Ler devia ser proibido

Acordei com vontade de escrever – não que eu estivesse dormindo, foi só pra ilustrar bem a coisa. Às vezes isso acontece, é preguiça bloqueio mental de qualquer um que escreve ou faz qualquer coisa que o valha. Até teorizei sobre um possível curso via net pra desbloqueio escrivão. Mas creio eu que não encontraria nada em mil páginas do Google.

Ontem ouvi isso: “Nossa, queria ser assim. Mas eu até que sou apaixonado pela minha vida, pelas baladas”, coisa que me deixou injuriada, mas depois de alguns segundos as coisas voltaram ao normal. Então, parei pra pensar nessas vidas diferentes da minha. Balada, Counter Strike, planilhas, nerds, coreanos, cães, guaranás, esmaltes, patins, árvores, impressoras, fios, colégios, faculdades blábláblá Whiskas Sachê blábláblá (…), enfim, essa coisa toda diferente da minha; e cheguei a conclusão alguma.

Até que tentei entender o motivo, razão ou circunstância que faria um cara de vinte e três anos ficar na lan-house jogando um jogo sem sentido – que não seja proliferar a violência e uma série de conflitos psicológicos no indivíduo, até o mesmo começar a acreditar que é o terrorista ou o policial e sair por aí assaltando ou pagando de justiceiro – enquanto a mãe em casa lavando a roupa, fazendo a comida e assistindo a novela das oito com os três irmãos mais novos (o quarto irmão de cima para baixo tem vinte e um anos e provavelmente está em algum barzinho com os amigos pitboys). Infelizmente eu não consegui entender o que faz um cara fazer isso.

Também não entendo o por quê de ter tanta gente no mundo passando fome enquanto outros “dão pipocas aos macacos no jardim zoológico” aos domingos. Se eu não entendo a razão existente em alegrar os ares
esbranquiçando o nariz, quiçá o motivo de tanto desperdício e tanto jovem conformado com o salário mínimo que recebe mensalmente – mão-de-obra barata, “eles aceitam, a gente paga”.

Hipocrisia ou não, aceitar o diferenciado é uma tarefa árdua – não só para mim, mas também para qualquer adulto ou jovem idoso de sessenta e três anos. Talvez algumas coisas sejam um tanto quanto corriqueiras vistas de outros olhos. Talvez o desnecessário esteja aí: enquanto o cara fica o dia inteiro no Orkut, tem milhares de coisas acontecendo e ele nem se deu conta disso.

Repare na árvore que cai, no copo que enche, no olho azul, no macaco na jaula – menos Doritos, cabelos verdes, micareta aos Domingos. Dê mais atenção ao cão sem dono, ao hippie na rua, ao cérebro inativo – menos liquidação, caça-níqueis, catálogo da Avon.

A mudança parte de cada um. A mudança deve, no mínimo, ser pouco barateada e custeada por comodismo. Pensar com o cérebro e inutilizar o descartável (ler realmente devia ser proibido).


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