Orkútil?

Com chances de 99,8%, você que agora está lendo este texto, tem ou já teve um profile no Orkut. A popularização desta rede social no Brasil deu-se de uma forma tão exponencial quanto à multiplicação de ácaros no seu travesseiro. Indiscutivelmente a internet é um enorme facilitador na comunicação inter-racial. Quem nunca se gabou em escrever palavras ao léu com uma desconhecida garota glamorosa pelo MSN? E qual seria a razão da expansão do Orkut em terras brasileiras?

A inclusão digital e a necessidade de ser alguém no mundo virtual fizeram do Orkut um estouro. Hoje, você é capaz de encontrar um acreano buscando-o pelo número de RG em quaisquer pesquisas, ou então, reencontrará aquele amigo de décadas atrás apenas clicando em “amigos em comum” quando se está na página do perfil de sua esposa. Verdade seja dita: o brasileiro é fuxiqueiro e muito transponível. O que bem difere de outras redes como o Facebook, já composto por um público mais discreto.

Brasileiro tem a mania de expor virtualmente (seja lá como for) as cuecas no varal, o cobertor dos ursinhos carinhosos, suas posições preferidas na cama e muitos outros, facilitando ainda mais a fofocaiada e a vergonha alheia. É tão fácil encontrar uma foto bizarra, daquelas em que neguinho está tomando banho de balde no quintal de casa, em qualquer perfil por ai. Dessa vez, desconsideremos o “quem sou eu?” escrito de uma forma ilegível e de impossível interpretação, quando não apresentado por uma letra de música que diz resumir o indivíduo em palavras. “Tô ficando atoladinha…” – imagine definições piores que essa.

Usuário do Orkut tem dessas de entrar em milhares de comunidades, não participar efetivamente de nenhuma delas e, muitas vezes, nem saber ao certo o assunto que é tratado em seu conteúdo. Tópicos são poluídos com brincadeirinhas “beija ou não beija?” até em comunidades intituladas “In God We Trust!”. E obviamente uma pessoa em sã consciência imagina a infinita ligação entre o assunto e tema.

A demonstração de carinho e afeto ainda é bem melhor comprovada nesta forma de sociabilização. Com dezenas de recados seguidos ou depoimentos que ultrapassam os versos de Drummond em grau de emoção, um indivíduo é capaz de declarar-se sem fazer cerimônias nem economia de “eu te amo”. Algo frequente é a criação de um perfil para a moça, outro perfil para o moçoilo e ainda um terceiro perfil para ambos compartilharem, fazendo do romance uma vitrine; podemos comparar com a velha história da toalha: essa é a minha, aquela é a sua e essa é a nossa.

Lembro que rolavam vários scripts que aumentavam e diminuíam o número de recados de certo indivíduo. Este ainda ficava muito frustrado ao ver que o número aparente era de -1923 recados, mesmo sabendo que nenhuma frase sequer foi apagada de seu scrapbook. Transcorre em minha mente a lembrança de um spam histórico feito no perfil da moça que subiu no palco no último show do U2 no Brasil. Lembram-se? Hoje, ao menos, há toda uma política de privacidade, uma interação com vídeos do YouTube, uma infinidade de aplicativos, a criação de um álbum imenso e a sorte do dia. Que Deus perdoe o criador das frases que aparecem naquele espaço que chamam de sorte! Ah… quase ia me esquecendo dos bonequinhos em animação simulando cenas que você não veria nem em filme. Basta declarar um ato e logo o BuddyPoke! obedece: Zuleide corta o saco de Manuel.”

Porém há o outro lado da moeda, onde o acesso é usado de modo ponderado. O Orkut é um nobre facilitador de convites para festas, encontro em baladas e fofocas de plantão da vida real, é também um ótimo acervo para links, assuntos filosóficos e babaquices que nem Ari Toledo e Tom Cavalcante seriam capazes de te fazer rir tão quanto. Quero dizer que tem conteúdo para quem o busca, mas sejamos sinceros de que a dominação é do lado inclusão digital. Fato é que muitos sites/blogs vivem da exibição de gafes e sem-vergonhices de grande parte dos membros. Claro que estimulam (e muito) o meu bom humor.

E para você, quão útil é o Orkut?

Só add com scrap.

update: este texto foi um dos Links da Semana (36) no GordoNerd.com


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