoje, venho escrever sobre um problema parecido, novamente envolvendo a desvalorização de mulheres, desta vez na televisão.

Estamos 80º dia de 2016 e, até o presente momento, 8 personagens femininas não-heterossexuais foram assassinadas no horário nobre televisivo. Em outras palavras: a cada 10 dias, uma personagem feminina homossexual morre na TV. Essa estatística foi o que me assustou e motivou a escrever.  

Antes de começar, gostaria de trazer um simples ‘playbook’ que a crítica Maureen Ryan incluiu no maravilhoso texto que escreveu para a Variety, sobre como se comportar acerca das promoções e divulgações de sua série na era das redes sociais:

  • Não engane os fãs e nem crie falsas expectativas.
  • Não promova sua série com uma suposta narrativa ideal e então deixe os outros na mão com esse mesmo elemento.
  • Quando as coisas derem errado, não finja que nada aconteceu.  
  • Entenda que hoje em dia, divulgação é uma via de mão dupla; os mesmo fãs que apoiaram sua série e irão promovê-la e elogiá-la, podem facilmente abandoná-la ao se decepcionarem ou sentirem que foram manipulados.

Tendo isso em mente, podemos começar:

SPOILERS DA 3ª TEMPORADA – THE 100

Se você é ativo no twitter, deve ter percebido que na última semana, hashtags como “#LGBTDeserveBetter”, “MINORITIES ARE NOT DISPOSABLE” e a mais específica “#LexaDeservedBetter” se mantiveram no topo dos TTs. A última é referente à personagem Lexa, interpretada pela atriz Alycia Debnam-Carey, na série pós-apocalíptica The 100 (The CW). Lexa era a líder dos povos que se criaram na Terra depois de um incidente nuclear. Ela era uma guerreira habilidosa e em vários momentos da série nós presenciamos suas batalhas. Era de se esperar que uma personagem assim morreria no esplendor de uma batalha épica, mas essa honra não lhe foi dada. Em vez disso, a personagem morreu de forma cruel, após ser alvejada acidentalmente na barriga pelo personagem Titus, tendo sangrado até a morte em alguns minutos de cena. É válido ressaltar que sua morte aconteceu poucos minutos (de exibição do episódio) após ela concretizar seu amor pela protagonista Clarke (Eliza Taylor) em uma belíssima cena de sexo. Um relacionamento começara a ser construído na temporada anterior finalmente tinha sido selado pelo amor… E o roteiro levou à tragédia.

LGBTQ: Nós Não Somos Descartáveis

Ok, mas uma Comandante tão importante como ela não poderia simplesmente morrer em vão, certo? Quais as consequências da sua morte? Até o momento, nenhuma, além do “choque” para os fãs e para a protagonista que perdeu sua amada.

“Personagens morrem o tempo todo nessas séries, você não pode exigir tratamento especial apenas porque é LGBTQ! Isso não é igualdade!” – Você está certo. Eles morrem. Mas existe uma enorme diferença. Sua morte afeta cada outro personagem e a narrativa da história dependendo de sua importância. Nesse caso, não assistimos ainda as consequências. As coisas podem mudar e nós sabemos disso. Esse ainda não é o ponto.

Jason Rothenberg, criador da série, vinha sendo bastante aclamado pela representação Queer (termo guarda-chuva referente a orientações sexuais e identificações de gênero diferente das “padrões”) em sua série. Ele vinha se apoiando nessa promoção dos fãs que encontraram em Lexa e Clarke uma representatividade que não vemos com frequência na TV. Ele divulgava imagens das duas atrizes nos bastidores e incentivava o público a se envolver com elas. Lexa tornou-se então uma personagem amada por quase todo o fandom de The 100.

Foto postada por Rothenberg em seu twitter durante as gravações da season finale.

Foto postada por Rothenberg em seu twitter durante as gravações da season finale.

Ano passado, Alycia Debnam-Carey foi escalada para ser uma das personagens principais da série “Fear the Walking Dead”, e com isso, a sua disponibilidade diminuiu. Algo precisava ser feito com a personagem, caso a atriz não pudesse mais atuar na produção. Sabemos agora que Rothenberg escolheu o caminho mais fácil e cruel. Não sendo isso o bastante, meses após a gravação da morte da personagem, Debnam-Carey foi vista gravando a season finale da 3ª temporada. Acontece que as gravações de The 100 são sempre muito sigilosas, mas nesse dia, curiosamente, foi possível ver tudo o que estava sendo gravado. Com a exibição da morte da personagem, ficou a dúvida: o que Lexa faz na season finale? Se isso não é um plano maléfico para a manipulação de uma minoria, eu não sei o que mais é. Não diga “é a mídia”, porque não é. Rothenberg tinha outras opções.

(arte por http://alyciaswink.tumblr.com/post/140933689058/lgbt-fans-deserve-better-lexa-deserved-better)

A partir de então, os fãs se mobilizaram em um protesto e também um pedido de ajuda. Não dá mais para a comunidade LGBTQ ser descartada desse jeito. Estamos falando aqui de um grupo que até hoje é marginalizado, vítima de inúmeras violências e agora sofre nas mãos de criadores de conteúdo que querem brincar com sua ânsia por representatividade. 

Assassinar personagens LGBTQ sem motivos significativos para a trama não é algo que começou hoje em dia.

Em 7 de maio de 2007, a atriz Amber Benson tinha seu nome colocado na abertura de “Buffy, the Vampire Slayer” pela primeira vez desde que sua personagem Tara Maclay apareceu na série. Foi um momento de esperança para os fãs. Teríamos mais Tara. Ela iria se reconciliar com sua amada Willow Rosenberg e tudo estaria bem de novo (até o próximo fim do mundo). É um episódio com lindas cenas entre as mulheres, várias cenas de amor. Tara e Willow finalmente estão bem. Até que no último momento do episódio, por meio de uma bala perdida (e fisicamente inexplicável), Tara morre nos braços de Willow. Bala perdida. Finalmente concretizar seu amor com a mulher que ama e morrer “acidentalmente”. Soa familiar?

O que começou como uma brincadeira na comunidade LGBTQ, tornou-se uma indignação. Várias pessoas começaram a lembrar de personagens femininas não-heterossexuais que foram assassinadas em situações parecidas, e isso trouxe à memória de todo mundo o trope televisivo “Bury Your Gays” (Enterre Seus Gays). Esse trope se refere não somente ao esquecimento de personagens LGBTQ por meio da morte, mas também do descaso, como quando o público nunca chega a saber o que aconteceu com aquele casal gay depois do colegial, enquanto aprende o futuro de todos os outros personagens da história. Em resumo, gays raramente ganham um final feliz. E se ganham, suas histórias não são contadas.

No início do texto informei um número assustador de mortes de personagens femininas LGBTQ já transmitidas. Segundo a lista feita por Autostraddle mostrando todas as mulheres queers que morreram na televisão mundial e a causa de suas mortes, 24 personagens morreram apenas em 2015 – a maioria sem um impacto real na história e, quando isso difere, é para glorificar/salvar um protagonista hetero. 

SPOILER DA 6ª TEMPORADA – THE WALKING DEAD

A última personagem a ser adicionada nessa lista foi a Doutora Denise Cloyd, da série The Walking Dead (Fox), assassinada por uma flecha perdida (seria uma engraçada variação do trope, se não fosse extremamente trágico) no episódio “Twice as Far”, que foi ao ar no dia 20/03/2016. A personagem estava se relacionando amorosamente com uma personagem feminina da história que, por sua vez, já teve uma namorada assassinada na série. Ironicamente, é apenas neste episódio que os escritores se preocupam em dar um pouco mais de importância para Denise. Ela faz observações extremamente inteligentes, mesmo que Daryl e Rosita a tratem apenas como um fardo, como se ela devesse apenas se manter trancada e longe do mundo. Ela salvou a vida de seus amigos, das pessoas que eles chamam de família e mesmo assim eles não demonstram o mínimo respeito por ela. Então, quando ela finalmente resolve desabafar e o público tem a chance de enxergar um lado desconhecido da personagem, escutando seus pensamentos mais sinceros se transformarem em palavras – no que diz respeito a sua namorada, mas também em relação a Daryl e Rosita – acontece a tragédia. E o responsável por sua morte ainda deixa claro que não estava sequer mirando nela, sua morte foi completamente por acaso. Justo nesse momento. O que aprendemos? Qual a lição? Por que Denise precisava morrer? E a pergunta que não quer calar, acima de tudo: por que Denise morreu da forma exata que Abraham morre nas HQs, mas Abraham continua vivo?

LGBTQ: Nós Não Somos Descartáveis

É uma visão muito mórbida a que apresento aqui, e também muito pessimista, mas é impossível sentir-se bem enquanto vê isso acontecer repetidamente.

“Mas isso é só televisão! Não é real!” – mas essas mesmas pessoas se sentiriam horríveis se de repente todos os personagens brancos héteros e homens fossem assassinados em todas as produções. É o famoso caso de se colocar no lugar dos outros.  

As mulheres ainda não são, em sua maioria, representadas com realidade na televisão. Em muitos casos, elas ainda são apenas objetos usados como interesse romântico do protagonista masculino ou alguém que pode, facilmente, ser trocada por outra mulher e/ou personagem. Levando em conta isso, diminuímos para um grupo ainda menor e mais marginalizado. A comunidade LGBTQ+ existe. Em quantidade. Por que então não somos representados na TV? Por que, comparadas a 147 personagens mortas, apenas 29 mulheres não-heterossexuais tiveram um final feliz na televisão?

LGBTQ: Nós Não Somos Descartáveis

Devemos nos calar e aceitar como somos representadas agora? Somos descartáveis? Somos apenas fetiches de escritores hetero? Onde estão as mulheres queer de outras etnias? As mulheres trans? Por que sempre morremos no final? Por que não podemos ter um final feliz?  

Não vou me fazer de cega e dizer que não há casos em que a representatividade acontece de forma positiva e temos alguns (poucos) finais felizes na TV. E somos gratas por isso. Mas nós queremos mais! Nós queremos nossas histórias contadas com valor e queremos a esperança de que, um dia, seremos felizes também.

Então, senhor Jason Rothenberg e demais criadores de conteúdo televisivo: nós pedimos respeito! Nós merecemos mais do que isso. Peço que os senhores se informem sobre a quantidade de suicídios por parte de jovens LGBTQs anualmente. Sobre a taxa de depressão. Essas pessoas precisam saber que nós podemos, sim, ter nosso final feliz. Por isso, antes de tomar uma decisão como essa, e antes de brincar com os sentimentos de uma minoria fragilizada, pensem em como isso vai nos afetar – como uma comunidade e individualmente.

LGBTQ: Nós Não Somos Descartáveis

Para os leitores LGBTQs, eu deixo aqui meus votos de esperança. Vamos continuar lutando pelo nosso lugar e conquistaremos nosso final feliz. Stay queer!

 Veja também: A desvalorização das mulheres nos quadrinhos