HQ do Dia

Captain America: Sam Wilson #1

Outubro abriu a nova temporada de títulos com números “1” na capa na Marvel. A editora apresentou sua nova linha de quadrinhos através de uma de suas típicas edições “Point-One” (e você já pode ler a resenha aqui) e agora começa a enxurrada de novos títulos da chamada iniciativa “All-New, All-Different” (que já foi analisada por alto aqui).

Puxando o “bonde” das novidades temos a estreia de Captain America: Sam Wilson, título sob responsabilidade do roteirista Nick Spencer (do mais recente volume da HQ do Homem-Formiga e da interessante “Avengers World”) com ilustrações de Daniel Acuna que trabalhou na segunda metade do último volume de “Uncanny Avengers”, escrito por Rick Remender.

Ao contrário do que se possa imaginar pela promoção em torno deste título, este já é o segundo volume de um gibi Marvel sob o selo Captain America protagonizado por Sam Wilson como o Sentinela da Liberdade (o primeiro escrito por Rick Remender e desenhado por Stuart Immonen foi resenhado aqui).

Aqui Spencer nos apresenta uma HQ do Dia Captain America Sam Wilson #1realidade bem diferente do que vimos no título anterior do Soldado Alado – O Capitão, agora atuando em conjunto com a casca-grossa, Misty Knight e Dennis Dunphy (o eterno “Demolição”), age independente do governo dos Estados Unidos, mas também sem apoio da S.H.I.E.L.D. Sem financiamento e atendendo diretamente à população necessitada sem intermédio de instituições, este Capitão ainda está aprendendo o caminho das pedras e tomando porrada de todos os lados ao tentar conciliar sua figura pública de símbolo Americano com suas posições e visões políticas pessoais.

O resultado é uma queda abrupta de popularidade do herói e um Capitão América desacreditado por parte da população e imprensa, na pindaíba tendo de pedir dinheiro emprestado e viajando pelos EUA para defender a população em classe econômica.

Spencer faz um trabalho excelente contextualizando o personagem com a situação social do país (e, em reflexo, de muitos lugares do mundo) nesta edição de estreia. Temas como xenofobia, violência policial e movimentos de grupo raciais no país estão distribuídos de maneira bastante uniforme nesta revista sem parecer forçação de barra e nem afogar o leitor com demagogia. Tudo isso é balanceado com ação (afinal este é um título de super herói) e certa dose de humor de situação bem sutil.

A intenção da primeira edição é mostrar as dificuldades encontradas por Sam Wilson em ser um símbolo Americano nos tempos de hoje, ao contrário de uma grande conspiração misteriosa ou ameaça em contexto global como foi visto no volume anterior. Isso é uma mudança de tom extremamente válida para este tipo de gibi que tende a apresentar primeiro o plot megalomaníaco e aos poucos ir desenvolvendo o protagonista e suas dificuldades. Os antagonistas aqui apresentados (quase no final da revista) são secundários (apesar de incontestavelmente filhos da puta) e o foco fica mesmo na relação do Capitão com o público, o governo, seus entes próximos e a própria S.H.I.E.L.D. Spencer nos entrega um roteiro de fácil assimilação, inteligente, atual e com um bom ritmo, mas não espere surpresas. Não há nada disso aqui.

A arte de Daniel Acuna (que finaliza e ainda faz toda a colorização), assim como em seu trabalho anterior em “Uncanny Avengers”, é um pouco irregular nesta edição de estreia. Enquanto em algumas páginas (as cenas no avião por exemplo) o estilo dinâmico, cômico e minimalista do artista (além do ótimo uso de uma colorização semi-fosca na revista toda) dá uma cara muito descontraída e irreverente à revista, nas cenas de ação nem tudo funciona muito bem e a falta de alguns detalhes e capricho joga contra o ilustrador. Portanto na mesma página em que você vê uma bela expressão facial de desdém da aeromoça em relação ao Capitão, vê também um quadro com seu icônico escudo desenhado de forma desproporcional e um Ossos Cruzados nem um pouco ameaçador.

O gibi tem seus bons momentos gráficos, alternando com outros não tão bons e o leitor nem queira comparar com o trabalho de Stuart Immonen no volume anterior, pois ali vimos uma das apresentações mais belas desta versão do Sentinela da Liberdade. Aqui a arte serve o bom roteiro de Spencer e só, mas não tem impacto algum na leitura. Afinal, apesar da síndrome de “Gavião Arqueiro” que infecta muitos títulos de heróis solo atualmente, nem todo mundo é um David Aja, não é verdade?

Captain America: Sam Wilson estreia trazendo uma análise muito feliz da relação entre um sujeito tentando ser um símbolo de seu povo e as repercussões desta escolha. Sam Wilson é vulnerável, muito mais do que Steve Rogers e esse é o trunfo de Nick Spencer. O autor pontua de forma sutil o gibi com temas sociais extremamente válidos e mistura isso ao típico roteiro de ação super heroica num pacote leve e de fácil digestão. A arte de Daniel Acuna dá aquilo que o roteiro pede e não prejudica em momento algum a leitura, no entanto não se pode dizer que é uma estreia visualmente impactante ou mesmo um trabalho gráfico linear em todas as suas 26 páginas. Mesmo com este solavancos gráficos, o roteiro carrega o gibi nas costas e esta trata-se de uma estreia muito forte com um direcionamento narrativo alinhado com o que o leitor atual espera ver atualmente nos títulos de seus heróis favoritos.


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