Marvel, fascismo e a história besta da apolítica

Algumas vezes me surpreendo com a imbecilidade humana. São tantas vezes que vejo pessoas pregando coisas que as transformam em vítimas no futuro, além de erros dos mais variados, mas nada me irrita mais que a história de imparcialidade ou que um produto cultural não pode conter um comentário político.

Os seres humanos são políticos! Todas nossas escolhas dependem delas! O último assunto que me tirou do prumo foi a Marvel dizer para o vencedor do Pulitzer Art Spiegelman, tirar um comentário do livro que está escrevendo sobre a casa das ideias, onde critica o atual presidente dos Estados Unidos por julgar que a editora era apolítica. Um erro crasso para uma editora que tem como principio levantar a bandeira contra o fascismo.

As editoras de quadrinhos nos Estados Unidos foram criadas por judeus. Os maiores personagens da DC e da Marvel são criações de judeus. Se você parar para analisar, são imigrantes que vieram em busca de um lugar seguro para morar e ter segurança para trabalhar. Pessoas que foram perseguidas durante toda a segunda guerra mundial em um mundo cheio de preconceitos, ódio e mortes.

Eram pessoas imigrando para qualquer lugar onde pudessem viver sem ser discriminadas. Era esse o cenário que tínhamos e foi nesse momento que nasceu o Superman das mãos de Jerry Siegel e Joe Shuster. Um personagem que lutava pela classe trabalhadora, defendia a população de corruptos e grandes empresários exploradores.

Marvel, fascismo e a história besta da apolítica

Superman da Era de Prata

Se você para analisar o nascimento do Superman, percebe que ele é uma criação que fala muito de política. Um extraterrestre que aprendeu que a liberdade é importante e que o bem e a esperança devem sempre vencer o ódio. Nesse mesmo formato vemos o nascimento de Capitão América alguns anos depois, esse criado também por mais judeu Jack Kirby e com a parceria de Joe Simon.

A capa da edição número um do Capitão América tem o personagem dando um soco na cara de Adolf Hitler, uma das artes mais icônicas que políticas dos quadrinhos. Esse último, o principal personagem da Marvel, o bastião da liberdade americana e o maior herói da editora.

Marvel, fascismo e a história besta da apolítica

Capitão América #1

O que me surpreende nessa história da Marvel com Art Spiegelman, é que a Marvel NUNCA foi apolítica. Desde quando seus nome era Atlas, ela nunca se privou de fazer comentários políticos sobre o mundo. Ela sempre trouxe de alguma forma uma leitura ampla sobre o que víamos através de nossas janelas.

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Quando Stan Lee passa a ser editor-chefe da Casa das Ideias, essa é seu principal chamariz. Fazer com que as pessoas se identificassem com os personagens da editora. Quadrinhos de super-heróis sempre falaram de política e sempre vão falar, porque é intrínseco no ser humano misturar sua visão de mundo em tudo que faz. Seja na conversa depois do futebol até no seu trabalho diário negociando com clientes. Tudo no mundo gira em torno de política e não existe NADA apolítico.

Dito tudo isso, o grande motivo da retaliação do escritor de “Maus”, um dos maiores relatos sobre segunda guerra mundial, é por conta do seguinte comentário:

“Hoje, o vilão mais malvado do Capitão América, o Caveira Vermelha, está vivo na tela e um Caveira Laranja assombra a América.”

Esse comentário foi feito em um livro que falava da Marvel Comics desde 1947, dedicado a era de ouro da editora, fazendo uma análise pontual ao que vinha acontecendo na atualidade. Uma amostra da grande diferença no que está acontecendo no planeta como um todo. O local que há 70 anos era um reduto de liberdade, hoje tem marchas pela supremacia branca, pessoas se dizendo nazistas nas ruas, uma guerra racial onde quem está sendo massacrados são os negros na periferia, campos de concentração para imigrantes. Sim, existe um “Caveira Laranja” no EUA, e Spiegelman faz uma perfeita alusão a como uma população está sendo corrompida pelo ódio.

Marvel, fascismo e a história besta da apolítica

Art Spiegelman autor de “Maus”

O autor recentemente falou em público sobre o assunto em um longo artigo escrito para o The Guardian. Lá, ele explica as motivações que levaram a fazer o tal comentário e também reforça que a decisão da Marvel Comics não teve nada de “apolítica”, pois o CEO da Marvel, Isaac “Ike” Perlmutter,  é amigo íntimo de Donald Trump, conselheiro do governo e um dos maiores doadores de verba de campanha para o residente da Casa Branca. Uma decisão descabida e que não respeita em nada as pessoas que criaram a editora e que ajudaram a transformar ela em uma das marcas mais poderosas da cultura pop.

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Um leitor da Marvel que entenda minimamente o papel da editora para os quadrinhos e o quanto seu trabalho foi importante para conscientizar as pessoas durante seus 80 anos desde a fundação, sabe o quanto essa ideia de dizer que agora a empresa busca ser imparcial é uma grandiosa falácia. Martin Goodman, Jack Kirby e Stan Lee ficariam enojados com esse tipo de atitude.

A editora que recentemente abriu espaço para personagens de todas as etnias, colocou em sua capa ideias feministas, abriu caminho para personagens homossexuais, casamentos entre pessoas do mesmo sexo e, muitas vezes, se mostrou progressista. Não deveria de forma alguma deixar que essa sombra fascista começasse a pairar em cima de si. Um triste dia para os quadrinhos!


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