in

O que uma sobrevivente ao câncer pensa sobre “A Culpa é das Estrelas”

S.L. Huang é redatora do site Disability In Kidlit, escritora e nerd ao extremo. Ela também sobreviveu ao câncer duas vezes e seu maior lamento sobre a doença é o fato da radiação não ter lhe dado super poderes.

Ela fez um review do livro “A Culpa é das Estrelas”, de John Green, que foi adaptado recentemente nos cinemas e protagonizado por Shailene Woodley, Ansel Elgort e Nat Wolff. O livro é um best-seller e o filme foi um sucesso de crítica e bilheteria, mas há algumas coisas muito importantes acerca dessa história que, provavelmente, nenhum de nós percebeu. É disso que o texto de S.L. Huang se trata, leia:


Eu: sobrevivente ao câncer por duas vezes, a primeira aos 12 anos, com quimioterapia, radiação e 50% de chances. A segunda aos 20, um câncer diferente. Durante o primeiro, eu fui tratada em um hospital infantil e conhecia alguns dos outros pacientes de lá. Eu também fui a vários acampamentos de verão para crianças com câncer, onde eu conheci vários outros. Também há outros sobreviventes que são próximos e me ajudaram com o câncer mais recente.

Minha história com “A Culpa é das Estrelas”: Pela premissa eu suspeitei que não iria gostar deste livro. O fato dele alegar que não é um “livro-câncer” (livros que falam sobre câncer de forma clichê, romantizada ou previsível) é ainda mais frustante, já que esse é o livro-câncer mais canceroso de todos os livros-câncer.

O que uma sobrevivente ao câncer pensa sobre "A Culpa é das Estrelas"

Minhas expectativas eram baixas, mas eu estava disposta a ser surpreendida – e eu fui. Eu esperava sentir um pouco de raiva na leitura, mas pelo que ouvi, também esperava que fosse bem escrito e envolvente.

Em vez disso, a má compreensão dos pacientes com câncer e imprecisões repetidas ficaram um pouco monótonas. Eu reconheço que não vivi todas as experiências possíveis com o câncer, mas senti que toda página trazia algo que parecia errado ou que eu nunca tinha escutado ninguém falar. E para o meu choque total, o livro era chato.

As razões pelas quais eu o achei chato me deixaram com raiva de novo, porque são um indicativo do quão mal John Green retrata pacientes pediátricos de câncer.

Há o argumento de que algumas pessoas, em algum lugar, reagirão ao câncer da mesma forma que os personagens de Green reagiram. Mas esse argumento é inconsistente para mim, porque é a mesma coisa que dizer que uma crítica a um personagem asiático é inválida, pois pode haver alguma criança asiática, em algum lugar, que se encaixa nos mais absurdos esteriótipos em que a sociedade quer associá-la. Retratar seus personagens de uma determinada maneira é uma escolha… E torna-se uma escolha problemática quando você tem vários personagens na mesma demografia e escolhe retratar todos da mesma maneira.

E foi isso que John Green fez.

O que uma sobrevivente ao câncer pensa sobre "A Culpa é das Estrelas"

Todos os seus personagens reagem ao câncer fundamentalmente da mesma maneira e compartilham as mesmas opiniões sobre tudo relacionado à vida e ao câncer. Seria diferente se essas opiniões e reações me tocassem – sendo alguém que passou por isso (duas vezes) – e me fizessem pensar, “Oh, sim, isso soa verdadeiro.” em relação a mim ou a alguém que conheço. Mas praticamente nenhuma delas faz.

Todos os personagens de Green têm vidas que giram inteiramente em torno de seu câncer. Este é o aspecto mais preocupante do livro para mim. Apesar de suas declarações contrárias – “Não diga que você é uma daquelas pessoas que se torna sua doença” – os personagens são retratados como se não houvesse nada em suas vidas que não se relacionasse com o câncer. Até mesmo os livros de Hazel e os jogos de videogame de Gus são reflexos de suas reações ao câncer.

Sim, o câncer mexe com sua vida. Ele pode até tomar conta de sua vida, pelo menos por um tempo. Mas o que eu, pessoalmente, adoraria que as pessoas entendessem, é que há coisas que importam além da doença. Temos metas, motivações e personalidades que não têm nada a ver com a nossa condição de seres cancerosos ou sobreviventes.

O que uma sobrevivente ao câncer pensa sobre "A Culpa é das Estrelas"

Não há nada em “A Culpa é das Estrelas”, nenhum conflito, nenhum personagem, que não seja relacionado ao câncer.

Eles até mesmo admitem isso. Hazel diz, no início do livro, que ela não é interessante – coisa que Gus nega veementemente para conseguir transar com ela. E realmente nunca é provado que ela seja interessante como pessoa. Quando seus pais estão falando sobre o que eles amam nela, diferente de tudo que poderiam dizer, eles citam as duas únicas coisas que nós sempre vemos Hazel fazendo: ler e assistir TV.

Não me entenda errado. Uma pessoa comum pode ser retratada tendo uma vida extraordinária e que valha a pena (algo que Jesse Andrews fez muito bem no livro “Eu, Você e a Garota que vai Morrer”). E se Hazel fosse moldada dessa maneira – como um ser humano cuja vida fosse valiosa devido a todas as particularidades importantes que ela trouxe ao mundo, não importando quão aparentemente triviais elas pudessem ser – eu teria ficado satisfeita. Mas, em vez disso, Hazel é continuamente descrita como especial e digna de louvor. Uma adolescente excepcional… Só que o seu diferencial, em vez de ser alguma qualidade intrínseca, é uma doença. Se tirarmos seu câncer, Hazel se torna uma boneca de papelão, sem qualquer caracterização que nos conecte com ela.

O que uma sobrevivente ao câncer pensa sobre "A Culpa é das Estrelas"

Eu conheci muitas crianças com câncer. Todas nós tivemos personalidades, interesses e motivações que não tiveram nada a ver com essa “dor que tem que ser sentida”. E se Green tivesse feito eu me importar com Hazel e Gus como personagens, logo eu iria acabar me preocupando com seus problemas com o câncer. Mas eu não vou me importar com eles apenas por causa do câncer – e isso não é apenas uma narrativa preguiçosa, mas também um insulto para mim como pessoa que teve câncer.

O tratamento do câncer é uma parte de nossas vidas, mas isso não nos define. Tampouco faz com que magicamente nos tornemos profundos.

Nenhum de nós, jovens com câncer, tem metade da pretensão ou da profundidade que os jovens do livro de Green. Eu fiquei exausta rapidamente com o existencialismo ridículo de Hazel e Gus.

O que uma sobrevivente ao câncer pensa sobre "A Culpa é das Estrelas"

O câncer é aleatório. Ele não escolhe atacar especialmente as pessoas profundas (novamente, isso é algo que o livro proclama, mas logo mostra o contrário) e tampouco torna alguém profundo.

Ele [o câncer] certamente nunca me fez profunda, apenas me deixou com raiva. E eu nunca falei com nenhum outro paciente com câncer da forma como os personagens de Green falam. Suspeito que as pessoas que nos enxergam de fora, atribuem essa profundidade na gente por causa da justaposição da morte iminente e injusta. Mas, sério, a maioria de nós era apenas crianças.

Crianças, devo acrescentar, que eram todas muito diferentes.

É absolutamente bizarro, para mim, que os personagens de Green encontrem amizades e relacionamentos perfeitos entre outros pacientes pediátricos com câncer. Apesar de conhecer e socializar com um número muito grande de crianças com câncer, nunca tive nada além de uma amizade passageira com qualquer uma delas. Elas eram pessoas agradáveis, mas tínhamos muito pouco em comum.

O que uma sobrevivente ao câncer pensa sobre "A Culpa é das Estrelas"

Minha descrença explode ao ver um personagem como Gus, cujo melhor amigo, ex-namorada e atual namorada são todos pacientes com câncer. Pior ainda, isso aumenta a ideia de que o câncer é, de alguma forma, uma característica de definição pessoal, algo para basear uma amizade ou relacionamento. Isso é tão arbitrário e detestável quanto dizer que duas pessoas que, por acaso, são homossexuais são “claramente compatíveis e devem ficar juntos”.

Claro que, às vezes, dois pacientes com câncer se apaixonam. Mas o fato de Green ter escolhido isso, em particular, para dar destaque em seu livro é o que me perturba, porque reforça a ideia de que o câncer é tudo o que somos.

O que uma sobrevivente ao câncer pensa sobre "A Culpa é das Estrelas"

Esses personagens pensam e falam sobre câncer de forma obsessiva. Sabe qual era a última coisa na qual eu queria falar quando tive câncer? Lhe dou uma chance para acertar.

E eu não estava sozinha. Quando fui para os acampamentos de verão mencionados antes, até onde eu me lembro eram realmente apenas… Você sabe, acampamentos de verão. Ficávamos em cabanas, brincávamos, entre outras coisas. As únicas coisas que eram diferentes de um acampamento normal de verão eram: 1) metade das crianças estava careca; e 2) de vez em quando as histórias sobre os anos anteriores acabavam com “ele não está mais entre nós”. Então havia um minuto de silêncio e, em seguida, voltávamos a brincar, contar histórias e tudo mais.

Eu me pergunto por que os adolescentes de Green são obcecados dessa forma com seus cânceres, a ponto de mergulhar tanto neles. Como eu mencionei antes, não é apenas um de seus (muitos) personagens com câncer que fazem isso; são todos eles. Mesmo aqueles em remissão, como o cara que coordena o grupo de apoio ou uma das garotas que ainda o frequentam, apesar de sua remissão. Ninguém possui outra vida.

Esse tipo de representação me enfurece.

O que uma sobrevivente ao câncer pensa sobre "A Culpa é das Estrelas"

Outra coisa que me incomodou neste livro, é que ele escolhe quais partes desconfortáveis do câncer quer usar, dependendo de quais emoções quer vender. É terrivelmente desonesto. O câncer não é assim. Você não consegue escolher e isolar quais partes horríveis da doença quer falar e, convenientemente, colocá-las em um arco narrativo perfeito.

No começo do livro, Hazel e Augustus são convenientemente fofinhos e atraentes. Ela se parece com a Natalie Portman. Ele é o tipo de cara bonito o suficiente para fazer com que seus olhares não sejam desconfortáveis (que grande mensagem, não?). Ambos têm cabelo. Eles não são esqueléticos.

O que uma sobrevivente ao câncer pensa sobre "A Culpa é das Estrelas"

Isso é pobre. Pobre e desagradável. Quando você tem câncer, você não fica atraente. Para mim, Green inventou o regime de medicamentos de Hazel de forma totalmente ficcional e sob medida para mantê-la bonita. Deixando claro que eu não tenho qualquer problema com um tratamento ficcional para câncer, afinal, medicamentos variam muito e estão evoluindo o tempo todo. Mas é evidente que a medicação imaginária de Hazel, convenientemente, mantém sua boa aparência, especialmente considerando que a perda de cabelo é um dos efeitos colaterais mais comuns e mais desproporcionalmente traumáticos para muitas adolescentes – e não afeta nenhum dos protagonistas.

Sabe o que seria legal? Hazel – careca – se apaixonando pela primeira vez no momento em que estivesse vomitando e seu pretendente, olhando. Especialmente se o cara também fosse careca e vomitasse.

O que uma sobrevivente ao câncer pensa sobre "A Culpa é das Estrelas"

John Green pegou uma das piores experiências da minha vida e a romantizou para vender um livro.

***

Há apenas duas partes do romance que eu gostei.

A primeira é quando o tubo de alimentação de Gus escapa, ele está vomitando e Hazel não pode fazer nada além de ligar para o pronto-socorro. Essa foi uma das únicas cenas honestas sobre o câncer. (Pelo menos até Hazel começar a ser poética)

A segunda foi uma cena no jardim, onde Hazel e Gus fazem trocadilhos com seus cânceres. Gus diz algo sobre ser tão atraente que “tirou o fôlego” de Hazel e “cegou” seu amigo Isaac. Na maior parte do tempo – salvo algumas falas de Isaac, que foram boas – o humor neste livro se resumiu a: “Olha, essas crianças são tão normais, elas até fazem piadas sobre seu câncer!”. Somente durante esta cena, em particular, eu senti que as piadas foram decentes e realistas. A parte mais surpreendente sobre esta cena, se você compará-la com as minhas experiências na vida real, é que os pais não participaram. Os pais precisam de humor também!

Vou voltar à premissa. Como eu sabia que não iria gostar deste livro? Porque ele faz o que todos os livros e filmes sobre câncer fazem: usa o câncer como uma espécie de lente para o significado da vida e, em seguida, alguém morre e isso é muito, muito triste.

O que uma sobrevivente ao câncer pensa sobre "A Culpa é das Estrelas"

A taxa de sobrevivência para o câncer pediátrico é atualmente maior que 80%. Oitenta. Por. Cento. Algumas fontes dizem que é cerca de 90%. A maioria de nós sobrevive! A maioria de nós sobrevive e tem uma vida plena, interessante e diversificada! Mas isso nunca acontece num livro-câncer.

Você sabe o que não teria sido clichê? Se Hazel e Gus tivessem sobrevivido. Se eles tivessem sobrevivido, e, eventualmente, terminado o namoro. E Hazel, então, vivesse sua vida, conhecesse alguns outros meninos e, mais tarde, lembrasse o quão terrivelmente pretensioso era o seu primeiro namorado.

Isso teria sido revolucionário. Quebrador de paradigmas. Inesperado.

Sabe o que acontece quando você escreve um livro sobre crianças com câncer e alguém morre? Isso é exatamente o que esperamos que aconteça. Porque a sociedade já nos transformou nessas figuras trágicas cujo propósito é ganhar prêmios de literatura e cinema com nossas mortes.

Eu não existo para ser a sua tragédia. Eu não existo para você encontrar o significado especial da sua vida. Eu não existo para ensinar lições às pessoas ou fazê-las se emocionar.

O que uma sobrevivente ao câncer pensa sobre "A Culpa é das Estrelas"

Há uma frase de Hazel que resume este livro:

“Eu odiava quando as pessoas faziam isso comigo, mas eu fazia com ele, mesmo assim.”

“A Culpa é das Estrelas” fala para as pessoas serem mais do que sua doença. E então nos mostra personagens que não são nada além de seu câncer.

“A Culpa é das Estrelas” fala sobre o câncer ser aleatório e que nem todos os pacientes seriam simpáticos e respeitosos. Então nos mostra pacientes extraordinariamente profundos que ninguém no mundo conseguiria entender.

“A Culpa é das Estrelas” critica os livros-câncer. Então se torna a epítome dos livros-câncer.

“A Culpa é das Estrelas” diz que odeia quando as pessoas, os livros e os filmes representam as pessoas com câncer dessa forma. E então representa da mesma forma. Várias vezes.


O que você acha da opinião de S.L. Huang? Há algo que você gostaria de criticar ou defender em “A Culpa é das Estrelas”? Conte nos comentários!

Texto original: Review – The Fault in Our Stars by John Green

E aí, curtiu?

Escrito por Louise

Amo, respiro e me alimento de quadrinhos, acho completamente normal se envolver emocionalmente com personagens de séries e filmes, e já vou avisando: NÃO MEXA COM MEUS HERÓIS!

Comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Loading…

Loading…

0

O Conto da Princesa Kaguya (2013) | Obra-prima atemporal do Estúdio Ghibli

Assassin’s Creed: Syndicate | Vídeo com gameplay de 1h liberado