Divertida Mente (2015)

A complexidade e a sutileza em traduzir as emoções

Toda vez que eu tenho que escrever sobre um filme, tenho dois caminhos disponíveis para percorrer: o da direita, quando o filme é ruim, e o da esquerda, quando o filme é muito bom. Se o filme for ruim, percorro um caminho árduo para não ser ácido, ríspido ou burocrático em demasia em minha crítica. Se for bom, percorro um longo caminho para não parecer coxinha, não puxar o saco do que acabei de assistir e tentar descrever com as palavras certas tudo que achei fantástico.

O caminho que vou percorrer com Divertida Mente, novo filme da Pixar dirigido e roteirizado por Pete Docter (o mesmo que encabeçou os sucessos Monstros S/A e Up-Altas Aventuras), é o da esquerda. Ou seja, vai ser difícil descrever o que senti durante os 94 minutos de filme com palavras certas e de forma simples.

Falar de emoções não é algo simples. Se já é difícil falar do que sentimos para nós mesmos, imagine tentar demonstrar o que se passa na cabeça de uma criança, como as emoções controlam a vida dela e como essas mesmas emoções traduzem nossas atitudes, pensamentos, ações e reações?

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O filme coloca o espectador dentro da mente de Riley em seus primeiros dias de vida. Nesses dias há apenas uma emoção (a que guiará Riley para o resto da vida, uma das mais importantes e por isso a primeira), a Alegria (dublada por Miá Mello). Ela será a comandante e fará o possível para tornar a vida de Riley 100% feliz. Mas não existe um ponto sem o seu contraponto, assim como o Flash, a Alegria também tem seu Flash Reverso, a Tristeza (dublada por Katiuscia Canoro). Esta por sua vez, chega momentos depois e a dualidade no poder se inicia. Alguns anos se passam e a garota vai crescendo e outras emoções vão aparecendo dentro da sala de controle em sua cabeça. Para completar o time de emoções, chegam os reforços Medo (dublado por Otaviano Costa), Raiva (dublado por Léo Jaime) e a Repulsa/Nojinho (dublada por Dani Calabresa). Alegria, Tristeza, Medo, Raiva e Repulsa são as cinco emoções que formam a base de qualquer ser humano.

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Riley vive uma vida muito feliz (graças a todos os esforços de Alegria) em uma cidade pacata no estado de Minnesota. Tudo parece perfeito e todos os dias, assim como numa grande empresa, as cinco emoções trabalham em equipe para transformar os dias de Riley nos melhores possíveis. Até que um dia, sem mais nem menos, seus pais se mudam de Minnesota para São Francisco. Eles vão viver numa cidade totalmente diferente e muito, mas muito maior do que a cidade em que a protagonista morava. Riley não entende muito bem o que está acontecendo, mas chega em sua nova casa regada de emoções, sentimentos e memórias boas cultivadas com tanto amor e cuidado pela Alegria. Tudo começa a desandar quando os problemas de seus pais passam a afetar a sua vida. De repente, Riley não tem mais toda a base que tinha em sua cidade natal, não tem amigos, não participa mais do time de Hóquei (seu esporte favorito) e terá que lidar com pessoas desconhecidas em uma nova escola. De quebra, o caminhão que fazia a mudança se perdeu e a garota e seus pais dormem acomodando-se de forma improvisada em uma nova casa fedorenta, pequena e nada confortável.

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Mesmo com tudo isso, Riley se mantém positiva, afinal, quem comanda todas as suas ações é extremamente competente no que faz, até que o primeiro dia de aula chega. Neste dia, cai a ficha para Riley quando ela conta em sua nova sala de aula como vivia em Minnesota. É a partir daí que a Alegria e a Tristeza são jogadas para os confins da mente de Riley, deixando a sala de controle no poder da Raiva, do Medo e da Repulsa.

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A missão da Alegria e da Tristeza é retornar à sala de comando no Quartel General e retomar o controle da vida de Riley, mas até isso acontecer, vão passar por caminhos tortuosos e também interessantes dentro da mente desta maravilhosa e amável garotinha. Desde o campo da imaginação até os seus maiores medos e pesadelos. Enquanto viajam com o objetivo de retomar o controle, Alegria e Tristeza estão sob a ameaça de cair no esquecimento e nunca mais fazerem parte da vida da amável Riley.

É com este plot que a Pixar mostra com sutileza e harmonia, como nós podemos fazer uma reflexão sobre como funcionam nossas emoções e também como lidamos com elas. É um filme que te transporta para um mundo que você mesmo não conhecia dentro de si, como se nós fossemos apenas marionetes e, em dado momento, determinada emoção ou um misto delas, assume o controle de tudo que fazemos. Acho que é isso que se chama “Vida”.

Divertida Mente dialoga com o público infantil e adulto ao mesmo tempo de forma jamais vista. De todas as animações da Pixar, desde a primeira que me cativou tanto, que foi Toy Story, até o momento que eu entrei na sala de cinema para assistir esta que vos escrevo, não tinha sentido nada parecido. Eu não entendi muito bem a maestria com que a metalinguagem foi usada e muito menos a forma como a ausência de alegria e de tristeza em uma garotinha de apenas 11 anos foi tratada.

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É bem peculiar o caminho que ela percorre enquanto a Tristeza e a Alegria estão em sua jornada para retornar à sala de controle. Você passa a lembrar de todos os momentos em que se viu em situações parecidas e como tudo foi caminhando até você voltar a sorrir. Antes de falar em quem contribuiu para que as duas voltassem, é interessante salientar a forma como a Raiva, o Medo e a Repulsa controlaram tudo, e como Riley reagia em sua vida real. São momentos em que ela explode por pouca coisa e se aborrece por tudo, ou quando o medo a faz esquecer das coisas que ela sempre fez muito bem, exatamente igual quando estamos fazendo algo que sabemos que somos capazes, mas esta emoção nos faz esquecer disso e nós desistimos de tudo, e nos transformamos numa enorme mistura de raiva e aborrecimento. Apesar de ruins, essas emoções cumprem o seu papel de forma exemplar, pois é exatamente daquele jeito que ambas são traduzidas no corpo de alguém.

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“E o caminho da felicidade ainda existe. É uma trilha estreita. É em meio a selva triste…” E assim como na música dos Racionais MC’s, Alegria e Tristeza seguem até encontrar um momento que possam voltar a figurar o semblante da pequena Riley.

A receita para isso nós quase sempre sabemos de cór e salteado. Por vezes nos resguardamos em nossos pais, nos amigos e nos momentos bons que vivemos juntos para trazer  à tona a alegria perdida, e aceitar que em muito dos casos a tristeza, o medo, a raiva e a repulsa são essenciais para entendermos o processo que levamos até chegar em momentos que vão ficar guardados nas nossas memórias a longo prazo e nas memórias bases da nossa  vida.

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Eu não vou citar os momentos engraçados, pois o filmes da Pixar são ótimos nisso também, então dispensa comentários. Aproveito para falar da mensagem que o longa me passou, e a que levei para casa quando saí do cinema. Agora parece que consigo compreender um pouco mais das minhas emoções, como elas me controlam e qual é o caminho que a alegria e a tristeza percorrem quando vão para um limbo e demoram a voltar.

Divertida Mente é um longa de animação que quebrou paradigmas e dificilmente qualquer produção a ser lançada chegará aos pés da complexidade e da sutileza que eu vi passar diante dos meus olhos dentro da sala de cinema.


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