Uma Atípica Sexta-Feira 13

Era quase manhã. Esperei ansiosamente a noite toda para que algo aterrorizante passasse por aqui. Qualquer coisa mesmo! Seja o Lobo Mau desfiando a Chapeuzinho Vermelho, um Freddy Krueger aterrorizando meus priminhos ou, sei lá, uma gorda de calcinha bege rebolando. Mas não apareceu nada...

No alto deste cume, só o vento no cume bate. Cerca de sete horas aqui sentado com esta garrafa de vinho vagabundo, agora já vazia, crente de que comemoraria minha Sexta-feira 13 descentemente. Bato os olhos nos ponteiros do relógio e essa merda marca 5:48. Pois é, perdi mais uma madrugada em claro à toa. Nada é mesmo igual aos velhos anos.

Decido partir, afinal ainda é sexta e tenho de trabalhar. Levanto-me rapidamente e sinto uma leve tontura justamente por isso. Tanto tempo ali sentado e o que aconteceu de mais assustador foi uma maldita tontura. Deixo cair o agasalho enquanto vejo o mundo girando. Concentro-me. Confiro o relógio novamente: 5:48. Além de tudo, as horas não passam. Por um instante esqueço do agasalho na grama, viro-me para o além e reparo em cada pedaço do horizonte como se havia perdido uma agulha no palheiro; ainda esperançoso em encontrar algo. Desisto logo depois. Agacho, pego o agasalho cor-de-barro e sigo rumo ao lar.

Os primeiros raios de sol começam a aparecer e, tão sem nexo quanto a mim, um rapaz aparece quase que na base do cume. Nestas horas é bem provável que seja um atleta que goste de trilhas, eles costumam frequentar aqui para se divertirem. Mas a essa hora? Sozinho? Descubro que não seria mesmo um trilheiro quando me aproximo e vejo que as roupas e o coturno dele dificultariam qualquer movimento dentro da mata. Mando um “bom dia” quase que sem som, mas ele fingiu não escutar. Estranhei.

Segui com mais alguns passos e senti que o filho da puta estava me olhando de rabo de olho. Ele não era assustador, até mesmo um monstro do Power Rangers botava mais medo que ele. Tentei não me importar, mas não resisti. Virei-me defronte a ele já rasgando mil verbos:

- Que foi que perdeu aqui? – imagine um grito distorcido aqui.

O filho da puta ainda inerte ficou sem responder nada. Repeti mudando a ordem das palavras:

- Perdeu alguma coisa em mim?

O olhar dele penetrava minha alma. Tinha o rosto fino, bem pálido, parecia que estava há dias sem comer. Caminhou com passos leves até mim e disse:

- Só quero matar minha sede antes que este sol nasça totalmente.

A garrafa do vinho ainda estava em minhas mãos. Mostrei a ele sem mesmo dizer nenhuma palavra. Era subentendido que não tinha mais nada a oferecer do que isso. Indiquei um caminho que daria em um riacho, mas o carinha insistiu em dizer:

- Amigo, o que preciso já está aqui na minha frente.

Procurei ao redor algo que pudesse fazer sentido ao que ele acabara de dizer. Demorei alguns segundos para entender de que ele tratava da minha própria pessoa. Ainda pestanejei a hipótese de alguém ter contratado o cara só para me assustar. Todos sabem que em véspera de sexta-feira 13 gosto de vir aqui, sozinho. Mantive a posição de desentendido e retruquei:

- Não tenho nada a te oferecer, amigão. Tudo que levo é essa garrafa de vinho que, não sei se pode ver, mas está vazia.

- Só quero um pouco do seu sangue e partirei sem deixar rastros.

Neste exato momento meu corpo entrou em colapso. Eu não sei se ria ou se realmente me amedrontava. Segui a teoria: se o filho da puta quer meu sangue, no máximo ele seria um vampiro. Vampiros dormem durante o dia e, por contradição, já está amanhecendo. Esse cara é um bom ator, ri debochadamente. Senti certa ira no rosto dele. Recolhi o riso.

Parece que a eternidade tomava conta do momento. Ele estagnou ali como se os pés tivessem criado raízes e permaneceu com os olhos fixados em mim. Tentei virar-me e seguir meu trajeto, mas sei lá, aquele filho da puta estava me divertindo.

Foi quando que num flash o desgraçado correu em minha direção. Não movi sequer um passo. Continuei parado, talvez só esperando pelo tranco. Não deu outra. Feito um felino, saltou sobre mim e caímos naquela grama barrenta. Com o impacto, perdi a garrafa na grama. Ali então senti a força do rapaz. Seu rosto pálido e fino ganhou mais traços. Podia encará-lo face a face. Demos voltas e voltas naquele chão. Ora ele ficava por cima, ora eu conseguia desvencilhar-me. Ficamos assim, durante minutos. Certeza. Até que dois dentes apontaram pela boca do indivíduo. Pareciam tão reais quanto nos filmes. Acreditei por um instante que ele fosse realmente um vampiro, mas aquilo não fazia o menor sentido.

Com os caninos dele desejando o meu pescoço, tive de resgatar ainda mais minha força. Não sei de onde vinha tanta energia, ainda que faziam horas que não comia nada. Mesmo assim não economizei esforço. Tive de enfim dar um soco na fuça dele, o vampirinho nem hesitou a investida. Continuou a mirar o meu pescoço: ora pela direita ora pela esquerda. No ápice do confronto, quando eu estava prestes a sucumbir, algo de muito estranho acontece. Aquilo sim foi algo assustador! Não vi nada daquela maneira durante toda minha vida.

O vampirinho – coitado! – começou a brilhar. Tremi muito mais por susto do que por medo! Parecia que havia tirado na sorte uma figurinha cromada. Tanto brilho que conforme o tempo passava o sol tornava-se indiferente. Tirei aquele peso morto de cima de mim, o desgraçado ficou ali no chão como o meu agasalho ficara há pouco tempo atrás. No instante seguinte, o ser que não mais parecia vivo evaporou. Restou na base daquele cume, o vento que no cume batia, a garrafa esparramada a alguns passos de mim e essa atípica história de sexta-feira 13. Quaisquer semelhanças são meras coincidências.

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