Camisa velha, sapato novo

Vestir-se bem envolve tanto a roupa usada quanto o espelho que reflete. A boa apresentação nos trajes é uma preocupação e, até mesmo, uma exigência no que ditamos de convívio urbano. Poucos são os privilegiados em poder ir trabalhar de bermuda e tênis ou encarar o chefe vestindo uma regata. Pois bem, explano a sina da camisa bem gomada, da gravata combinando, do sapato lustrado e da barra da calça feita nos mínimos cuidados.

Ninguém merece acordar no fim da madrugada, tomar um banho espreguiçador e depois se amarrar numa roupa nada confortável como o traje social. Falta muito para eu entender a mente de quem inventou esse vestuário, e ainda o assimilou como bom para o trabalho. Quem não sofre por usar terno e gravata num escritório que ligue o ar condicionado agora. Porém, e mais que um porém, nem mesmo a temperatura ambiente de 18° resolve o tão abafado ar por baixo das roupas. É bem agradável quando seu chefe decide tirar do corpo aquele terno azul-marinho e aquela pizza de suor aparecendo embaixo dos braços, não?

Outra vertente é aquela meia fina que atrita o tempo inteiro com o sapato. Além de gastá-la num exponencial incalculável, forma um chulé que nem Dom Pedro I teria usando aquela botina que sobe praticamente até coxa. E não venha me dizer que aquele pó anti-chulé resolve. Estará mentindo descaradamente!

O cinto na calça é outro detalhe importante (ou não). Tem sempre aquele tiozinho que resolve usar uma fivela de 8 centímetros da qual cobre o umbigo. Isso quando a calça já não está no próprio umbigo. Sinceramente, espero que você saiba diferenciar o que é cintura de barriga. O engraçado é que calça social sem cinto é feio pra cacete. E não, isso não é uma aula de etiqueta, até porque neste quesito devo cometer tantos erros quanto um vestibulando na prova de seleção. Já usei meia marrom com calça preta e sapato da mesma cor, por exemplo.

O traje social não abrange somente o trabalho. Já reparou nos fiéis saindo de uma igreja evangélica? Ali tem mais gomadinhos do que o escritório administrativo de uma multinacional. A bíblia na mão é ainda mais um adorno. As páginas douradas combinam com a gravata, com o relógio e o pingente do crucifixo no peito.

Tem gente que se veste assim até mesmo para ir ao boteco. Aposto um ferro de passar com você que no bar da esquina da sua rua haverá um bigodinho trajando uma camisa lisa por dentro da calça. Aliás, a camisa por dentro da calça é o mais importante dos detalhes. Já vi muitos andando por ai com a camisa fora do lugar certo e que pareciam verdadeiras baianas de escola de samba.

A roupa social é hereditária também. Quem nunca usou aquela camisa xadrez do pai ou aquele pullover do avô para ir a uma festa de 15 anos? Parece que todo pai compra seus uniformes de trabalho já pensando no futuro do filho. Por falarmos em festa de 15 anos, neste ambiente encontra-se a mais falsa concentração de trajes sociais possível. 98% das pessoas ali alugaram ou pegaram emprestadas suas roupas, a própria aniversariante terá de despedir-se do seu vestuário um dia após a festa.

Se você, cidadão de uma megalópole, trabalha e não precisa usar deste vestuário, agradeça de pés juntos e cadarços amarrados ao seu santo preferido. Ninguém merece abotoar camisa nem usar sapato!

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